A separação materna precoce nos primeiros dias de vida aumentou sinais de ansiedade e depressão e prejudicou o comportamento sexual de ratos na vida adulta, segundo estudo conduzido por pesquisadores da UERJ e publicado em 17 de abril de 2026 na revista Brazilian Journal of Medical and Biological Research. De acordo com informações da Agência Bori, os testes foram feitos com filhotes separados das mães por três horas diárias durante os primeiros 21 dias após o nascimento, para avaliar como o estresse pós-natal afeta o desenvolvimento emocional e sexual.
Os autores compararam os resultados desses animais com os de ratos que permaneceram com as mães durante todo o início da vida. Na fase adulta, aos três meses, os animais passaram por avaliações de interesse sexual, desempenho durante a cópula e testes comportamentais usados para identificar indicadores emocionais, como campo aberto, nado forçado, preferência e labirinto em cruz suspenso.
O que o estudo observou nos ratos avaliados?
Segundo a pesquisa, os ratos submetidos à separação materna apresentaram menor motivação sexual e pior desempenho durante a cópula. Eles também demoraram mais para ejacular e tiveram intervalos maiores entre as tentativas de cópula, o que, de acordo com os pesquisadores, indica prejuízos no comportamento sexual.
No campo emocional, os animais expostos a esse estresse precoce mostraram sinais compatíveis com comportamentos tipo-ansioso e tipo-depressivo. O estudo aponta que esse conjunto de efeitos pode estar relacionado ao impacto do estresse sobre o desenvolvimento do sistema nervoso em uma fase considerada crítica.
“Durante o desenvolvimento, há períodos críticos ligados à formação de neurônios e de conexões entre eles”, explica Marcos Ferraz. “Quando o sistema nervoso é exposto a estressores nessa fase, pode haver alteração na construção dos circuitos neurais que regulam diferentes funções no organismo, incluindo a resposta sexual”, aponta.
Como os pesquisadores fizeram os testes?
Para investigar os efeitos da separação materna sobre a vida adulta, os pesquisadores utilizaram filhotes de 12 ninhadas de ratos. Esses animais foram separados das mães por três horas por dia ao longo dos primeiros 21 dias após o nascimento. Depois desse período, permaneceram com as mães até o desmame.
Aos três meses de idade, os ratos foram submetidos a uma bateria de testes para medir comportamento sexual e parâmetros emocionais. Os resultados foram comparados aos de um grupo de controle, formado por animais que não passaram pela separação materna no início da vida.
- Separação por três horas diárias
- Período de 21 dias após o nascimento
- Avaliação na idade adulta, aos três meses
- Comparação com ratos não separados das mães
Por que os achados podem ser relevantes para outras pesquisas?
De acordo com Marcos Ferraz, os resultados podem ajudar na compreensão de mecanismos semelhantes em humanos, especialmente os ligados à exposição a estresse precoce. O pesquisador também afirma que os dados têm implicações práticas para o manejo de animais usados como modelo em experimentos científicos.
Na avaliação do autor, a falta de padronização no cuidado durante períodos críticos do desenvolvimento pode interferir em estudos de laboratório. Isso porque experiências precoces distintas podem alterar características biológicas e comportamentais dos animais, influenciando os resultados obtidos em pesquisas sobre outras doenças.
“Por exemplo, observamos que os animais submetidos à separação materna tendem a apresentar, na adolescência e na idade adulta, comportamentos classificados como tipo-ansioso e tipo-depressivo”, afirma Ferraz.
“Exposições ambientais em períodos críticos do desenvolvimento podem ‘programar’ de forma duradoura a estrutura e o funcionamento de sistemas biológicos, influenciando o risco de doenças ao longo de toda a vida”, explica.
Quais são os próximos passos da pesquisa?
A equipe pretende ampliar a investigação combinando diferentes fatores de estresse no mesmo animal, em uma tentativa de simular situações mais próximas das vividas por humanos. Segundo o pesquisador, contextos como abuso, abandono, pobreza e desnutrição podem ocorrer de forma simultânea e produzir efeitos associados.
Ferraz afirma que, ao combinar separação materna com empobrecimento ambiental, o grupo observou uma potencialização dos efeitos de ansiedade e depressão. Esses novos resultados ainda estão em fase de publicação. A expectativa dos pesquisadores é que estudos futuros possam testar intervenções para prevenir ou reverter os efeitos do estresse neonatal, como atividade física, medicamentos e enriquecimento ambiental.