O setor de telecomunicações brasileiro enfrenta alta nos preços de equipamentos, prazos maiores de entrega e risco de escassez de componentes eletrônicos, em meio à crise global no fornecimento de chips de memória associada ao ciclo de investimentos em inteligência artificial e à instabilidade geopolítica. O quadro foi relatado por executivos do setor em declarações publicadas em 24 de abril de 2026. De acordo com informações da Teletime, o problema já afeta custos de modems, set-top boxes e equipamentos ópticos usados por operadoras e provedores no Brasil.
Uma das ilustrações desse cenário foi apresentada pelo CEO da Claro Brasil, Rodrigo Marques, durante evento promovido pela operadora nesta semana. Segundo o relato, a crise das memórias já afetou de forma significativa o custo de eletrônicos como modems de banda larga e set-top boxes usados em serviços de TV. Em alguns casos, a alta de preços seria superior a 30%, enquanto fornecedores também passaram a sinalizar possibilidade de falta de equipamentos no futuro.
Como a crise global de componentes atinge as telecomunicações?
Segundo a reportagem, a avaliação da Claro é que os riscos ligados à crise de componentes podem durar pelo menos dois anos e atingir um número ainda maior de fornecedores. Além do aumento de preços, o setor passou a conviver com maior dificuldade para planejar investimentos, diante da imprevisibilidade no abastecimento e da extensão dos prazos logísticos.
Um CEO de outra operadora do segmento de atacado, ouvido pela Teletime, relatou que o tempo de entrega de equipamentos no segmento óptico passou de 60 a 90 dias para 150 a 180 dias nos últimos meses. A mudança, de acordo com o executivo, está relacionada não apenas à demanda de hyperscalers donos de data centers de IA, mas também ao cenário internacional de instabilidade.
Entre os fatores mencionados na reportagem estão:
- superciclo de investimentos em inteligência artificial;
- pressão sobre a oferta global de chips de memória;
- instabilidade geopolítica internacional;
- aumento do prazo de entrega de equipamentos ópticos;
- risco de escassez de itens como cabo drop de fibra.
Quais equipamentos já sentem pressão de preço e entrega?
De acordo com os relatos reunidos pela Teletime, a pressão já aparece em diferentes frentes da cadeia. No caso citado por Rodrigo Marques, modems de banda larga e set-top boxes estão entre os itens mais afetados pelo aumento de custo. Já no segmento óptico, a preocupação está ligada à demora maior para recebimento de equipamentos, o que dificulta a expansão e a manutenção da infraestrutura.
Outro alerta citado na reportagem veio de fornecedores que apontaram risco de falta de cabo drop de fibra. Um diretor de um grande provedor regional observou que a demanda por esses cabos também está em alta, inclusive em razão do uso de equipamentos ópticos em conflitos militares. A combinação entre procura aquecida e oferta pressionada amplia a preocupação das empresas com o abastecimento.
Diante desse ambiente, companhias do setor passaram a adotar medidas para tentar reduzir a exposição à crise. Segundo a reportagem, as estratégias incluem acelerar o recebimento de equipamentos, formar estoques e antecipar o faturamento de pedidos. Em declaração a jornalistas, Rodrigo Marques resumiu esse movimento ao afirmar:
“O mundo inteiro está antecipando compras”
Ainda segundo o executivo, uma das preocupações das operadoras é evitar o repasse desses custos aos planos cobrados do consumidor final. Esse esforço, porém, pode se tornar inviável a depender da intensidade dos reajustes nos preços dos eletrônicos.
O alerta já aparece também na indústria eletroeletrônica?
Sim. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, Abinee, informou nesta semana que 47% das indústrias do setor eletroeletrônico brasileiro já sentem pressão nos custos de componentes. A entidade também estimou repasse de cerca de 30% no preço final de produtos como notebooks, desktops, celulares e TVs.
Segundo a Abinee, o movimento está relacionado ao crescimento da demanda de data centers e os impactos da crise de memórias podem se estender até 2028. No mercado global de redes de acesso para telefonia móvel, a reportagem também cita a Ericsson, que registrou aumento nos preços de insumos no primeiro trimestre, em parte associado à demanda por IA, especialmente em semicondutores.
O conjunto desses relatos indica que a pressão sobre componentes e equipamentos já ultrapassa um segmento específico e alcança operadoras, fornecedores e a indústria eletroeletrônica. Para o setor de telecomunicações no Brasil, o desafio imediato é administrar custos mais altos, prazos mais longos e a possibilidade de desabastecimento em uma cadeia cada vez mais dependente do cenário internacional.