Bonobos e chimpanzés vêm demonstrando capacidades cognitivas que desafiam antigas distinções entre humanos e outros grandes primatas, segundo uma série de estudos recentes citados em reportagem publicada nesta quinta-feira, 23 de abril, com exemplos de pesquisas conduzidas nos Estados Unidos, em Uganda e na Europa. Os trabalhos abordam brincadeira de faz de conta, revisão racional de crenças e sensibilidade social, ampliando a compreensão científica sobre como esses animais pensam e interagem.
De acordo com informações do Guardian Environment, uma das descobertas mais recentes envolveu Kanzi, um bonobo que participou, em 2024, de um experimento no centro Ape Initiative, em Des Moines, Iowa. O estudo, com resultados publicados em fevereiro na revista Science, foi descrito como o primeiro a testar e documentar empiricamente a brincadeira de faz de conta em uma espécie de grande primata.
No experimento, copos e jarras transparentes eram usados para simular a presença de suco. Em uma das situações, dois copos eram “cheios” e um deles depois era “esvaziado” na jarra. Em seguida, Kanzi precisava indicar qual copo ainda continha o suposto líquido. Segundo a reportagem, ele acertou 34 de 50 tentativas, resultado interpretado pelos pesquisadores como indício de que conseguia compreender a lógica de uma bebida imaginária.
Em outro teste, Kanzi teve de escolher entre suco de laranja real e suco de faz de conta. De 18 tentativas, escolheu o copo com a bebida real em 14 ocasiões. Para os pesquisadores ouvidos pela reportagem, o desempenho sugere uma capacidade de representar mentalmente uma realidade que não está materialmente presente diante do animal.
O que o caso de Kanzi indica sobre a imaginação dos bonobos?
A reportagem afirma que esse tipo de habilidade teria sido considerado improvável algumas décadas atrás. Nos anos 1990, a ciência já reconhecia que grandes primatas eram inteligentes, resolviam problemas, usavam ferramentas, formavam vínculos sociais e podiam aprender símbolos, sinais e tarefas de autorreconhecimento no espelho. Ainda assim, temas mais abstratos, como representação mental, cultura e teoria da mente, permaneciam menos explorados.
A psicóloga comparativa Amalia Bastos, da Universidade de St Andrews, disse à reportagem que a área tem repetidamente revisto ideias sobre características supostamente exclusivas dos humanos. Segundo ela, cientistas testam essas hipóteses e encontram evidências de que outros animais também são capazes de imaginação e de representações secundárias.
“It seems to be a recurring thing in our field where people come up with reasons why humans are special and unique, and then scientists like me test it out, and we find that, actually, maybe we’re not that special after all.”
Kanzi, que morreu no ano passado, já era conhecido por ter aprendido 300 símbolos e por compreender milhares de palavras faladas em inglês, segundo a reportagem. Seu histórico de pesquisas ajudou a transformá-lo em uma referência nos estudos sobre cognição de primatas.
Que outras descobertas recentes aproximam grandes primatas dos humanos?
O texto reúne uma série de achados recentes sobre o comportamento de grandes primatas. Entre os exemplos citados, estão estudos indicando que chimpanzés e bonobos conseguem se lembrar de antigos companheiros de grupo por décadas e que chimpanzés revisam crenças anteriores quando confrontados com evidências mais fortes.
A reportagem também menciona outros comportamentos observados por pesquisadores:
- gorilas-do-ocidente com comportamentos de beijo;
- orangotangos, bonobos, chimpanzés e gorilas provocando uns aos outros de forma lúdica;
- bonobos cooperando com indivíduos de fora de seus grupos sociais;
- chimpanzés demonstrando fascínio recorrente por cristais.
Outro ponto destacado é o avanço nas pesquisas sobre teoria da mente, conceito usado para descrever a capacidade de entender que outros indivíduos têm pensamentos, crenças, desejos, intenções e conhecimentos próprios, diferentes dos nossos. Por muito tempo, essa habilidade foi tratada como exclusivamente humana.
Christopher Krupenye, cientista cognitivo da Universidade Johns Hopkins, afirmou à reportagem que, nas últimas décadas, diferentes grupos de pesquisa produziram evidências de que chimpanzés e outros grandes primatas são extremamente sensíveis a seus parceiros sociais. Para ele, o debate saiu de uma fase em que não havia evidência reconhecida para um cenário de consenso sobre uma capacidade relevante nessa área.
“This is a case where há 30 anos the dominant view was there is no evidence whatsoever. And, today, the consensus is that there is an exciting capacity here.”
Como os chimpanzés foram testados sobre racionalidade?
Um dos estudos citados foi conduzido em 2025 com chimpanzés semicautivos no santuário de Ngamba Island, em Uganda. A pesquisa, liderada por Hanna Schleihauf, da Universidade de Utrecht, buscou avaliar se os animais revisam suas crenças conforme a força das evidências muda.
Nos testes, os pesquisadores apresentavam duas caixas voltadas para longe do chimpanzé. Uma delas era chacoalhada, sugerindo que poderia haver alimento dentro. O animal então fazia uma primeira escolha. Depois, a segunda caixa era virada, revelando algo parecido com uma maçã em seu interior, o que representava uma evidência mais forte.
Segundo a reportagem, diante dessa nova informação, os chimpanzés mudaram sua escolha, comportamento interpretado pelos pesquisadores como um exemplo de revisão racional de crenças. A conclusão apresentada no texto é que os humanos não seriam os únicos a agir dessa forma.
A reportagem observa ainda que boa parte das pesquisas cognitivas com grandes primatas é feita com indivíduos que vivem em zoológicos ou santuários, o que permite acompanhar cada animal por anos e desenhar experimentos específicos. Ao mesmo tempo, cientistas seguem tentando entender mais profundamente o potencial cognitivo desses primatas, em um contexto de ameaça à sobrevivência das sete espécies de grandes primatas não humanos, todas classificadas como ameaçadas ou criticamente ameaçadas de extinção, segundo o texto.
Nesse cenário, o avanço do conhecimento científico sobre a vida mental desses animais também ganha urgência. Como resume a reportagem, estudar os grandes primatas ajuda os pesquisadores a compreender melhor não apenas nossos parentes evolutivos mais próximos, mas também aspectos fundamentais do que se convencionou chamar de humano.