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Serviço Florestal dos EUA: reestruturação de sede gera caos e preocupação

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O Serviço Florestal dos Estados Unidos — agência federal que atua de forma semelhante ao Serviço Florestal Brasileiro (SFB) na gestão de áreas públicas — anunciou no dia 31 de março de 2026 um plano abrangente de reestruturação que inclui a transferência de sua sede principal de Washington, a capital federal, para Salt Lake City, no estado de Utah. A medida, impulsionada pela administração de Donald Trump, prevê o fechamento ou reaproveitamento de todos os nove escritórios regionais da agência, a criação de 15 sedes estaduais e o encerramento de instalações de pesquisa e desenvolvimento em mais de 30 estados estadunidenses.

De acordo com informações do Grist, os líderes da agência afirmaram que a intenção do plano é tornar a operação mais ágil e eficiente. Durante uma teleconferência com os funcionários logo após o anúncio oficial, a diretoria garantiu que não haverá alterações nos programas de gestão de aviação e combate a incêndios, e que a mudança também não afetará os bombeiros operacionais mobilizados em campo.

Quais são as principais críticas ao plano governamental?

Desde que a intenção de reorganizar a agência foi divulgada em julho de 2025, o governo tem promovido a iniciativa como uma forma de otimizar as operações, com foco no aumento da produção de madeira e em uma comunicação mais estreita com as comunidades locais. No entanto, durante uma audiência no Congresso e no período de consulta pública sobre o tema, mais de 80% dos 14 mil comentários enviados foram negativos. Representantes tribais, grupos de conservação e ex-funcionários se posicionaram fortemente contra a mudança.

Um resumo dos comentários públicos feito pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos apontou preocupações profundas de que a realocação forçada de funcionários e novos cortes orçamentários poderiam comprometer a gestão ecológica, o acesso do público às áreas de preservação e o moral dos servidores. O plano atual manteve grande parte da proposta original. Robert Bonnie, que supervisionou o Serviço Florestal como subsecretário do Departamento de Agricultura durante o governo de Barack Obama, foi enfático sobre a rejeição generalizada à medida:

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Ninguém está pedindo por isso. Nenhum dos grupos agrícolas quer isso. Ninguém na área de conservação quer isso. Ninguém.

Para especialistas e antigos membros da agência, o impacto do plano será devastador por fatores estruturais determinantes:

  • Deslocamento forçado de milhares de funcionários já estabelecidos;
  • Aprofundamento da crise institucional gerada pelos cortes drásticos de pessoal ocorridos no último ano;
  • Risco de desestruturação administrativa em um momento de desafios climáticos complexos e extremos.

Como a reorganização afeta a pesquisa e a gestão local?

Sob a nova proposta, alguns estados terão seus próprios escritórios, enquanto outros serão agrupados, em um modelo semelhante à organização adotada pelo Bureau of Land Management (BLM), agência federal responsável por administrar grande parte das terras públicas do país. Essa será uma abordagem inédita para as 154 florestas nacionais, que historicamente eram administradas pelos nove escritórios regionais agora extintos. Florestas em Washington, Oregon, Montana, Alasca e Idaho serão geridas por sedes estaduais próprias. Em contraste, áreas em Nevada e Utah serão administradas em conjunto, assim como as do Colorado e Kansas.

Algumas instalações vitais de pesquisa, como a Rocky Mountain Research Station no Colorado, permanecerão abertas. Contudo, centros importantes como a estação de pesquisa em Portland, responsável por estudos críticos de conservação de espécies como a coruja-malhada, serão fechados. Eric Forsman, ex-biólogo da vida selvagem do Serviço Florestal, alertou que a perda de liderança científica local não trará melhorias práticas aos programas, argumentando que a decisão governamental pode até aliviar os orçamentos, mas jamais aprimorará a qualidade técnica ou o volume das pesquisas realizadas.

Existem precedentes de transferências malsucedidas no governo estadunidense?

Mary Erickson, supervisora aposentada da Floresta Nacional de Custer Gallatin, questionou o distanciamento das esferas de decisão. Ela destacou que o papel do escritório nacional na capital federal é coordenar e criar diretrizes com base em políticas públicas nacionais, e não atuar na entrega puramente local. Além disso, há um temor crescente de que o caos gerado pela reorganização prejudique o combate a surtos de doenças em árvores, proteções em áreas de interface urbano-florestal e o enfrentamento aos efeitos da seca induzida pelas mudanças climáticas.

A agência já sofre com a perda recente de milhares de servidores por meio de demissões e renúncias forçadas geradas pelo agora extinto Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), criado durante o mandato de Trump. Para muitos líderes de conservação ambiental, a situação atual remete diretamente a um evento ocorrido em 2019, quando a administração federal tentou transferir a sede do Bureau of Land Management de Washington para Grand Junction, no Colorado. A promessa era aproximar os líderes das terras do oeste, mas o resultado prático foi a evasão acelerada de quadros técnicos fundamentais.

Uma investigação revelou que, quando o escritório de Grand Junction finalmente abriu em 2020, apenas 41 dos 328 funcionários esperados aceitaram realizar a mudança. A operação frustrada custou US$ 28 milhões aos cofres públicos. O governo do presidente Joe Biden acabou transferindo diversos cargos de alto escalão de volta para a capital posteriormente. Segundo John Gale, ex-chefe daquele escritório, reestruturações robustas no manejo de terras públicas precisam ser feitas de maneira minuciosa para serem eficazes, evitando perdas irreparáveis de conhecimento institucional, laços tribais e relações de trabalho que levaram décadas para serem consolidadas.

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