O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) defende a revogação de uma regra que limita a abertura de estradas e a exploração madeireira em áreas remotas de florestas nacionais sob o argumento de melhorar a prevenção e o combate a incêndios florestais. Mas um estudo recente citado por especialistas e críticos da medida afirma que a presença de estradas está associada a mais focos de incêndio, ao levar mais pessoas para dentro das florestas e alterar condições ecológicas que favorecem o fogo. De acordo com informações da Inside Climate News, o debate ganhou força enquanto o governo Trump prepara a divulgação de um rascunho de estudo de impacto ambiental sobre a proposta. O tema tem paralelo com discussões conhecidas no Brasil, especialmente sobre abertura de vias em áreas florestais da Amazônia, onde o avanço da infraestrutura também costuma ser associado a maior pressão humana e a mudanças no uso do solo.
A reportagem informa que, quando o governo anunciou em 2025 a intenção de rescindir a chamada Roadless Rule, autoridades disseram que a mudança era necessária para prevenir e administrar incêndios em milhões de acres de florestas e campos nacionais. Críticos, porém, afirmam que esse argumento ignora evidências científicas e pode beneficiar a indústria madeireira.
O que diz o novo estudo sobre estradas e incêndios?
Segundo o texto original, um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Fire Ecology analisou uma base de dados sobre estradas em florestas nacionais e concluiu que, entre 1992 e 2024, incêndios florestais foram quatro vezes mais propensos a começar a até 50 metros de uma estrada do que em áreas florestais sem rotas para veículos motorizados.
O autor principal do estudo, Greg Aplet, ecólogo florestal sênior da The Wilderness Society, afirmou que a diferença encontrada foi marcante e apareceu de forma consistente em todas as regiões do Serviço Florestal dos Estados Unidos. A pesquisa também identificou que o número de ignições cai de forma acentuada à medida que aumenta a distância em relação às estradas.
A reportagem acrescenta que, em nível nacional, cerca de 89% dos incêndios florestais têm causa humana, com base em dados do Congressional Research Service. Nesse contexto, especialistas ouvidos pela publicação sustentam que mais acesso por estradas tende a significar mais presença humana e, consequentemente, mais chances de ignição. Para o leitor brasileiro, a discussão ajuda a iluminar um debate recorrente sobre como o acesso terrestre a áreas preservadas pode ampliar tanto a ocupação quanto os riscos ambientais.
Por que o argumento do combate ao fogo é contestado?
Lucas Mayfield, ex-bombeiro Hotshot e cofundador da organização Grassroots Wildland Firefighters, disse à reportagem que a falta de estradas provavelmente nem estaria entre os cinco maiores obstáculos para uma resposta eficiente aos incêndios, ou apareceria no fim da lista. A avaliação dele reforça a contestação ao argumento de que abrir vias em áreas remotas seria uma medida central para enfrentar a crise do fogo.
“Quanto mais pessoas você coloca na floresta, mais incêndios provavelmente vai ter”, disse Mayfield.
O texto também recupera o posicionamento histórico do próprio Serviço Florestal. No estudo de impacto ambiental original da Roadless Rule, de 2001, a agência registrou que construir estradas em áreas inventariadas como sem vias provavelmente aumentaria a chance de incêndios causados por humanos, em razão da maior presença de pessoas. Ainda segundo esse documento, proibir a construção e reconstrução de estradas nessas áreas não levaria ao aumento da área queimada nem do número de grandes incêndios.
A nova pesquisa apontou ainda que incêndios próximos a estradas foram, em média, menores, embora a alta variabilidade dificulte uma conclusão definitiva. Já os incêndios que escapam do ataque inicial dos bombeiros e evoluem para grandes eventos, segundo o estudo, não apresentaram diferença significativa de tamanho entre áreas com estradas e áreas sem estradas.
Como as estradas podem alterar o risco de fogo nas florestas?
Além das ignições humanas, a reportagem relata que as estradas podem modificar as condições ambientais que influenciam o risco de incêndio. A pesquisa de Aplet encontrou aumento de ignições por raios nas proximidades de estradas, não por haver mais descargas elétricas nesses locais, mas porque a abertura no dossel da floresta permite mais incidência de sol e vento, aquecendo e secando a vegetação no solo.
Outro ponto citado é a disseminação de espécies invasoras ao longo das estradas. Segundo o texto, algumas dessas espécies se espalham com ajuda do fogo. No Great Basin, por exemplo, a cheatgrass transportada por veículos, botas e gado para margens de estradas substituiu vegetação nativa e passou a formar campos contínuos de material fino e seco, que pega fogo com facilidade e favorece a propagação das chamas.
- Estradas ampliam o acesso humano a áreas florestais
- Maior presença humana está associada a mais ignições
- Aberturas na cobertura florestal podem ressecar a vegetação
- Corredores viários podem favorecer espécies invasoras ligadas ao fogo
Qual é o alcance da regra em debate?
De acordo com a reportagem, após exceções específicas para Idaho e Colorado e a isenção separada da Tongass National Forest, no Alasca, a Roadless Rule hoje se aplica a cerca de 45 milhões de acres. Defensores da norma afirmam que ela funciona como uma proteção ambiental relevante para habitat, água e clima. A regra, criada em 2001, restringe a construção de estradas e a extração de madeira em áreas inventariadas como sem vias dentro do sistema de florestas nacionais dos EUA.
O artigo original destaca que opositores da revogação veem a proposta do governo como uma concessão à indústria madeireira em detrimento de evidências científicas. O debate, portanto, não se limita ao acesso para combate a incêndios, mas envolve também os efeitos ambientais mais amplos da abertura de estradas em áreas florestais remotas.
