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Pegada de carbono: Vale e Exxon propõem nova forma de contabilidade global

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Representação digital de um globo terrestre conectado por linhas brilhantes, simbolizando redes de dados e sustentabilidade.
Foto: Richard Szwejkowski / flickr (by-sa)

Calcular com exatidão a pegada de carbono de uma cadeia de valor inteira sempre foi um dos maiores desafios para a economia global. Em uma tentativa de revolucionar as métricas atuais, uma coalizão lançada na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém (PA) em novembro de 2025, apresentou um modelo inédito para rastrear os gases de efeito estufa. O grupo Carbon Measures, que reúne 26 gigantes da indústria, energia e finanças, como a ExxonMobil, a Bayer, a mineradora brasileira Vale e o Santander, quer substituir os tradicionais inventários corporativos anuais por uma métrica vinculada diretamente aos produtos.

De acordo com informações do Capital Reset, a proposta defende que as emissões sejam transformadas em uma espécie de moeda rastreável ao longo de toda a cadeia produtiva. Com isso, os consumidores e investidores poderiam comparar de forma precisa a intensidade de poluição de itens variados, desde barris de petróleo e chapas de aço até produtos alimentícios consumidos no dia a dia da sociedade. Para o Brasil, um dos maiores exportadores globais de commodities minerais e agrícolas, a adoção dessa nova contabilidade pode impactar diretamente a competitividade internacional de seus produtos.

Como funcionará a nova contabilidade de emissões corporativas?

A lógica por trás da iniciativa elaborada pelas empresas integrantes é amplamente inspirada em conceitos fundamentais da contabilidade financeira. O novo sistema operaria de maneira semelhante à cobrança de um imposto sobre valor agregado. A cada etapa do processo de produção, o passivo de poluição seria devidamente calculado e transferido para a próxima fase, pertencendo a apenas uma entidade por vez. Esta dinâmica contábil, em tese, eliminaria o risco de contagem dupla das emissões de poluentes.

Este conceito de rastreamento baseia-se no sistema conhecido pelo mercado financeiro como E-liability, elaborado por Robert Kaplan, professor emérito da Universidade de Harvard, e Karthik Ramanna, professor da Universidade de Oxford. A estratégia visa tornar a prestação de contas ambiental mais prática, conforme explica Carmen San Segundo, executiva responsável pela área de comunicação do consórcio empresarial.

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“O objetivo é tornar o carbono visível e comparável nos mercados, criando incentivos para produtos de menor intensidade de emissões”

Quais são as principais críticas ao atual sistema GHG Protocol?

Atualmente, as corporações globais utilizam o GHG Protocol, um método oficial estabelecido há quase três décadas. O principal apontamento de falha levantado pela nova aliança empresarial é que este protocolo deixa lacunas técnicas expressivas devido à sua elevada dependência de estimativas, especialmente no chamado escopo três de análise. Este nível específico representa o impacto indireto ao clima, abrangendo as taxas de poluentes geradas pelos fornecedores terceirizados e também pelo consumo final daquilo que a indústria colocou no mercado.

Daniel Schneiders, diretor global de clima e água da gigante agroquímica parceira do projeto, detalha as barreiras enfrentadas com as ferramentas de mensuração vigentes nos dias de hoje.

“Os sistemas atuais dependem fortemente de estimativas e inventários anuais, o que limita a precisão e a tomada de decisões”

As disputas jurídicas em torno das exigências do escopo três já atingem instâncias governamentais. Nos Estados Unidos, a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, na sigla em inglês) chegou a propor a inclusão destas métricas nos relatórios financeiros obrigatórios, mas recuou após sofrer contestações judiciais. Em contrapartida, o estado da Califórnia aprovou recentemente uma legislação impondo o fornecimento de tais dados corporativos para companhias com faturamento superior a um bilhão de dólares. Uma das líderes da aliança petroleira decidiu processar o estado californiano, argumentando que a regra tenta direcionar a responsabilidade ambiental exclusivamente para as esferas privadas.

Por que a proposta do novo modelo gera desconfiança no mercado de finanças?

Apesar de o modelo teórico sugerido demonstrar robustez contábil, diversos especialistas do setor ecológico expressam preocupações reais em relação à viabilidade prática de sua implantação. A forte presença de indústrias focadas em combustíveis fósseis gera debates acalorados sobre possíveis conflitos de interesse institucionais durante a formulação das regras. Adicionalmente, existe o temor latente de que o estabelecimento de uma diretriz concorrente provoque a fragmentação definitiva das estatísticas internacionais de proteção ao meio ambiente.

Lauro Marins, especialista executivo na área de consultoria ambiental da WayCarbon, ressalta que as diferenças setoriais vão dificultar a adoção uniforme em todas as regiões do mundo.

“A ideia é interessante no papel, mas a operacionalização é extremamente desafiadora. Criar um novo padrão do zero exige um nível de coordenação que o mercado ainda não demonstrou ter”

Outro obstáculo gigantesco envolve a complexidade operacional de determinadas redes de abastecimento. Enquanto o ramo industrial fechado possui recursos para realizar aferições exatas, o segmento do agronegócio está sempre subordinado a variações climáticas incontroláveis. Pesquisadores acadêmicos do Centro de Estudos de Carbono da Universidade de São Paulo (USP) alertam que um mesmo lote de adubo químico pode registrar pegadas tóxicas completamente díspares, dependendo exclusivamente da composição geológica do terreno e do volume de chuvas na semana da aplicação.

Quais os próximos passos para a implementação do padrão alternativo?

A plataforma idealizada pelas 26 companhias ainda cumpre os trâmites de sua fase embrionária, porém os organizadores já estruturaram um roteiro oficial para tentar atrair adesão em massa.

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