Trabalhadores imigrantes sem documentação regular que atuam em fazendas leiteiras de Vermont, nos Estados Unidos, relatam viver sob medo constante após o aumento das detenções migratórias na região de fronteira com o Canadá. Segundo a reportagem, o avanço das ações de fiscalização alterou a rotina desses empregados, que passaram a evitar sair das propriedades onde trabalham por receio de serem detidos ao buscar atendimento médico, fazer compras ou visitar conhecidos. De acordo com informações do Guardian Environment, o cenário se agravou em 2025 e atinge diretamente a indústria leiteira local.
O caso de José Edilberto Molina-Aguilar, trabalhador de 37 anos originário de Chiapas, no México, é apresentado como exemplo desse contexto. Ele relatou que, na primavera passada, agentes migratórios chegaram à propriedade Pleasant Valley Farms, em Berkshire, a cerca de três milhas da fronteira canadense. Conforme o relato reproduzido pela reportagem, um gerente da fazenda orientou ele e colegas a saírem da casa. Molina-Aguilar afirmou que portava documentos de imigração relacionados a um pedido de asilo feito mais de um ano antes, mas disse que o material foi confiscado e que os trabalhadores foram algemados e levados em veículos federais.
O que ocorreu na fazenda Pleasant Valley Farms?
Molina-Aguilar foi libertado posteriormente mediante fiança de US$ 10 mil, após mais de um mês detido em Vermont e no Texas. Seis colegas dele foram deportados, de acordo com a reportagem. Defensores dos direitos de imigrantes descreveram a ocorrência como a maior detenção isolada de trabalhadores rurais migrantes na história recente de Vermont. No dia seguinte, o governador Phil Scott declarou que trabalhadores migrantes são parte essencial das comunidades do estado. A Pleasant Valley Farms, por sua vez, não comentou o caso ao Guardian.
A versão oficial do governo federal contestou a caracterização da ação como uma operação planejada de fiscalização em local de trabalho. Hilton Beckham, comissária assistente da Customs and Border Protection, afirmou em nota de maio que a agência respondeu a uma chamada de um cidadão preocupado.
“This was not a special operation or a worksite enforcement operation, however, when agents encounter individuals who are in the country illegally, they will take them into custody and determine their immigration disposition, including potentially turning those individuals over to other agencies,” Beckham wrote.
Já Teresa Mares, antropóloga da University of Vermont que trabalha com empregados rurais imigrantes, disse à reportagem que o episódio deve ser entendido como uma batida migratória.
“When you go on a farm and pick up as many people as you can, I don’t know what else to call it,” Mares said.
Como o aumento das detenções afeta o cotidiano nas fazendas?
Segundo levantamento mantido pela organização Migrant Justice e citado pelo Guardian, ao menos 107 imigrantes foram detidos dentro de Vermont em 2025, número mais de dez vezes superior ao registrado em 2024 entre a comunidade imigrante do estado. O total não inclui pessoas que cruzaram ilegalmente a fronteira norte nem aquelas presas por crimes. A reportagem afirma que esse avanço nas detenções ocorreu sob o segundo governo Trump.
O efeito mais visível, segundo os relatos reunidos pelo jornal, é o confinamento informal dos trabalhadores às próprias fazendas. Um empregado do condado de Franklin, que não teve o nome divulgado por temer por sua segurança, afirmou que deixou de sair da propriedade após o endurecimento da fiscalização. Ele contou que via com frequência veículos de patrulha migratória próximos ao marco de concreto que sinaliza a fronteira entre Estados Unidos e Canadá.
“Before Trump, I left and visited friends, the store, and then things got harder, and I don’t go out,” the farm worker said through a Migrant Justice interpreter last summer.
Até novembro, segundo a reportagem, esse trabalhador não saía da fazenda havia quase dois anos. Uma dor de dente o levou ao dentista, ocasião em que passou por um veículo da patrulha de fronteira no trajeto.
“I was nervous,” he said. “But that’s just how it is. You feel scared.”
Qual é o peso desses trabalhadores para a indústria leiteira de Vermont?
O texto destaca que os imigrantes exercem papel central no setor leiteiro de Vermont, estimado em US$ 5,4 bilhões. O secretário de Agricultura do estado, Anson Tebbetts, afirmou que esses trabalhadores têm função essencial em meio à pressão por mão de obra e às exigências do setor. A reportagem também observa que Vermont perdeu centenas de fazendas leiteiras enquanto ampliava a produção ao longo da última década.
Entre os pontos destacados na matéria estão:
- aumento expressivo das detenções migratórias em Vermont em 2025;
- medo de sair das fazendas mesmo para necessidades básicas;
- dependência da indústria leiteira em relação à mão de obra imigrante;
- disputa sobre como classificar as ações de fiscalização em propriedades rurais.
A reportagem também menciona que ao menos 50 ações em fazendas, instalações de produção de alimentos e restaurantes ocorreram nos Estados Unidos desde junho do ano anterior, segundo contagem da publicação Civil Eats. Nesse contexto, Vermont aparece como parte de uma região de crescente pressão migratória no nordeste do país, com episódios também registrados em Massachusetts, Maine e Burlington, maior cidade do estado.
Um dos trabalhadores ouvidos pelo Guardian atua em uma fazenda vinculada ao programa Milk With Dignity, criado pela Migrant Justice. Pelo modelo, fazendas recebem um valor adicional pelo leite vendido a empresas como a Ben & Jerry’s em troca de melhorias nas condições de vida e de trabalho dos empregados. Ainda assim, a reportagem relata que o medo de detenção segue moldando a vida diária de quem permanece na zona rural próxima à fronteira.