Cidades litorâneas da Espanha, que estão entre os destinos europeus mais visitados por turistas brasileiros, especialmente as localizadas na Costa do Sol e na região de Cádiz, começaram a adotar medidas drásticas e inéditas de preparação contra tsunamis devido à atividade tectônica contínua no oceano. O movimento constante das placas geológicas entre a Europa e o Norte da África tem gerado tremores frequentes, forçando as autoridades a reconhecerem e mitigarem uma ameaça até então tratada como um tabu pelo setor de turismo local. A situação espanhola contrasta diretamente com a realidade da costa do Brasil, que, por estar localizada no centro da Placa Sul-Americana, encontra-se em uma margem tectônica passiva com risco praticamente nulo para esse tipo de evento.
De acordo com informações do Guardian Environment, o balneário de Chipiona se consolidou no ano de 2024 como a primeira comunidade espanhola a receber o selo oficial de prontidão para maremotos. A localidade, situada a cerca de três horas de Málaga, decidiu expor o risco publicamente ao criar protocolos de segurança claros nas praias.
A falha geológica do Mar de Alborão, que delimita as placas Africana e Eurasiática, acumula energia de forma silenciosa ao longo dos séculos. Embora a grande maioria dos terremotos locais seja imperceptível aos moradores, um tremor recente ao largo da costa de Fuengirola, com magnitude de 4,9, disparou mais de 40 ligações de alerta para os serviços de emergência na Andaluzia.
Como a cidade de Chipiona se tornou pioneira na prevenção?
A cidade de Chipiona, destino muito popular entre os turistas de Sevilha durante o verão, assumiu cientificamente que seus habitantes terão cerca de uma hora entre o início de um grande terremoto no mar e a chegada de um tsunami. Em vez de esconder o risco para proteger os negócios, o prefeito Luis Mario Aparcero Fernández instalou grandes painéis informativos ao longo da orla para instruir a população e os visitantes.
Nos primeiros dias, outros prefeitos de nossa província não eram a favor de falar sobre tsunamis, porque somos municípios turísticos. Mas consegui convencê-los de que poderíamos alcançar mais turismo por meio de maior segurança.
A preparação robusta do município envolve um conjunto de medidas práticas que já foram reconhecidas pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco:
- Instalação permanente de sirenes de alerta sonoro nas praias.
- Demarcação clara de rotas de evacuação a pé, com pontos de encontro fixados a 20 minutos de distância da costa.
- Realização de simulações anuais com estudantes no mês de novembro, em memória ao devastador terremoto de Lisboa ocorrido no ano de 1755.
- Projetos de relocação de delegacias de polícia e outros edifícios públicos vitais para áreas além das prováveis zonas de inundação.
Francisco Castro, atual coordenador das ações de segurança na cidade, afirma que a certificação internacional da Unesco reconhece o planejamento e a conscientização da comunidade costeira.
A certificação não significa que não há risco. O que estamos fazendo aqui não é diferente de hotéis preparando hóspedes com simulações de incêndio e mapas de rotas de fuga.
Quais são as diferenças de risco entre o Atlântico e o Mediterrâneo?
O tempo real de resposta para a evacuação civil varia consideravelmente de acordo com o litoral afetado. Em Chipiona, que é voltada para as águas do Oceano Atlântico, os modelos estimam que a população tenha cerca de 60 minutos para agir e fugir. Já em Málaga, que é banhada pelo Mar Mediterrâneo, as autoridades de defesa civil alertam para um cenário com prazos muito mais curtos e desafiadores, uma vez que os terremotos ocorrem rotineiramente mais perto da costa urbana.
Jorge Macías, modelador de tsunamis da Universidade de Málaga, descreve o risco geológico regional como sendo um evento de baixa probabilidade, mas de altíssimo impacto social. Caso um tremor massivo se origine na região do Mar de Alborão, a onda resultante poderia atingir o porto turístico de Málaga em aproximadamente 20 minutos. O atual sistema nacional espanhol leva de três a cinco minutos apenas para conseguir emitir um alerta inicial.
Se você sentir algo realmente forte perto da costa, não espere pelo alerta. Mova-se para o interior ou para cima. Mesmo um primeiro andar pode ser suficiente.
Qual é a probabilidade de um tsunami atingir a costa espanhola?
A Comissão da Unesco emitiu um aviso contundente aos governos europeus, afirmando com certeza absoluta que a bacia do Mediterrâneo experimentará um tsunami com ondas de pelo menos um metro de altura nos próximos 30 a 50 anos. Para os especialistas envolvidos na rede de proteção espanhola, a população em geral costuma subestimar o imenso potencial destrutivo do volume de água.
Juan Vicente Cantavella, atual diretor do Sistema Nacional de Alerta de Tsunamis na Espanha, detalha a complexa dinâmica física das inundações costeiras que são provocadas por abalos sísmicos submarinos.
Temos a tendência de assumir que uma onda de tsunami de meio metro é inofensiva apenas porque ondas geradas pelo vento de amplitude semelhante ou maior são comuns. No entanto, as ondas de tsunami carregam muito mais energia, e mesmo ondas de tsunami com apenas 30 ou 40 centímetros de altura podem causar inundações e mover objetos pesados, como carros.
Enquanto isso, a oceanógrafa física Begoña Pérez Gómez ressalta que dados precisos em tempo real sobre o nível do mar alimentam o sistema de previsão continuamente, oferecendo uma janela vital de sobrevivência. A especialista enfatiza que a preparação visível nas ruas fomenta uma cultura essencial de prevenção ao risco.
