A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, detalhou em delação premiada ao Ministério Público da Bahia como, segundo seu relato, foi articulado um esquema para facilitar a fuga de detentos da unidade em dezembro de 2024, no extremo sul da Bahia. Ela afirmou que agiu a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior, com quem mantinha um relacionamento amoroso, e disse que ele teria negociado apoio para a fuga com presos da unidade em troca de R$ 2 milhões. De acordo com informações do g1, a colaboração foi registrada em 9 de fevereiro deste ano, e Joneuma está em prisão domiciliar desde o mês passado, após mais de um ano presa.
Segundo o relato, a ex-diretora também disse ter sido ameaçada por Uldurico para não revelar detalhes do caso. A investigação que resultou na prisão do ex-deputado, realizada na última quinta-feira, 16, foi batizada de Operação Duas Rosas. O nome, conforme a apuração citada pela reportagem, faz referência à expressão “chorar as rosas”, que, de acordo com os investigadores, era usada para tratar do pagamento acertado no esquema.
Como a ex-diretora descreveu a atuação de Uldurico Júnior?
Joneuma afirmou ao Ministério Público que conheceu Uldurico Júnior quando trabalhava na unidade prisional de Teixeira de Freitas, onde ocupava cargo administrativo. Conforme sua versão, ele já indicava diretores para o comando da unidade e costumava manter conversas com internos, por vezes acompanhado de outras pessoas, entre elas vereadores. Segundo ela, essas reuniões ocorriam com portas fechadas e eram tratadas como algo normal.
Em 14 de março de 2024, Joneuma foi nomeada diretora do Conjunto Penal de Eunápolis. De acordo com a delação, no dia seguinte Uldurico foi ao presídio acompanhado de várias pessoas, entre elas Alberto Cley Santos Lima, conhecido como Cley da Auto Escola, então filiado ao PSD. Ainda segundo a ex-diretora, o ex-deputado pediu para conversar com chefes de facções custodiados na unidade, e ela atendeu após se sentir pressionada. Uma semana depois, ele teria retornado ao presídio para novas conversas com os mesmos presos.
O que a delação diz sobre o suposto pagamento pela fuga?
Segundo Joneuma, em 14 de outubro de 2024, após perder a eleição para prefeito de Teixeira de Freitas, Uldurico a pressionou para ampliar o contato com Ednaldo Pereira Souza, conhecido como Dada, apontado como líder do Primeiro Comando de Eunápolis. A intenção, conforme o depoimento, seria obter recursos financeiros. Nesse contexto, ela afirmou que o ex-deputado teria negociado a facilitação da fuga por R$ 2 milhões.
A ex-diretora relatou que, em 2 de novembro de 2024, ela e Uldurico estavam em um hotel em Eunápolis quando uma pessoa de confiança de Dada entrou no veículo do ex-deputado e fez uma ligação em viva-voz para o detento. Segundo sua versão, foi nessa conversa que teria sido acertada a facilitação da fuga em troca dos R$ 2 milhões. O combinado, ainda de acordo com a delação, previa pagamento em espécie em 31 de dezembro, em Porto Seguro, mas houve pedido de adiantamento de R$ 350 mil, dos quais R$ 200 mil teriam sido aceitos.
- Valor total negociado, segundo a delação: R$ 2 milhões
- Adiantamento solicitado: R$ 350 mil
- Adiantamento que teria sido aceito: R$ 200 mil
- Depósito citado no relato: R$ 21.600,00
- PIX mencionado na delação: R$ 24 mil
Conforme o depoimento, a entrega do adiantamento ocorreu em 4 de novembro de 2024. Joneuma disse que foi sozinha a uma residência no bairro Juca Rosa, onde recebeu o dinheiro em uma caixa de sapato de uma pessoa de confiança de Dada. No dia seguinte, afirmou ter entrado em contato com o pai de Uldurico Júnior, Uldurico Alves Pinto, para combinar a entrega. Segundo ela, o dinheiro foi levado na mesma caixa de sapato até a casa dele, em Teixeira de Freitas, onde um assessor teria conferido os valores.
Como o plano de fuga teria mudado, segundo a ex-diretora?
A versão apresentada por Joneuma aponta que o plano inicial previa favorecer apenas a saída de Dada e de Sirlon, conhecido como Saguin, apontado como sub-líder da facção. No entanto, a fuga acabou envolvendo eles e outros 14 detentos. A data também teria sido alterada. De acordo com a ex-diretora, o combinado era que a ação ocorresse em 31 de dezembro, período em que ela estaria de férias.
Segundo o relato, Dada decidiu antecipar a fuga após ser informado por um policial de que haveria fiscalização no presídio no Réveillon e de que ele poderia ser transferido. Joneuma afirmou ainda que, depois da repercussão da fuga em massa, Uldurico a questionou sobre as mudanças no plano.
Que outros nomes foram citados na delação?
A ex-diretora disse que foi ameaçada por Uldurico em um encontro em Salvador para não contar nada sobre o esquema. Na ocasião, segundo ela, os dois combinaram a mesma versão para a defesa. A reportagem também informa que Joneuma afirmou ter ouvido de Uldurico que metade do dinheiro da fuga seria destinada a “um chefe”, em referência ao ex-ministro Geddel Vieira Lima.
O texto original relata os fatos com base no conteúdo da delação e na investigação em andamento. As citações atribuídas a Joneuma integram seu depoimento às autoridades e descrevem acusações ainda sob apuração.