
Neste início de abril de 2026, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), iniciou articulações no âmbito do Governo Federal para a possível criação da Terrabrás, uma nova empresa estatal voltada à exploração e ao processamento de minerais críticos e terras raras — elementos fundamentais para a transição energética e fabricação de tecnologias de ponta. A iniciativa visa alterar a dinâmica comercial do país, buscando agregar valor à produção nacional em vez de focar apenas na exportação de matéria-prima bruta para o mercado internacional.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, o debate sobre a Terrabrás emerge em um contexto global de aumento do protecionismo e disputas geopolíticas envolvendo cadeias de suprimentos estratégicas. O Governo Federal enxerga a exploração local como uma forma de reverter um modelo econômico histórico no setor de mineração.
Por que o governo planeja criar a Terrabrás?
A justificativa central para a estruturação da estatal é a tentativa de reter no território brasileiro as etapas mais lucrativas da cadeia produtiva. Durante um evento oficial, o presidente expressou insatisfação com o atual modelo de exportação do país, comparando o futuro das terras raras com o que ocorreu no passado com outros recursos minerais.
“Já está avisado ao mundo: o Brasil não vai fazer das terras raras e minerais críticos aquilo que foi feito com o minério de ferro. Vender minério de ferro e comprar produto acabado pagando seis vezes mais caro. Não, agora a parceria tem de ser feita para que a transformação seja aqui no Brasil”, declarou o mandatário.
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“Já levaram toda a nossa prata, o nosso ouro, o nosso diamante, o nosso minério de ferro. O que mais querem levar? Quando vamos aprender que Deus deu essas riquezas para nós? E nós ficamos dando para os outros”, acrescentou o presidente da República.
Quais são os desafios econômicos para a nova estatal?
Apesar do discurso focado no desenvolvimento da indústria nacional, especialistas em economia apontam que a simples adição de valor à produção não resulta automaticamente em aumento de riqueza ou de renda per capita. A imposição de reservas de mercado e o investimento em projetos de baixa eficiência podem, ao contrário, gerar custos operacionais maiores e reduzir a produtividade geral da economia brasileira.
Para que um projeto de transformação de minerais críticos seja viável e financeiramente competitivo no cenário mundial, o Brasil precisa superar gargalos estruturais profundos. A construção de uma indústria de ponta nesta área exige a combinação obrigatória de fatores essenciais:
- Disponibilidade de mão de obra altamente qualificada, cientistas e pesquisadores;
- Investimentos contínuos e massivos em desenvolvimento de novas tecnologias;
- Infraestrutura logística eficiente e custos competitivos de energia;
- Marcos regulatórios sólidos que garantam segurança jurídica para a operação.
O Brasil pode competir com a China em terras raras?
Atualmente, o mercado global de processamento de terras raras e fabricação de componentes vitais, como ímãs de alta performance usados em carros elétricos e turbinas eólicas, é amplamente dominado pela China. O país asiático controla a maior parte do refino global desses minerais. O mercado nacional encontra-se tecnologicamente muito distante da capacidade de produção chinesa, o que torna a concorrência imediata altamente improvável sem um planejamento de longo prazo.
Analistas avaliam que entrar nesta corrida tecnológica exigiria um esforço financeiro monumental, com rapidez incompatível com o ritmo tradicional de criação e maturação de uma nova empresa pública. Mesmo que a Terrabrás conseguisse desenvolver a capacidade técnica necessária, a estatal enfrentaria o desafio de garantir escala produtiva, preços competitivos e um mercado consumidor firme, especialmente diante do tamanho reduzido da atual indústria de transformação interna.
Diante deste cenário de riscos operacionais, o debate técnico sugere que a criação direta de uma estatal pode não ser a solução mais inteligente para os anseios presidenciais. Como alternativa, defende-se que o direcionamento de recursos federais para pesquisa acadêmica, formação de pessoal e fomento a setores onde o país já possui vantagem comparativa, como energia limpa e biocombustíveis, poderia gerar um retorno econômico mais seguro para a população.