O regime do Irã tem conseguido se manter no poder apesar dos bombardeios intensos promovidos por Estados Unidos e Israel e da eliminação de integrantes de sua cúpula, segundo especialistas ouvidos em reportagem publicada na segunda-feira, 30 de março de 2026. A análise aponta que a estratégia iraniana combina capacidade militar remanescente, reposição rápida de comandantes e tentativa de impor desgaste político e econômico aos adversários. De acordo com informações do G1 Jornal Nacional, esse cenário ajuda a explicar por que o regime ainda não foi derrubado. Para o Brasil, a escalada no Oriente Médio tem potencial de repercutir no preço internacional do petróleo e nos custos de combustíveis e fretes, além de afetar o ambiente diplomático em fóruns multilaterais.
A reportagem reúne avaliações de Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, e do acadêmico iraniano Hooshang Amirahmadi, que vive em Nova York e defende maior abertura no país. Ambos afirmam que, embora o Irã esteja sob forte pressão militar, ainda preserva instrumentos de resistência e de contenção do conflito.
Por que o regime iraniano continua de pé mesmo sob bombardeios?
Segundo Vitelio Brustolin, a estratégia iraniana é aumentar o custo da guerra para os atacantes. Em vez de buscar uma vitória militar clara, o objetivo seria prolongar o confronto e provocar desgaste econômico e político nos adversários.
“A estratégia do Irã é exatamente essa: tornar a guerra muito cara para o atacante. É a dissuasão pelo custo da guerra. E tem conseguido, sim, tirar vantagem disso. E tem ainda um estoque considerável de mísseis”.
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Hooshang Amirahmadi afirmou que não considera que o Irã esteja vencendo a guerra, mas avalia que o país vem conseguindo contê-la com os recursos de que dispõe. Na visão dele, um dos principais ativos estratégicos iranianos é o Estreito de Ormuz. A via marítima é uma das mais relevantes do mundo para o escoamento de petróleo, o que ajuda a explicar por que tensões na região costumam ser acompanhadas de perto por mercados e governos, inclusive o brasileiro.
“Eu não diria que o Irã está vencendo a guerra, mas está conseguindo contê-la bem, usando suas armas. No fim das contas, o Irã não tem bomba nuclear, mas tem algo mais eficaz: o Estreito de Ormuz”.
Como a estrutura do regime foi adaptada para suportar perdas na cúpula?
De acordo com os especialistas citados na reportagem, o Irã teria se preparado para um conflito dessa dimensão ao longo de quase 40 anos, desde a Guerra Irã-Iraque, travada entre 1980 e 1988. Depois desse período, o regime teria passado a operar com uma cadeia de comando descentralizada e com vários substitutos para postos-chave.
Esse modelo, segundo a reportagem, ajuda a explicar a continuidade do funcionamento estatal e militar mesmo após a morte de dirigentes e comandantes. O texto informa que, já no primeiro dia da guerra, Estados Unidos e Israel eliminaram integrantes da cúpula do regime. Ainda assim, os cargos foram preenchidos em poucos dias, e as forças permaneceram em atuação.
A reportagem cita entre os mortos o líder supremo Ali Khamenei, o ministro da Defesa, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e o comandante da Guarda Revolucionária, além de outras autoridades posteriormente substituídas. Também informa que Mojtaba, filho de Khamenei, assumiu como novo líder do país.
“Qualquer general que seja morto, logo aparece outro no lugar, e depois mais outro. Lembre-se: há cerca de 300 mil nas forças militares e na Guarda Revolucionária, e quase 500 mil no Exército. Então, embora a estrutura vertical tenha sido desmantelada, a estrutura horizontal foi ampliada e fortalecida”.
O que pode definir o rumo da guerra?
Para os analistas ouvidos, a guerra não deve ser decidida apenas pelo poder de fogo. A capacidade de sustentação econômica e política dos envolvidos também aparece como fator central para os próximos desdobramentos.
Brustolin considera improvável que todo o arsenal de mísseis iranianos seja destruído, porque parte dele estaria distribuída pelo território e protegida em instalações subterrâneas.
“É bastante improvável que todos os mísseis do Irã sejam destruídos. Eles estão espalhados pelo território do Irã, muitos deles em abrigos subterrâneos sob montanhas”.
Já Amirahmadi observa que a pressão sobre o presidente Donald Trump também viria do ambiente interno dos Estados Unidos, em razão dos efeitos da guerra sobre os mercados e sobre a economia.
É provável que os ataques derrubem o regime dos aiatolás?
Os especialistas ouvidos pela reportagem consideram improvável que Estados Unidos e Israel atinjam, apenas com bombardeios, o objetivo de derrubar o regime iraniano. A avaliação é de que mudanças de regime, historicamente, não costumam ocorrer sem presença de tropas em solo.
“Historicamente, nunca houve uma troca de regime sem tropas no terreno. Então, só bombardeios aéreos não trocam regimes”.
Na interpretação de Hooshang Amirahmadi, a saída possível seria a retirada de Estados Unidos e Israel da guerra, seguida de uma negociação mais ampla com o Irã.
Com base nas análises reunidas pela reportagem, os principais fatores para a resiliência do regime iraniano são:
- estoque ainda relevante de mísseis;
- dispersão de armamentos em diferentes áreas do território;
- estrutura de comando com reposição rápida de lideranças;
- capacidade de impor custos econômicos e políticos aos adversários;
- avaliação de que bombardeios, sozinhos, dificilmente provocam mudança de regime.