Autoridades de Colorado, Novo México e Texas afirmaram em 17 de abril de 2026, durante a reunião anual da Comissão do Pacto do Rio Grande, em Santa Fé, no Novo México, que o rio deve registrar neste ano alguns dos fluxos mais baixos de sua história. O diagnóstico foi apresentado com base na seca prolongada, no baixo acúmulo de neve nas cabeceiras do rio no sudoeste do Colorado, no derretimento acelerado pela alta de temperatura em março e nos baixos níveis dos reservatórios ao longo da bacia.
De acordo com informações da Inside Climate News, representantes dos três estados signatários do acordo e de agências federais que operam no Rio Grande classificaram as condições previstas para 2026 com termos como severas, críticas e desafiadoras. O pacto, firmado em 1938, estabelece quanto de água o Colorado deve entregar ao Novo México, que por sua vez precisa repassar uma cota ao Texas.
Por que os estados do Rio Grande esperam um ano tão difícil?
Segundo o relato apresentado na reunião, a combinação entre mudança climática, megasseca prolongada no sudoeste dos Estados Unidos e demanda por água tornou mais difícil cumprir as obrigações de distribuição ao longo dos últimos anos. No inverno mais recente, o nível de neve no Colorado ficou bem abaixo da média, e um período de calor em março acelerou o degelo.
Em meados de abril, o equivalente em água da neve nas nascentes do Rio Grande estava em 13% da mediana. Já o reservatório de Elephant Butte, no sul do Novo México, operava com menos de 13% da capacidade. Com isso, comunidades e agricultores localizados a jusante esperam receber água do rio por um período curto neste ano.
De acordo com o U.S. Bureau of Reclamation, órgão que administra reservatórios no Rio Grande, a maior parte dessas estruturas está com menos de 15% da capacidade. A agência também indicou que as chuvas de monção no verão se tornaram menos confiáveis no Novo México. Se essas precipitações ficarem abaixo do esperado, Elephant Butte poderá cair para 2% da capacidade no fim de agosto. No ano passado, o reservatório chegou a 3,8% em agosto.
Quais impactos já são observados na bacia do rio?
Os efeitos da baixa vazão não se restringem ao abastecimento humano e à irrigação. A fauna que depende do rio também enfrenta riscos crescentes. Durante a reunião, Vance Wolf, do escritório de Albuquerque do U.S. Fish and Wildlife Services, apresentou a situação do peixe ameaçado conhecido como Rio Grande silvery minnow, que hoje sobrevive apenas em um trecho do Rio Grande no centro do Novo México.
Quando a vazão fica muito baixa e o leito seca nessa área, biólogos resgatam peixes para tentar preservar a população. Wolf informou que a agência observou um “population crash” em 2025 para a espécie. Ele também alertou para a possibilidade de secagem do rio em escala muito ampla neste verão.
“River drying may be some of the most extensive we’ve ever seen”, afirmou Wolf ao projetar o cenário para o verão.
Segundo o Bureau of Reclamation, a secagem começou no trecho de San Acacia em 27 de março, a data mais precoce já registrada para esse evento nos últimos 30 anos. O dado reforça a percepção de agravamento das condições hidrológicas em 2026.
Como os governos pretendem administrar a escassez de água?
A engenheira-chefe estadual do Novo México, Elizabeth Anderson, afirmou que as previsões graves devem resultar em um ano desafiador. Durante sua apresentação, ela defendeu cooperação entre usuários da água e autoridades para administrar a oferta hídrica na bacia do Rio Grande e cumprir as obrigações do pacto.
Anderson também detalhou o trabalho do seu escritório para atender ao acordo relacionado ao caso Texas v. New Mexico na Suprema Corte dos Estados Unidos. O Texas processou o Novo México em 2013, alegando que o bombeamento de águas subterrâneas no sul do estado impedia a recomposição dos aquíferos e reduzia a água devida ao estado vizinho pelo pacto.
Segundo ela, os estados chegaram a um acordo no outono passado e a Suprema Corte deve aprová-lo neste verão. Pelos termos citados na reunião, o Novo México terá de reduzir o bombeamento de água subterrânea na região de Las Cruces para garantir que volume suficiente chegue ao Texas.
- redução do bombeamento de água subterrânea na região de Las Cruces;
- desenvolvimento de um programa de aquisição de direitos de uso da água;
- estudo de opções de recarga gerida de aquíferos;
- avaliação de dessalinização de água subterrânea salobra.
Qual é a reivindicação dos povos indígenas na comissão?
A governança da água no Rio Grande também envolve uma disputa por representação. O governo dos Estados Unidos reconhece os direitos hídricos “prior and paramount” dos povos Pueblo ao longo do rio. Ainda assim, embora detenham esses direitos, eles não têm representação formal na Comissão do Pacto do Rio Grande.
Desde 2022, a coalizão de seis pueblos — Cochiti, Santo Domingo, San Felipe, Santa Ana, Sandia e Isleta — solicita inclusão formal nas reuniões e um espaço permanente nas discussões. Neste ano, Joseph Lucero, presidente do Conselho Tribal do Pueblo de Isleta e líder da coalizão, reiterou o pedido.
“Our message remains the same”, disse Lucero. “We seek to build a collaborative relationship with the commission, so that we can address issues of mutual concern.”
Lucero afirmou ainda que, em 2023, a comissão orientou seus assessores a elaborar um protocolo preliminar de relacionamento “government to government” com os pueblos, mas que nenhum texto foi distribuído até agora. Para ele, limitar os comentários dos pueblos à parte da agenda reservada ao Bureau of Indian Affairs não respeita a soberania desses povos.
O cenário apresentado na reunião anual indica que 2026 deve ser mais um ano de forte pressão sobre a bacia do Rio Grande, com impactos simultâneos sobre abastecimento, agricultura, cumprimento de acordos interestaduais e preservação ambiental.