A população de jumentos no território brasileiro tornou-se o centro de um intenso debate técnico e ambiental recentemente. De acordo com informações do Canal Rural, especialistas da área veterinária e pesquisadores de órgãos de controle agropecuário estão contestando estatísticas internacionais que indicam uma suposta abundância de asininos no país. O alerta principal reside no risco iminente de extinção da espécie em solo nacional, impulsionado por uma queda acentuada no número de exemplares nas últimas décadas, fenômeno que contradiz relatórios globais sobre a pecuária local.
Historicamente, o jumento, especialmente o chamado jumento nordestino, desempenhou um papel vital no desenvolvimento do interior do Brasil, servindo como principal meio de transporte e tração para trabalhadores rurais. Entretanto, a mecanização do campo e a substituição do animal por motocicletas alteraram drasticamente seu status social. O que antes era um aliado de trabalho passou a ser, em muitos casos, abandonado, tornando-se vulnerável a novas dinâmicas de mercado, como o abate sistemático para a exportação de subprodutos.
Quais são as divergências nos dados sobre jumentos?
A controvérsia apontada pelos especialistas gira em torno do descompasso entre o que é registrado por entidades internacionais de comércio e os levantamentos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Enquanto alguns dados externos sugerem que o Brasil possui um rebanho numeroso o suficiente para sustentar abates em escala industrial, os censos agropecuários nacionais mostram uma realidade oposta. A população de jumentos no Nordeste, principal habitat da espécie, sofreu uma redução drástica de mais de 30% em menos de dez anos.
Essa discrepância é perigosa, segundo os técnicos, pois pode mascarar a velocidade com que a espécie está desaparecendo. O abate de jumentos no Brasil é motivado majoritariamente pela demanda do mercado asiático, especificamente da China, que utiliza o couro do animal para a produção do ejiao, uma substância utilizada na medicina tradicional e em produtos de luxo. Especialistas alertam que, se o ritmo de abate for mantido com base em dados inflados, a base genética do jumento brasileiro poderá ser irreversivelmente perdida.
Por que a espécie corre risco de extinção no Brasil?
Diferente de outras espécies da pecuária tradicional, como bovinos ou suínos, o ciclo reprodutivo dos asininos é consideravelmente lento. Uma jumenta possui um período de gestação que dura entre 11 e 12 meses, parindo apenas um filhote por vez. Além disso, não há no Brasil uma estrutura de cadeias produtivas de ciclo completo para a criação de jumentos, o que significa que os animais enviados ao abate são, em sua maioria, capturados na natureza ou retirados de situações de abandono.
- Baixa taxa de natalidade natural da espécie;
- Ausência de criatórios comerciais voltados à preservação;
- Pressão contínua do mercado externo pelo couro;
- Falta de políticas públicas de proteção ao patrimônio genético.
Qual o impacto da exportação de couro para a China?
O mercado chinês consome milhões de peles de jumento anualmente, e o Brasil se tornou um dos principais fornecedores globais após diversos países africanos proibirem a prática devido ao risco de extinção local. No Brasil, o tema já chegou às esferas judiciais, com diversas entidades de proteção animal e ambientalistas protocolando ações para suspender o abate. Argumenta-se que a atividade não apenas ameaça a biodiversidade, mas também ignora o valor cultural e histórico do animal para a identidade brasileira.
A preservação dos asininos exige, portanto, uma revisão urgente das estatísticas oficiais e uma fiscalização mais rigorosa sobre o trânsito e a origem desses animais. Sem uma base de dados precisa que reflita a real população remanescente, o Brasil corre o risco de extinguir uma espécie que foi fundamental para a construção de sua infraestrutura básica no século passado.