Novas observações dos anéis externos de Urano indicam que o planeta pode abrigar mais luas do que as 29 já conhecidas. O estudo reúne dados do Telescópio Espacial James Webb, do Hubble e do Observatório W. M. Keck, e aponta que os dois anéis mais externos, chamados mu e nu, têm origens distintas e podem ser alimentados por pequenos satélites naturais ainda não identificados. Os resultados foram publicados em 16 de abril no periódico Journal of Geophysical Research: Planets. De acordo com informações do Olhar Digital, as observações reforçam a hipótese de que há outros corpos orbitando o gigante de gelo.
Os dados mostram que as partículas que compõem os anéis mu e nu apresentam características diferentes, o que sugere processos de formação distintos. Além de confirmar diferenças de cor já observadas anteriormente, a análise também forneceu pistas sobre a composição desse material e sobre a possível participação de pequenas luas ainda não descobertas na manutenção dessas estruturas.
O que torna os anéis de Urano diferentes?
Diferentemente dos anéis mais brilhantes e complexos de Saturno, os de Urano são mais discretos. Eles foram descobertos em 1977, quando bloquearam a luz de estrelas ao fundo durante um fenômeno de ocultação estelar. As primeiras imagens diretas vieram depois, com a passagem da sonda Voyager 2 por Urano, em janeiro de 1986.
Desde então, novas observações feitas pelo Hubble e pelos telescópios de dez metros do Observatório W. M. Keck, no Havaí, permitiram ampliar o conhecimento sobre esse sistema, elevando para 13 o total de anéis identificados. Os dois mais externos, mu e nu, foram descobertos entre 2003 e 2005 por uma equipe liderada por Mark Showalter, do SETI Institute.
Segundo as observações iniciais, o anel mu tem coloração azulada, enquanto o anel nu apresenta tonalidade avermelhada. Essas diferenças indicam composições distintas: o azul está associado a partículas muito pequenas, enquanto o vermelho sugere maior presença de poeira.
Como os cientistas chegaram a essa conclusão?
Ao combinar dados infravermelhos do James Webb com observações anteriores do Hubble e do Keck, uma equipe liderada por Imke de Pater, da Universidade da Califórnia em Berkeley, produziu o primeiro espectro completo de refletância dos anéis, isto é, a forma como eles refletem a luz solar. Essa leitura confirmou as diferenças entre os dois anéis e ajudou a apontar possíveis origens para o material observado.
“Ao decodificar a luz desses anéis, podemos rastrear tanto a distribuição do tamanho de suas partículas quanto sua composição, o que lança luz sobre suas origens, oferecendo novas perspectivas sobre como o sistema uraniano e planetas semelhantes se formaram e evoluíram”, afirmou de Pater em comunicado.
O estudo indica que o anel mu é composto principalmente por partículas de gelo de água. Essa característica é semelhante à do anel E de Saturno, que também é azulado e formado por material expelido por atividade criovulcânica na lua Encélado.
Quais luas podem estar relacionadas a esses anéis?
No caso de Urano, as partículas do anel mu foram associadas à lua Mab, um pequeno satélite irregular com cerca de 12 quilômetros de diâmetro, descoberto em 2003 por Mark Showalter. Ainda assim, os pesquisadores observaram que a predominância de gelo em Mab contrasta com outras luas internas do planeta, que tendem a ser mais rochosas e ricas em poeira.
Já o anel nu apresenta uma composição descrita no estudo como mais “suja”, com cerca de 10% a 15% de compostos orgânicos ricos em carbono, comuns nas regiões frias do Sistema Solar externo. Isso sugere que o material do anel pode se originar de poeira liberada por impactos de micrometeoritos e colisões entre pequenos corpos rochosos ainda não identificados.
“O material dos anéis nucleares provém de impactos de micrometeoritos e colisões entre corpos rochosos invisíveis, ricos em materiais orgânicos, que devem orbitar entre algumas das luas conhecidas. Uma questão interessante é por que os corpos progenitores que originam esses anéis são tão diferentes em composição”, explicou de Pater.
O que ainda falta descobrir sobre Urano?
Os pesquisadores também identificaram indícios de que o brilho do anel mu pode estar mudando de forma sutil, embora o significado desse fenômeno ainda não esteja claro. Como essas pequenas luas têm tamanho reduzido e baixa luminosidade, respostas mais conclusivas devem depender de novas missões espaciais ao planeta.
“Suspeito que precisaremos de imagens em close-up de uma futura missão espacial a Urano para responder a essa pergunta”, afirmou Showalter.
Segundo o texto original, uma missão desse tipo já está em planejamento, condicionada à disponibilidade de financiamento. O retorno a Urano foi apontado como prioridade máxima na pesquisa decenal mais recente da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.
As observações reforçam a avaliação de que o sistema de anéis de Urano ainda guarda estruturas e corpos pouco compreendidos. Entre os principais pontos destacados pelo estudo, estão:
- os anéis mu e nu têm composições diferentes;
- o anel mu parece ser formado principalmente por gelo de água;
- o anel nu reúne poeira e compostos orgânicos ricos em carbono;
- pequenas luas ainda não identificadas podem estar associadas à formação desses anéis;
- novas missões espaciais podem ser necessárias para esclarecer a origem desses materiais.