Os partidos de centro, com destaque para o PSDB e o Podemos, conseguiram garantir a sobrevivência política e a manutenção do acesso ao fundo partidário ao contornar as exigências da cláusula de barreira — regra que restringe repasses financeiros e tempo de rádio e TV a legendas com baixo desempenho nas urnas. A estratégia adotada pelas legendas consistiu em descentralizar o poder, apostando no fortalecimento de lideranças e estruturas regionais em detrimento de figuras de peso no cenário nacional durante as eleições de 2022.
De acordo com informações da CNN Brasil, a avaliação do cenário foi apresentada pelo analista político Pedro Venceslau. Durante a exibição de um programa jornalístico focado na radiografia das legendas brasileiras, o comentarista destacou que as agremiações surpreenderam nas urnas, garantindo a representatividade necessária para não serem extintas formalmente do mapa político.
Como o PSDB e o Podemos evitaram a extinção partidária?
O sucesso das duas legendas ocorreu mesmo diante de um cenário de crise estrutural e da ausência de nomes fortes para o pleito presidencial daquele ano. O caso do partido tucano é considerado o mais emblemático. A agremiação enfrentava uma grave retração de eleitorado desde a eleição de 2018. Naquela ocasião, o então candidato ao Palácio do Planalto, Geraldo Alckmin (hoje no PSB e atual vice-presidente da República), obteve apenas 5% dos votos válidos. Apesar desse histórico recente de encolhimento, a sigla conseguiu eleger 11 deputados federais, um número que superou as projeções mais pessimistas do mercado político.
A explicação central para essa resiliência reside na forma como os diretórios estaduais foram administrados. O analista explicou a dinâmica:
“São duas siglas que não têm grandes lideranças, ou pelo menos não tinham grandes lideranças, mas têm estruturas locais sem disputa de poder.”
Essa ausência de atritos internos permitiu que as direções nacionais oferecessem aos líderes regionais o controle total e incontestável das máquinas partidárias, garantindo o empenho local nas campanhas proporcionais (disputas para a Câmara dos Deputados).
Quais são os exemplos práticos dessa estratégia nos estados?
A análise detalhou casos específicos que ilustram o movimento descentralizador. No estado do Ceará, a dinâmica foi conduzida pelo ex-senador Tasso Jereissati (PSDB), que detém o comando do diretório tucano local. A manobra envolveu a oferta da estrutura da agremiação para que Ciro Gomes (PDT) pudesse disputar o Executivo. O atrativo principal desse convite foi a garantia absoluta de que não haveria alas internas questionando sua liderança ou boicotando sua campanha.
Outro cenário que exemplifica a autonomia local ocorreu em Alagoas, envolvendo o prefeito da capital, Maceió. João Henrique Caldas, o JHC (PL), surpreendeu o cenário político com um leque amplo de possibilidades em seu grupo. O gestor garantiu a liberdade institucional para decidir se iria disputar o comando do governo do estado ou uma cadeira no Senado Federal. Essa margem de manobra ocorreu porque a direção do partido não impôs resistências ou diretrizes verticais sobre seu futuro.
Como as alianças veladas funcionaram nas disputas regionais?
A flexibilidade das legendas de centro também permitiu arranjos impensáveis em nível nacional. No estado de Goiás, o ex-governador Marconi Perillo — que hoje preside o diretório nacional do PSDB —, ao lançar sua candidatura ao Palácio das Esmeraldas pela legenda tucana, adotou uma tática de aproximação estratégica. O político estabeleceu uma relação próxima, porém velada, com o Partido dos Trabalhadores (PT), tirando proveito direto da polarização existente contra outros grupos políticos locais.
Segundo a avaliação apresentada na emissora, essa dinâmica em Goiás revela o pragmatismo das estruturas regionais. O analista pontuou que, para o ex-governador tucano, tornou-se interessante manter o apoio indireto da legenda adversária no plano federal, e vice-versa. Esse tipo de acordo tático demonstra como a sobrevivência institucional e a manutenção do acesso aos recursos públicos acabaram se sobrepondo às diretrizes ideológicas rígidas, assegurando a vitalidade do centro político no país.