A linguagem usada por empresas de tecnologia climática mudou nos últimos anos e, segundo a cofundadora da The Climate Hub, Amelia Zimmerman, essa transformação indica para onde caminham as estratégias corporativas de sustentabilidade em 2026. De acordo com informações da ESG Today, o setor passou por três fases desde a pandemia de Covid-19: ação voluntária, conformidade regulatória e, agora, adaptação, com foco em gestão de risco, resiliência e proteção financeira.
Para o mercado brasileiro, essa mudança de linguagem ajuda a entender como empresas que atuam no país podem reorganizar prioridades em áreas como gestão de emissões, reporte de sustentabilidade, seguros, energia, logística e proteção de cadeias de suprimento. O movimento também dialoga com a agenda corporativa local, já que companhias brasileiras exportadoras e subsidiárias de grupos internacionais acompanham padrões e exigências definidos por mercados como União Europeia e Estados Unidos.
Em artigo publicado em 23 de março de 2026, Zimmerman afirma que o posicionamento comercial das empresas do setor costuma acompanhar as prioridades das equipes de sustentabilidade dentro das corporações. Segundo ela, como esses times costumam ser francos com fornecedores, a comunicação adotada pelas empresas de climate tech acaba funcionando como um indicador antecipado das preocupações, dos planejamentos e dos temas que recebem orçamento nas companhias.
Como a comunicação da tecnologia climática evoluiu desde a pandemia?
A primeira fase descrita por Zimmerman surgiu durante a pandemia e foi marcada por apelos à ação climática voluntária e à liderança corporativa. Nessa etapa, eram comuns mensagens centradas em metas de net zero e em compromissos amplos com o clima. A autora caracteriza esse momento como a era do discurso de “salvar o planeta”, impulsionada pela onda de anúncios corporativos de neutralidade de emissões.
Na avaliação apresentada no texto, havia naquele período a crença de que a ação voluntária do setor privado poderia acelerar a transição para o net zero. O tom era de otimismo, com a expectativa de que compromissos empresariais espontâneos seriam capazes de colocar a economia em uma trajetória de transformação climática.
O que mudou com o avanço das regras de divulgação climática?
A segunda fase começou a se consolidar a partir de 2021, quando iniciativas regulatórias passaram a ganhar espaço. O artigo cita a proposta da Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa da Comissão Europeia, conhecida como CSRD, o anúncio de criação do International Sustainability Standards Board, o ISSB, pela Fundação IFRS na COP26, e a proposta da regra de divulgação climática da SEC, nos Estados Unidos, em 2022.
Com esse movimento, o discurso das empresas de tecnologia climática passou a enfatizar conformidade regulatória. Expressões ligadas a preparação para o CSRD e simplificação de obrigações regulatórias ganharam espaço em campanhas e materiais voltados a clientes. A expectativa do setor, segundo o texto, era de expansão dos negócios para plataformas de contabilidade de carbono, produtos de inteligência climática e projetos de remoção de carbono.
No Brasil, esse tipo de mudança também é relevante para empresas com operação internacional ou acesso ao mercado de capitais, porque padrões globais de divulgação tendem a influenciar processos de auditoria, governança e relacionamento com investidores. Na prática, isso afeta especialmente setores intensivos em emissões ou expostos a eventos extremos, como agronegócio, energia, mineração, indústria e transporte.
Zimmerman observa, porém, que esse entusiasmo convivia com um problema estrutural: a distância entre exigências de divulgação e ação climática efetiva. Ela também aponta que normas podem ser anunciadas e revertidas, o que reduz a previsibilidade para empresas e fornecedores.
Por que adaptação e resiliência passaram a dominar o debate?
Na terceira fase, situada em 2026, a autora afirma que a mensagem de conformidade perdeu força após recuos regulatórios e redução da ambição climática, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Segundo o artigo, muitas empresas de grande e médio porte, liberadas de algumas obrigações de reporte, passaram a cortar investimentos em sustentabilidade e a abandonar retórica mais ambiciosa.
Nesse cenário, companhias de tecnologia climática estariam reformulando seu posicionamento para destacar três eixos principais:
- gestão de risco;
- resiliência;
- adaptação.
A interpretação apresentada é que a sustentabilidade entra em uma fase mais diretamente ligada a decisões de negócios. Em vez de priorizar o valor promocional de compromissos climáticos ousados, as empresas passam a concentrar esforços em evitar perdas, proteger operações e preservar resultados financeiros em um ambiente de incerteza econômica e geopolítica.
Para empresas brasileiras, essa lógica pode ganhar peso em discussões sobre continuidade operacional diante de secas, enchentes, ondas de calor e interrupções logísticas. Também reforça a tendência de tratar o risco climático menos como tema reputacional e mais como variável de custo, financiamento e planejamento.
Quais são os riscos dessa mudança de foco na sustentabilidade?
Para Zimmerman, a nova linguagem sugere uma migração perceptível da mitigação para a adaptação. Isso pode indicar uma visão mais conservadora, baseada no entendimento de que o risco climático é concreto e persistente, mesmo quando as exigências regulatórias recuam. Ao mesmo tempo, a autora vê uma oportunidade: a sustentabilidade poderia ganhar espaço mais central nas discussões corporativas sobre risco, retorno sobre investimento e estratégia financeira.
O alerta do artigo é que a adaptação pode ocupar todo o espaço do debate e reduzir a atenção dada à mitigação, entendida como o conjunto de esforços para enfrentar as causas da mudança climática, inclusive com redução de emissões. Sem essa dimensão, o setor privado pode abandonar parte da ambição observada nas fases anteriores, quando ainda havia mais ênfase em compromissos coletivos.
Na conclusão, a autora sustenta que investir em adaptação pode trazer benefícios operacionais no curto prazo, mas argumenta que deixar a mitigação em segundo plano teria efeitos negativos no longo prazo. Para ela, uma sustentabilidade orientada apenas por economia de custos e proteção do próprio negócio corre o risco de perder seu valor intrínseco e sua dimensão de responsabilidade compartilhada diante da crise climática.
