
A startup paraense Manioca decidiu rebatizar o tradicional tucupi preto como shoyu amazônico para aproximar o ingrediente da floresta do paladar cotidiano dos brasileiros em todo o país. A estratégia de reposicionamento de mercado, baseada no relato de consumidores sobre a semelhança de sabor com o condimento oriental, resultou em um crescimento de 35% nas vendas do produto no varejo.
De acordo com informações do Capital Reset, a empresa fundada no ano de 2014 em Belém (PA) tem como objetivo central colocar itens da biodiversidade local nas despensas nacionais. A cofundadora e CEO da companhia, Joanna Martins, explica que a adaptação não surgiu em laboratório, mas a partir de uma escuta ativa e constante. Diante da dificuldade dos clientes em utilizar a pasta concentrada do tucupi preto tradicional em casa, a equipe de pesquisa desenvolveu uma nova versão diluída em formato de molho.
“Quando as pessoas provavam, falavam: ‘nossa, parece shoyu’”, relatou a executiva ao justificar a adoção estratégica do termo para as gôndolas de grandes redes varejistas nacionais, a exemplo de Carrefour e Pão de Açúcar, além de mercados regionais populares em São Paulo, Curitiba e Belém.
Como a parceria com investidores impulsiona a produção?
Próxima de atingir o ponto de equilíbrio financeiro de suas operações, a startup avalia ativamente novas rodadas de captação de recursos em 2026 para ganhar tração e escalar sua presença no mercado varejista. Ao longo de sua trajetória, a corporação passou por um processo de aceleração da Amaz, aceleradora focada em negócios de impacto na floresta, e recebeu aportes do fundo Amazon Biodiversity Fund.
O negócio atraiu também a atenção da multinacional japonesa Ajinomoto, marcando o primeiro investimento formal da dona da marca Sazon fora do território do Japão. A entrada desse capital estratégico proporcionou não apenas recursos financeiros diretos, mas também fundamental suporte operacional e logístico para a expansão da empresa de bioeconomia no mercado interno.
“A Ajinomoto, por exemplo, trouxe soluções de processos produtivos e conhecimento de marketing. O investidor nunca vem só com o dinheiro”, destacou a CEO ao avaliar o impacto positivo das negociações recentes para a escala do produto regional.
Quais são os diferenciais saudáveis do shoyu da floresta?
O desafio atual da fabricante alimentar é desmistificar rapidamente a ideia de que os ingredientes amazônicos pertencem exclusivamente à alta gastronomia, setor pelo qual a marca iniciou sua atuação fornecendo para chefs renomados. O chamado molho de tucupi preto, caldo tradicionalmente extraído da mandioca-brava, reúne dulçor, acidez marcante, um leve toque defumado e umami, que é considerado cientificamente o quinto sabor do paladar humano.
A produção em larga escala exige uma redução extrema e cuidadosa do tucupi amarelo, com um tempo de cocção rigoroso que varia de 48 a 72 horas ininterruptas. Nesse processo culinário de concentração, 40 litros de caldo amazônico rendem apenas de dois a quatro litros da pasta densa. Além do apelo gustativo evidente, o produto final comercializado se destaca pela composição completamente natural, contendo os seguintes elementos:
- Mandioca cultivada na região;
- Água filtrada;
- Sal não refinado.
Enquanto diversos molhos de soja industrializados encontrados nos supermercados chegam a apresentar até 11 itens químicos em sua composição básica, a versão amazônica possui 80% menos sódio do que os condimentos tradicionais asiáticos classificados como light, além de não utilizar conservantes ou aditivos químicos em sua formulação original.
De que maneira o modelo de negócio apoia a agricultura familiar?
A mandioca representa atualmente cerca de 80% de todo o portfólio comercial da marca alimentícia, englobando mercadorias como farofas temperadas, caldos naturais e pimentas variadas. Apesar de o estado do Pará ser reconhecidamente o maior produtor do Brasil, o cultivo diário da raiz ainda demanda maior grau de profissionalização técnica no campo.
Para tentar resolver essa limitação logística regional e promover uma escala comercial pautada na sustentabilidade ambiental, a companhia paraense estruturou o chamado Programa Raízes. O projeto técnico oferece suporte direto e especializado a dezenas de agricultores familiares, com o objetivo principal de elevar os níveis de produtividade e incentivar o plantio integrado de culturas variadas no mesmo terreno agrícola. No momento, o programa de capacitação atende e beneficia 23 famílias produtoras locais.
A estruturação profissional dessa cadeia produtiva regional assegura contratualmente a compra anual de 140 toneladas de matérias-primas brutas, gerando um movimento financeiro direto de R$ 650 mil na aquisição sistemática de insumos amazônicos certificados.
“É sempre uma troca. Ajudamos o fornecedor a ter uma mandioca de melhor qualidade e ele nos entrega um insumo que agrega valor ao nosso produto final”, concluiu a executiva sobre o impacto social das operações.