A reforma tributária começou a evidenciar fragilidades na operação fiscal de empresas brasileiras a menos de nove meses do início da entrada em vigor do IVA dual. Levantamento da V360, divulgado neste sábado, 11 de abril de 2026, mostra que grande parte das companhias ainda enfrenta processos lentos e dependência de tarefas manuais para registrar notas fiscais, em um momento em que o país se prepara para operar com novas regras tributárias. De acordo com informações da Agência Brasil, esse cenário pode ampliar riscos operacionais e dificultar a adaptação ao novo modelo.
Segundo a pesquisa, 62,2% das empresas levam mais de 20 dias para registrar uma nota fiscal no sistema, enquanto 22,3% demoram mais de 30 dias. Ao mesmo tempo, 87% das companhias afirmam ter alto nível de automação fiscal. Para especialistas, a diferença entre a percepção e a prática expõe um quadro de “falsa automação”, quando etapas já são digitais, mas ainda dependem de intervenção humana para validação e conclusão.
O que o levantamento mostra sobre a rotina fiscal das empresas?
O estudo ouviu 355 profissionais de médias e grandes empresas, a maioria com alto volume operacional. Entre as companhias consultadas, 63% processam mais de 10 mil notas fiscais por mês. Mesmo nesse ambiente, a automação aparece de forma parcial: 61% das empresas conseguem capturar notas fiscais automaticamente, mas apenas 49% realizam o registro no sistema sem ação manual.
De acordo com a reportagem, isso ocorre porque o ERP, sigla em inglês para sistema de planejamento empresarial, depende de integrações e validações adicionais para funcionar plenamente no ambiente tributário brasileiro. Na prática, o documento pode entrar automaticamente, mas ainda exige conferências e ajustes antes de seguir no fluxo interno.
“Muitas empresas acreditam que estão automatizadas, mas ainda dependem de pessoas para validar dados e concluir processos”, afirma o presidente-executivo da V360, Izaias Miguel.
O executivo acrescenta que o tempo entre a emissão e o registro da nota fiscal serve como um indicador de eficiência. Segundo ele, quando esse intervalo se estende por semanas, há acúmulo de exceções e retrabalho, o que compromete a operação.
Quais riscos operacionais aparecem nesse processo?
O levantamento também aponta falhas na validação das notas fiscais. Apenas 48% das empresas fazem conferência completa, com comparação entre itens, valores e quantidades e os pedidos de compra. Outras 44% realizam checagens parciais, enquanto 8% ainda operam de forma totalmente manual.
- Pagamentos indevidos
- Erros fiscais
- Perda de controle interno
- Acúmulo de retrabalho
Segundo a V360, esses problemas tendem a pesar ainda mais em empresas com grande volume de fornecedores. O estudo citado pela Agência Brasil indica que menos da metade das companhias faz uma checagem completa das notas fiscais, enquanto as demais operam com validações parciais ou totalmente manuais.
“O tempo entre a emissão e o registro da nota é um termômetro claro de eficiência. Quando leva semanas, há acúmulo de exceções e retrabalho”, diz Miguel.
Como a reforma tributária aumenta a pressão sobre as empresas?
A chegada do novo modelo tributário deve agravar esse quadro porque as empresas terão de adaptar seus sistemas para lidar simultaneamente com regras antigas e novas. Além disso, precisarão operar com o Imposto sobre Bens e Serviços, o IBS, e a Contribuição sobre Bens e Serviços, a CBS, tributos que comporão o IVA dual.
Na avaliação de Izaias Miguel, o principal desafio não está apenas em compreender a reforma, mas em executá-la dentro de estruturas complexas e pouco integradas. Para ele, fragilidades nos processos de validação ampliam o risco de erro justamente no momento de transição.
“O estudo mostra fragilidades importantes nos processos de validação: menos da metade das empresas fazem uma checagem completa das notas fiscais contra pedidos de compra, enquanto o restante opera com validações parciais ou manuais. Esse cenário aumenta o risco de erro”, diz Miguel.
Em que fase está a implementação do novo sistema tributário?
Em 2026, a reforma tributária está em fase de testes, com cobrança de alíquota simbólica de 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, valores que serão deduzidos dos tributos atuais. A partir de 2027, os cinco tributos sobre o consumo serão gradualmente extintos, enquanto as alíquotas de CBS e IBS subirão.
Mesmo com alíquotas simbólicas, as obrigações acessórias já são imediatas. As empresas precisam destacar a CBS e o IBS nas notas fiscais, preencher novos campos obrigatórios e informar corretamente a classificação fiscal de produtos e serviços. A reportagem lembra ainda que, em dezembro, a Receita Federal suspendeu as multas por falta da discriminação dos dois novos tributos nas notas fiscais até o quarto mês seguinte à regulamentação da CBS e do IBS.
Para Miguel, nesse contexto, a automação deixa de ser apenas uma ferramenta operacional e passa a ter papel estratégico. Segundo ele, empresas mais eficientes tendem a ganhar agilidade para lidar com a mudança, enquanto estruturas fragmentadas podem enfrentar custos maiores, mais erros e dificuldades de adaptação.