O ex-jogador Walter Casagrande Júnior, ídolo do Corinthians e ex-comentarista da TV Globo, estreou nacionalmente o espetáculo ‘Na Marca do Pênalti’ na última sexta-feira, 3 de abril de 2026, no Teatro Guaíra, durante o Festival de Curitiba, um dos mais importantes eventos de artes cênicas do país. Aos 62 anos, o comentarista reuniu histórias sobre sua trajetória no esporte, a luta contra a dependência química e convivências com ícones brasileiros diante de uma plateia de 2.800 pessoas.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, a peça-palestra tem formato de monólogo e utiliza recursos audiovisuais para guiar as narrativas, sem contar com um roteiro rígido ou textos previamente decorados.
Como surgiu a ideia do espetáculo de Casagrande?
A aproximação do ex-atleta com as artes cênicas teve início em 2007, como parte de seu processo de reabilitação. Após sofrer um acidente de trânsito na Lapa, zona oeste de São Paulo, ele foi orientado pela equipe médica a frequentar cinemas e teatros. Essa imersão cultural serviu como uma estratégia para substituir a dependência pelas artes em sua rotina.
O projeto atual tomou forma após um convite do diretor Fernando Philbert. O profissional de teatro percebeu que o ex-jogador teria facilidade para compartilhar suas vivências de forma natural e ao vivo diante de um grande público.
Acredito que o teatro é que escolhe tudo, sou dessa linha. É como o Boal [Augusto Boal, dramaturgo brasileiro] dizia, todos nós somos atores. Todos escolhemos a nossa roupa, fazemos o nosso texto
Quais foram as histórias contadas sobre Sócrates, Rita Lee e Baby do Brasil?
Durante uma hora e meia de apresentação, o comentarista relembrou momentos íntimos e curiosos com personalidades da cultura e do esporte nacional. Um dos pontos centrais foi a forte amizade com o ex-meia Sócrates, a quem fez sua primeira declaração de amor afetiva, confessando que nunca havia tido estrutura emocional para expressar sentimentos profundos nem mesmo a antigas parceiras conjugais.
Em relação à cantora Rita Lee, o ex-centroavante recordou um episódio em que prometeu dar a ela uma camisa número nove do Corinthians. Como havia esquecido de levar o presente, pediu a camisa de um torcedor que estava na plateia e entregou à artista, que posou para fotos usando o uniforme da equipe paulista.
Já a lembrança envolvendo a cantora Baby do Brasil arrancou risadas do público presente. A ex-namorada ofereceu um conselho inusitado e bem-humorado para que ele evitasse recaídas na dependência química:
Casão, tem que fazer como eu. Decorei a onda
O que foi abordado sobre a Democracia Corinthiana e os traumas familiares?
O espetáculo também mergulha em momentos tensos do período de repressão militar no Brasil. O ex-atleta detalhou as perseguições policiais que sofreu no ano de 1982, no auge do movimento da Democracia Corinthiana — importante marco ideológico e político na história do clube paulista —, relatando uma abordagem arbitrária na qual foi deixado sem roupas na marginal Tietê por agentes de segurança do estado.
No âmbito estritamente pessoal, ele identificou a morte precoce de sua irmã Zilda, aos 23 anos, como o principal gatilho emocional para o desenvolvimento de sua doença relacionada ao uso de substâncias. A apresentação abrangeu ainda as seguintes dinâmicas:
- Exibição no telão de gols marcantes da carreira esportiva para a torcida presente.
- Abertura e encerramento guiados pela música ‘Sujeito de Sorte’, clássico de Belchior.
- Críticas ao comportamento de jogadores atuais que focam excessivamente em atuar como influenciadores digitais.
- Acompanhamento de artistas notórios na plateia, como os atores Antônio e Camila Pitanga.
Quando serão as próximas apresentações da peça?
A montagem curitibana adotou uma estética totalmente minimalista. O protagonista vestia roupas casuais e permaneceu quase estático no lado esquerdo do palco, sem uso expressivo de cenários físicos ou iluminação complexa. O próprio ator exigiu atuar com base em suas memórias reais, afirmando não querer criar uma persona fictícia para os espectadores.
Após o sucesso da estreia no Paraná, a peça ‘Na Marca do Pênalti’ tem previsão oficial de chegar ao Sesc Pompeia, na capital paulista, no mês de maio. Em seguida, a temporada será interrompida temporariamente para que o profissional viaje com foco na cobertura jornalística da Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, México e Canadá, com retorno aos teatros programado para logo após a finalização do torneio esportivo.