Mais de 50 países se reúnem nesta quinta-feira, 24 de abril de 2026, em Santa Marta, na Colômbia, para começar a elaborar cronogramas e medidas práticas de transição para fora dos combustíveis fósseis. O encontro foi articulado por Colômbia e Países Baixos como uma tentativa de avançar além do consenso firmado na COP28, em Dubai, sobre a necessidade de se afastar dos combustíveis fósseis nos sistemas de energia. De acordo com informações da Inside Climate News, a iniciativa surge em meio à perda de ritmo das negociações climáticas globais e a choques recentes no setor de energia.
Segundo a reportagem, participam da conferência tanto países produtores relevantes de combustíveis fósseis, como Austrália, Noruega, Brasil, Nigéria e México, quanto nações insulares vulneráveis à crise climática, como Fiji, Tuvalu e Maldivas. Também estão entre os participantes Dinamarca, Espanha, França e a União Europeia. O texto destaca a ausência de Estados Unidos, Rússia, China e grandes petroestados do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Por que esse encontro foi organizado fora do ritmo tradicional das cúpulas da ONU?
A proposta da conferência é criar um espaço mais enxuto e voltado à execução de medidas concretas, em vez de depender apenas do processo mais amplo e lento das negociações climáticas das Nações Unidas. A falta de avanços após a COP28 levou Colômbia e Países Baixos a reunir um grupo de países dispostos a ir mais rápido e mais longe na redução da dependência de petróleo e gás.
De acordo com a reportagem, os organizadores acreditam que uma coalizão menor pode testar ideias práticas agora e, no futuro, incorporar esses caminhos às formulações mais lentas da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Em comparação com as grandes conferências climáticas da ONU, que reúnem mais de 50 mil participantes, o encontro em Santa Marta foi desenhado para ser mais acessível, com sessões mais abertas e transmissão ao vivo.
Quem participa e quais ausências chamam atenção?
O grupo reunido em Santa Marta inclui países com perfis muito distintos, do ponto de vista energético e climático. A presença de produtores de petróleo e gás ao lado de países altamente expostos aos impactos climáticos indica, segundo o texto, uma tentativa de construir mecanismos práticos de transição que levem em conta diferentes realidades nacionais.
Entre as ausências, chamam atenção grandes potências e importantes produtores de petróleo. A reportagem aponta que Estados Unidos, Rússia, China, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos não estão entre os participantes. Esse recorte reforça o caráter de uma coalizão formada por países que, neste momento, estariam mais dispostos a discutir calendários e instrumentos concretos para reduzir o uso de combustíveis fósseis.
Qual é o argumento central dos defensores da transição mais rápida?
A ex-presidente da Irlanda Mary Robinson, que falou a partir da organização The Elders, descreveu a conferência como um novo espaço multilateral voltado à ação. Em webinar realizado poucos dias antes do encontro, ela relacionou a transição energética ao cenário geopolítico atual e aos impactos econômicos globais associados à guerra envolvendo Irã, citada na reportagem.
“It’s such a serious moment,” she said.
“a new multilateral space for a committee of doers … those who want to collaborate and usher out fossil fuels.”
Segundo Robinson, a combinação entre erosão do direito internacional e instabilidade econômica reforça que uma transição justa para energias renováveis deve ser tratada também como questão de segurança. A reportagem afirma que ela classificou a nova pressão sobre o sistema energético global como um sinal claro de que os sistemas de energia precisam de mudança estrutural urgente.
Como a conferência pretende transformar discurso em ação prática?
Em vez de tentar levar todos os países resistentes ao mesmo tempo, Colômbia e Países Baixos apostam em uma coalizão modular para desenvolver cronogramas e mecanismos de proteção a pessoas, comunidades e ecossistemas. A ideia, segundo o texto, é combinar a eletrificação de transportes e da indústria com ações de conservação e eficiência energética para substituir os combustíveis fósseis.
A reportagem cita alguns exemplos mencionados por Robinson para sustentar a defesa da transição. Segundo ela, a Espanha, com forte presença de energia solar e eólica, conseguiu manter preços de eletricidade mais baixos do que países ainda mais dependentes de combustíveis fósseis. O texto também menciona que a expansão da energia solar no Paquistão ajudou o país a evitar mais de US$ 12 bilhões em importações de combustíveis fósseis.
- Elaboração de cronogramas práticos para reduzir petróleo e gás
- Criação de mecanismos de proteção para trabalhadores, comunidades e ecossistemas
- Ampliação da eletrificação no transporte e na indústria
- Fortalecimento de conservação e eficiência energética
- Integração posterior dessas propostas ao processo climático da ONU
Que papel a sociedade civil e as próximas COPs podem ter nesse processo?
O encontro em Santa Marta também prevê a participação formal de grupos comunitários, sindicatos, lideranças indígenas e defensores do interesse público, em um espaço chamado Cúpula dos Povos. Segundo os organizadores, a intenção é não tratar a sociedade civil como elemento secundário e, ao mesmo tempo, estimular novo fôlego para o ativismo climático nos países participantes.
Natalie Jones, assessora sênior de políticas do International Institute of Sustainable Development, disse à reportagem que Santa Marta deve ser vista como o começo de um novo processo, e não como um local para esperar uma grande declaração final. Na avaliação dela, trata-se de um movimento contínuo, que pode influenciar os encontros climáticos dos próximos meses e contribuir para o debate até a COP31, prevista para novembro, em Antália, na Turquia.
“stable and credible policy environment”
Segundo Jones, qualquer passo que acelere a transição para fora dos combustíveis fósseis pode ajudar não apenas no enfrentamento da crise climática, mas também na segurança energética e no custo da energia para famílias e empresas. Ela afirmou ainda, de acordo com a reportagem, que os roteiros discutidos no início da conferência podem dar a investidores, trabalhadores e comunidades uma direção mais clara em um sistema energético global descrito como incerto e caótico.