Roupas usadas enviadas para reciclagem ou revenda em várias partes do mundo podem terminar descartadas ilegalmente no deserto do Atacama, no norte do Chile, um problema ambiental que se arrasta há décadas e que agora pode ganhar novo desdobramento com uma mudança na legislação do país. De acordo com informações da Folha Ambiente, com reportagem de Jane Chambers, de Alto Hospicio, para a BBC News, o Chile recebe grandes volumes de vestuário usado e parte das peças sem valor comercial acaba abandonada ou queimada na região desértica.
Segundo estimativas do governo chileno citadas na reportagem, o país importa 123 mil toneladas de roupas usadas por ano, tendo a zona franca do porto de Iquique, conhecida como Zofri, como principal porta de entrada. As peças chegam de países como Estados Unidos, Canadá, nações europeias e asiáticas, são revendidas localmente ou exportadas para outros mercados latino-americanos, mas uma parcela do material que não encontra comprador passa a representar um passivo ambiental.
Como as roupas usadas vão parar no deserto do Atacama?
No norte chileno, parte das roupas de segunda mão é direcionada para La Quebradilla, um grande mercado a céu aberto próximo à cidade de Alto Hospicio. No local, barracas comercializam peças variadas a preços baixos, atraindo moradores e turistas. O problema começa quando itens de pior qualidade ou sem demanda deixam de ser vendidos.
Essas mercadorias não podem ser levadas ao aterro sanitário local, destinado apenas a resíduos domésticos, e os comerciantes, em tese, teriam três alternativas: exportar as roupas, pagar impostos para vendê-las fora da zona franca ou encaminhá-las a uma empresa autorizada de tratamento de resíduos. Como essas opções têm custo, parte dos comerciantes, segundo a reportagem, recorre ao descarte irregular no deserto ou à queima das peças, ambas práticas ilegais.
As maiores estimativas mencionadas apontam que cerca de 39 mil toneladas de roupas velhas são descartadas dessa forma todos os anos no Atacama. A situação impõe dificuldades à prefeitura de Alto Hospicio, cercada por áreas desérticas e morros de fácil acesso para caminhões.
“Alto Hospicio é rodeada pelo deserto e pelos morros, que são de fácil acesso para os caminhões poderem descartar as roupas”, explica Miguel Painenahuel, do setor de planejamento da cidade.
“A prefeitura tem patrulhas com carros e câmeras, para acompanhar o que acontece e multar os culpados.”
“Mas ele reconhece que “existem tantos caminhões descartando roupas que é muito difícil acompanhar tudo! Não temos recursos suficientes.”
Por que o problema também movimenta a economia local?
A importação e a triagem de roupas usadas geram trabalho na região. Felipe González, gerente-geral da Zofri, afirmou que existem cerca de 50 empresas importadoras de roupas na área, com impacto sobre a economia local.
“É um setor que oferece a maior parte do trabalho às mulheres da região”, explica ele. “Cerca de 10% delas trabalham com tecidos.”
“As mulheres ajudam a classificar as roupas em diferentes categorias, segundo sua qualidade. Não é um trabalho altamente especializado, de forma que é acessível a pessoas sem muitas qualificações.”
Esse cenário ajuda a explicar por que o fluxo de contêineres continua chegando ao norte chileno, mesmo diante do passivo ambiental associado à fração que não consegue ser reaproveitada comercialmente.
O que muda com a nova legislação no Chile?
A reportagem informa que, em julho do ano passado, os tecidos foram incluídos na Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor, já vigente no Chile. Na prática, a norma responsabiliza empresas que vendem produtos físicos pelo destino desses itens ao fim da vida útil.
Para o setor de vestuário, isso significa que marcas de moda, varejistas e importadores terão de financiar e organizar a coleta, o reuso, a reciclagem ou o descarte adequado dos produtos têxteis, sem transferir esse custo aos governos locais ou ao Ministério do Meio Ambiente chileno. Os detalhes específicos para o setor ainda estão em definição.
- O Chile importa 123 mil toneladas de roupas usadas por ano, segundo estimativas citadas na reportagem;
- Cerca de 39 mil toneladas seriam descartadas anualmente no deserto do Atacama;
- Os tecidos foram incluídos na Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor em julho do ano passado;
- A nova regra tende a ampliar a obrigação de destinação adequada para empresas do setor.
Que solução empresarial está sendo proposta para o descarte?
Em Iquique, o diretor-executivo do Centro Tecnológico de Economia Circular, Luis Martínez, liderou um projeto para estudar formas de remodelar e reutilizar roupas não vendidas. A iniciativa se conecta à construção de uma fábrica privada voltada ao aproveitamento desse material.
“Não queremos que o deserto do Atacama fique famoso como uma atração turística onde os visitantes podem observar montanhas de roupas”, explica ele.
O empresário Bekir Conkur, importador de produtos têxteis na região, constrói a unidade industrial e afirma que o objetivo é transformar roupas em fibras e depois em feltro, destinado a itens como colchões, mobília, interior de automóveis e isolamento.
“A fábrica que estamos construindo não precisará de água, nem de substâncias químicas”, explica ele.
“Usaremos máquinas que transformarão as roupas em fibras, depois em feltro, que será usado em objetos como colchões, mobília, interior de automóveis e isolamento. Acho que teremos capacidade de processar 20 toneladas por dia.”
Conkur disse ter investido US$ 7 milhões, cerca de R$ 35 milhões, no projeto e afirmou esperar recuperar o valor absorvendo o estoque de roupas indesejado do Chile e, no futuro, de outros países. Para ele, a mudança legal em curso abre uma oportunidade de negócio ao mesmo tempo em que pressiona o setor a lidar de forma mais adequada com o descarte têxtil.