O Vaticano anunciou nesta quinta-feira (2 de abril de 2026) a abertura oficial de um “canal de escuta” destinado a organizar e processar as indenizações para as vítimas da congregação peruana Sodalício de Vida Cristã (SVC). A medida surge após a dissolução da organização, que foi alvo de graves denúncias envolvendo abusos sexuais, físicos e psicológicos contra menores e adultos vulneráveis. O objetivo da Santa Sé é estabelecer um mecanismo direto de reparação para aqueles que sofreram sob a estrutura da antiga instituição religiosa.
De acordo com informações do UOL Notícias, a iniciativa é um desdobramento das investigações conduzidas pela missão especial enviada pelo Papa Francisco ao Peru. A congregação, fundada por Luis Fernando Figari, enfrentava décadas de acusações que culminaram em uma intervenção direta das autoridades eclesiásticas. A criação deste canal representa uma etapa fundamental no processo de responsabilização e auxílio às vítimas identificadas durante o longo inquérito.
Como funcionará o canal de escuta para as vítimas?
O canal de escuta servirá como uma ponte entre as vítimas e a comissão encarregada de gerir os ativos remanescentes da congregação dissolvida. Por meio deste sistema, os denunciantes poderão apresentar seus relatos e documentações que auxiliem na comprovação dos danos sofridos. A equipe responsável, composta por especialistas em direito canônico e assistência humanitária, avaliará cada caso individualmente para determinar a natureza e o suporte necessário para cada indivíduo.
A decisão de dissolver o Sodalício de Vida Cristã ocorreu após a confirmação de um padrão sistêmico de abusos e de uma gestão autoritária imposta por sua liderança. O fundador, Luis Fernando Figari, já havia sido sancionado anteriormente, mas as novas evidências coletadas por investigadores enviados por Roma revelaram uma profundidade de práticas irregulares que exigiram o encerramento total das atividades da instituição em solo peruano e internacional.
Qual é o objetivo das indenizações do Vaticano?
As indenizações não visam apenas o aspecto financeiro, mas buscam o reconhecimento oficial do sofrimento causado pela congregação sob a égide da Igreja. A Santa Sé indicou que o processo faz parte de uma política de transparência estabelecida pelo pontificado atual. Além do pagamento de valores reparatórios, o Vaticano se comprometeu a oferecer caminhos para o acompanhamento terapêutico, reconhecendo que os impactos dos abusos cometidos em ambientes institucionais podem ser duradouros.
Para garantir a lisura do processo, a administração dos fundos para indenização será monitorada por órgãos competentes. Os recursos deverão ser provenientes dos bens patrimoniais que pertenciam ao SVC, garantindo que a própria estrutura institucional arque com os custos da reparação. Este modelo segue protocolos aplicados em outros casos onde organizações religiosas foram reestruturadas ou extintas devido a escândalos de má conduta e violência física ou psicológica.
Quais foram as principais denúncias contra o Sodalício?
As investigações detalharam uma série de violações de direitos fundamentais dentro da comunidade religiosa. Entre os pontos principais levantados pelas autoridades eclesiásticas e por ex-membros da instituição, destacam-se:
- Prática de abusos sexuais contra adolescentes e jovens em processo de formação religiosa.
- Relatos de violência física e castigos corporais utilizados como método de disciplina.
- Abuso psicológico e manipulação de consciência para controle dos membros.
- Irregularidades na gestão de ativos financeiros pertencentes à congregação.
- Ocultação sistemática de crimes por parte da alta cúpula da organização ao longo de anos.
A dissolução e a subsequente criação do canal de indenização encerram um período de crise institucional na Igreja Católica da região. O Vaticano reforçou que a prioridade absoluta agora é o acolhimento das vítimas, sinalizando que a instituição manterá o rigor no controle de suas ordens e congregações para evitar a repetição de tais condutas. Como o Brasil possui a maior população de fiéis católicos do mundo, esse tipo de intervenção direta da Santa Sé cria um importante precedente jurídico e canônico de reparação que pode nortear a atuação das dioceses brasileiras diante de eventuais casos semelhantes.