Projeto de biocombustíveis apoiado por Meloni no Quênia é alvo de investigação - Brasileira.News
Início Internacional África Projeto de biocombustíveis apoiado por Meloni no Quênia é alvo de investigação

Projeto de biocombustíveis apoiado por Meloni no Quênia é alvo de investigação

0
9

Uma investigação publicada em 31 de março de 2026 colocou sob escrutínio um projeto de biocombustíveis da Eni no Quênia, apoiado pelo governo da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. O material aponta dúvidas sobre a promessa de produzir culturas não comestíveis em terras degradadas, além de relatar possíveis impactos sobre agricultores locais e riscos à segurança alimentar. De acordo com informações da CleanTechnica, a apuração foi conduzida por SourceMaterial e Politico, com apoio de dados da Transport & Environment (T&E).

O caso tem relevância além da Itália e do Quênia porque ocorre em um mercado acompanhado de perto por grandes produtores como o Brasil, onde os biocombustíveis têm peso na matriz de transportes e no debate sobre descarbonização. Questionamentos sobre rastreabilidade, uso da terra e competição com culturas alimentares são temas centrais também nas discussões internacionais do setor.

Segundo o texto, o projeto é tratado como iniciativa emblemática da Eni no Quênia e recebeu apoio financeiro público para ampliar a produção e o processamento de matérias-primas para biocombustíveis. A proposta divulgada pela empresa era contribuir para a descarbonização do transporte global e apoiar a renda de até 200 mil pequenos produtores quenianos de oleaginosas. No entanto, os achados citados pela investigação colocam em dúvida se esse modelo está sendo executado da forma prometida.

O que a investigação aponta sobre as operações da Eni no Quênia?

Registros comerciais analisados pela T&E, segundo a reportagem, indicam que a Eni importou quantidades significativas de colza da África do Sul para subsidiárias no Quênia. Depois, registros alfandegários aparentemente mostram que grande parte do óleo de colza teria sido reexportada para a Itália, com destino às refinarias de Gela e Veneza, em 2025. De acordo com a T&E, esse volume poderia representar até 80% de todas as exportações da Eni do Quênia para essas unidades, embora a empresa conteste essa estimativa e afirme que o percentual correto seria de 40%.

— Publicidade —
Google AdSense • Slot in-article

A investigação também relata que agricultores teriam sido incentivados a cultivar mamona, mas depois teriam sido abandonados por intermediários que os recrutaram em nome da Eni. Conforme os relatos reunidos por SourceMaterial, produtores afirmaram ter ficado com uma cultura sem utilidade alimentar, plantada no lugar do milho. Em entrevistas citadas pela apuração, houve queixas de que a troca comprometeu a disponibilidade de alimentos para famílias locais.

O texto menciona ainda o professor Valerio Bini, da Universidade de Milão, que entrevistou 50 agricultores em maio de 2025. Segundo a reportagem, praticamente todos haviam substituído culturas alimentares por mamona. Para a T&E, esse cenário é especialmente preocupante no contexto da atual crise global de alimentos.

Quais críticas foram feitas ao modelo de biocombustíveis defendido pela empresa?

O especialista em combustíveis da T&E, Carlo Tritto, criticou o projeto e afirmou que ele deveria demonstrar a possibilidade de expandir biocombustíveis de forma sustentável sem recorrer a culturas alimentares. No entanto, segundo ele, a operação aparenta depender de colza importada, apesar da promessa de usar culturas não comestíveis produzidas localmente em terras de baixa qualidade.

“O projeto de biocombustíveis da Eni no Quênia deveria mostrar que os biocombustíveis podem ser ampliados de forma sustentável sem consumir culturas alimentares. Mas a Eni aparentemente está dependendo de colza importada, apesar de prometer produzir culturas não comestíveis cultivadas localmente em terras de baixa qualidade. Os biocombustíveis de culturas alimentares oferecem benefícios climáticos limitados e trazem riscos de mudança no uso da terra. De forma preocupante, os biocombustíveis de culturas agrícolas também pressionam a oferta global de alimentos, que já está sob forte tensão em razão da guerra no Oriente Médio. Tendo recebido grandes volumes de financiamento público climático, isso é exatamente o oposto do que o projeto deveria alcançar. Os biocombustíveis são parte central do modelo de negócios da Eni e da estratégia do governo italiano para manter vivo o motor a combustão. Essas descobertas levantam sérias dúvidas sobre o potencial dos biocombustíveis como alternativa sustentável.”

A reportagem informa que a Eni é uma das principais defensoras do uso de biocombustíveis e assumiu o compromisso de expandir sua capacidade de biorrefino. O tema também ocupa espaço relevante na estratégia do governo italiano para descarbonizar o transporte e aparece como um dos argumentos centrais da oposição do país ao Green Deal europeu, em defesa da chamada neutralidade tecnológica como alternativa à eletrificação do setor automotivo.

Para o leitor brasileiro, a controvérsia ajuda a ilustrar como critérios de certificação, origem da matéria-prima e impacto sobre a produção de alimentos influenciam a credibilidade internacional do setor de biocombustíveis. Esse debate é relevante para países exportadores e grandes produtores, como o Brasil, que acompanham de perto regras de sustentabilidade e rastreabilidade em mercados externos.

Que investimentos e controvérsias adicionais aparecem no caso?

Em 2024, a International Finance Corporation e o Italian Climate Fund anunciaram investimento de US$ 210 milhões nas subsidiárias quenianas da Eni para expandir a produção e o processamento de culturas não comestíveis destinadas a biocombustíveis. O texto, porém, ressalta que a promessa de plantar essas culturas em áreas degradadas não pôde ser verificada pela T&E no caso da colza importada da África do Sul. A Eni respondeu, de acordo com a publicação, que a matéria-prima teria vindo de fazendas rastreáveis em terras severamente degradadas, mas essa informação não havia sido tornada pública.

  • A investigação principal foi conduzida por SourceMaterial e Politico.
  • Os dados comerciais usados na análise contaram com apoio da T&E.
  • A Eni contestou parte das conclusões, especialmente a fatia atribuída às exportações de óleo de colza para a Itália.
  • A T&E afirmou que sua pesquisa sobre o projeto no Quênia se limitou à análise de volumes comerciais.

O artigo também menciona outra investigação recente da SourceMaterial sobre um exportador indonésio certificado pelo sistema ISCC, o mesmo tipo de certificação usado no Quênia.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

WhatsApp us

Sair da versão mobile