A quantidade de países em situação crítica de insegurança alimentar pode quase triplicar, chegando a 24, se a temperatura média global subir 2°C acima dos níveis pré-industriais, segundo uma análise do International Institute for Environment and Development (IIED) publicada nesta segunda-feira, 23 de março de 2026. O estudo aponta que os sistemas alimentares dos países de baixa renda devem se deteriorar de forma muito mais rápida do que os das nações ricas, ampliando a desigualdade global diante da crise climática. De acordo com informações do Guardian Environment, os efeitos tendem a ser mais severos em países já marcados por pobreza, fragilidade institucional e baixa proteção social.
Embora o foco do levantamento esteja em países de baixa renda, o tema também tem implicações para o Brasil, um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Em um mercado global interligado, choques climáticos e alta de preços em diferentes regiões podem afetar cadeias de suprimento, inflação de alimentos e políticas de abastecimento no país.
A análise do IIED conclui que, embora o aquecimento global aumente o risco de insegurança alimentar em todo o mundo, os impactos não serão distribuídos de forma uniforme. Nos países de baixa renda, os sistemas alimentares devem piorar em ritmo sete vezes maior do que nas economias mais ricas. Entre os países citados entre os mais afetados estão Somália, República Democrática do Congo, Afeganistão, Haiti e Moçambique.
O que o estudo projeta para um cenário de aquecimento de 2°C?
Segundo o levantamento, sob um cenário de aquecimento de 2°C, a insegurança alimentar deve crescer mais de 30% nesses países mais vulneráveis, com risco de crises agudas e fome. Já nas nações de alta renda, o aumento projetado é de 3% em média. Considerando o conjunto dos países de baixa renda, a alta média prevista é de 22%.
O estudo também destaca a disparidade entre responsabilidade pelas emissões e exposição aos impactos. De acordo com a análise, os países de baixa renda respondem por 1% das emissões globais, enquanto os países de alta renda e de renda média alta concentram mais de 80%. Para a pesquisadora Ritu Bharadwaj, autora do estudo, os países que menos contribuíram para o problema tendem a enfrentar a deterioração mais rápida.
“Países que já enfrentam pobreza, fragilidade e redes de proteção social limitadas devem registrar a deterioração mais rápida nos sistemas alimentares, apesar de terem contribuído menos para as emissões globais.”
“Hoje, quase 59% da população mundial já vive em países com segurança alimentar abaixo da média, e nossas projeções mostram que a mudança climática tende a ampliar essa lacuna.”
Como o IIED mediu o risco para os sistemas alimentares?
O IIED desenvolveu um Índice de Segurança Alimentar para 162 países. A ferramenta mede a vulnerabilidade sistêmica de todo o sistema alimentar nacional e estima como a ruptura climática pode afetá-lo em três cenários: aquecimento de 1,5°C, 2°C e 4°C acima dos níveis pré-industriais.
Além disso, o índice avalia quatro pilares dos sistemas alimentares:
- disponibilidade;
- acessibilidade;
- utilização;
- sustentabilidade.
Segundo o estudo, sustentabilidade e utilização são os pilares mais sensíveis ao clima. Isso significa que os primeiros sinais de danos climáticos devem aparecer em sistemas de água, saneamento e saúde, aumentando o risco de desnutrição mesmo quando há alimentos fisicamente disponíveis. O agravamento do risco climático também tende a reduzir o acesso aos alimentos, com elevação de preços e interrupções de mercado.
Por que os países mais ricos também não ficam isolados desse impacto?
Embora as nações mais ricas apresentem maior capacidade de resposta, o estudo afirma que elas não estarão imunes aos efeitos da instabilidade climática sobre os mercados globais. A interdependência entre os sistemas alimentares faz com que choques climáticos em grandes regiões produtoras se espalhem pelas cadeias de suprimento e provoquem volatilidade de preços em outros lugares.
Para o Brasil, esse efeito é relevante tanto pelo peso do agronegócio na balança comercial quanto pelo impacto da inflação de alimentos no orçamento das famílias. Eventos climáticos extremos em áreas produtoras, no exterior ou no mercado doméstico, também podem repercutir sobre oferta, custos logísticos e preços ao consumidor.
“Os sistemas alimentares hoje são profundamente interconectados. Choques climáticos em uma grande região produtora podem se propagar pelas cadeias globais de suprimento e provocar volatilidade de preços em outros lugares. Mesmo que países de alta renda permaneçam relativamente seguros em termos alimentares, eles não ficarão isolados dos impactos da instabilidade climática sobre os mercados globais de alimentos.”
Ritu Bharadwaj defendeu medidas para reduzir esse risco, como o fortalecimento de sistemas de proteção social capazes de responder rapidamente a choques climáticos, investimentos em agricultura resiliente ao clima e melhorias na gestão de água e solo.
“Os países de alta renda enfrentarão choques agrícolas massivos, mas têm riqueza para compensar uma quebra de safra doméstica comprando no mercado global.”
Quais consequências mais amplas o estudo associa à crise alimentar?
A pesquisadora também relacionou o agravamento da insegurança alimentar a riscos de instabilidade global. Segundo ela, o colapso sistêmico em Estados frágeis e afetados por conflitos pode provocar migração forçada e desestabilização internacional, em linha com alertas já feitos por autoridades britânicas de inteligência sobre ameaças à segurança nacional decorrentes da crise climática.
“Se Estados frágeis e afetados por conflitos enfrentarem um colapso sistêmico, o resultado será uma enorme instabilidade global, colapso estatal e migração forçada. Essa é a ameaça à segurança nacional sobre a qual chefes de defesa já alertaram.”
O estudo reforça que o avanço da crise climática pode aprofundar um quadro já desigual de segurança alimentar no planeta. Hoje, segundo a análise citada, quase 59% da população mundial já vive em países com segurança alimentar abaixo da média, e a tendência projetada é de ampliação desse fosso caso o aquecimento global avance.
