Uma análise pioneira identificou resíduos de PFAS, os chamados “químicos eternos”, em 37% das amostras de produtos agrícolas convencionais da Califórnia, com pêssegos, morangos e uvas apresentando contaminação quase total. O estudo foi divulgado em 29 de março de 2026 pelo The Guardian, coincidindo com a apresentação de um projeto de lei que pretende banir completamente esses compostos dos pesticidas no estado até 2035.
A Environmental Working Group (EWG) realizou o estudo ao analisar registros de testes de resíduos do Departamento de Regulação de Pesticidas da Califórnia. A organização sem fins lucrativos examinou 930 amostras de 78 tipos diferentes de frutas e vegetais não orgânicos cultivados no estado. Dos resultados, 348 amostras, o equivalente a 37%, apresentaram resíduos de PFAS.
O que são os PFAS e por que representam risco?
Os PFAS constituem uma classe de pelo menos 16 mil compostos químicos usados para conferir resistência à água, manchas e calor em diversos produtos. Eles são conhecidos como “químicos eternos” porque não se degradam naturalmente no meio ambiente, acumulando-se no organismo e no solo. Estudos associam essas substâncias ao câncer, doenças renais, problemas hepáticos, distúrbios imunológicos e defeitos congênitos.
De acordo com a análise, cerca de 90% das amostras de pêssegos, ameixas e nectarinas continham resíduos de PFAS, enquanto 80% das amostras de morangos e uvas também foram contaminadas. Esses números são especialmente preocupantes porque crianças consomem grandes quantidades dessas frutas, sendo o grupo mais vulnerável aos efeitos tóxicos dos compostos.
Quais frutas e vegetais foram mais afetados?
A investigação revelou que cerca de 40 tipos diferentes de frutas e vegetais apresentaram resíduos, o que significa que pelo menos metade das variedades de produtos agrícolas analisadas foram tratadas com pesticidas contendo PFAS. Os níveis detectados em pêssegos, morangos e uvas foram os mais elevados. Para o Brasil, o tema tem relevância porque PFAS vêm sendo alvo de discussão regulatória em diferentes países e afetam cadeias globais de alimentos, ainda que o texto não trate de produtos comercializados no mercado brasileiro.
“A maioria dos consumidores não espera encontrar químicos eternos PFAS em seus morangos – acho que essa informação é chocante para a maioria das pessoas.”
A frase acima foi dita por Bernadette Del Chiaro, vice-presidente sênior das operações da EWG na Califórnia. Ela destacou que a população não imagina que esses compostos estejam presentes nos alimentos que compra.
Como os PFAS são usados na agricultura?
De acordo com uma análise de 2023 dos dados da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), pelo menos 60% dos ingredientes ativos aprovados federalmente para pesticidas comuns se enquadram na definição mais aceita de PFAS. Esses químicos são adicionados aos pesticidas para matar ervas daninhas ou pragas.
A EWG estima que 2,5 milhões de libras de PFAS são aplicadas anualmente nas terras agrícolas da Califórnia. Além de contaminar os alimentos, esses compostos persistem no ambiente e poluem os mananciais de água potável. A cidade de Fresno, em região agrícola do centro da Califórnia, processou recentemente fabricantes de PFAS após detectar contaminação de águas subterrâneas que excedeu em 600% os limites federais, afetando mais de 120 mil residências.
O que diz o projeto de lei da Califórnia?
O projeto de lei proposto baniria o uso de PFAS como ingrediente ativo em pesticidas até 2035. Até 2030, os 23 pesticidas à base de PFAS já proibidos pela União Europeia, mas ainda permitidos nos Estados Unidos, também seriam vetados na Califórnia. A proposta inclui ainda uma moratória para a aprovação de novos pesticidas com PFAS e a obrigatoriedade de rótulos de advertência para os agricultores.
A indústria de pesticidas deve reagir fortemente contra a medida. Maine e Minnesota já aprovaram leis semelhantes. O governador Gavin Newsom, democrata que comanda o estado mais populoso dos EUA, ainda não se manifestou sobre o tema. Em dezembro, ele vetou um projeto que proibia PFAS em panelas e outros utensílios domésticos após pressão da indústria.
O autor do projeto, o deputado estadual Nick Schultz, afirmou que não quer que seus filhos consumam morangos contaminados com substâncias que permanecerão em seus corpos por décadas. Segundo ele, a lei oferece um caminho responsável para que os agricultores transitem para alternativas mais seguras, reposicionando a Califórnia como líder global em segurança alimentar.
O coautor do relatório da EWG, Varun Subramaniam, alertou que os consumidores podem estar expostos a misturas de diferentes tipos de PFAS, uma vez que dez produtos são aprovados para uso em morangos. No entanto, o sistema regulatório avalia o risco de cada pesticida isoladamente, ignorando os efeitos combinados, que costumam ser mais prejudiciais.
