
Em 2025, uma extensa expedição científica à aldeia isolada de Wacará, localizada na Amazônia colombiana, resultou na descoberta oficial de uma nova espécie de palmeira para a ciência. Embora o achado tenha ocorrido no país vizinho, o registro é de grande interesse para os pesquisadores brasileiros, já que a Floresta Amazônica é um bioma transfronteiriço e muitas espécies recém-catalogadas podem compartilhar o mesmo ecossistema em ambos os territórios. A identificação detalhada da planta, batizada cientificamente de Attalea taam, ocorreu por meio de uma parceria inédita entre botânicos baseados na Europa e o povo indígena Cacua. Os cientistas chegaram ao local remoto inicialmente para estudar os usos de plantas medicinais pela população nativa, mas acabaram catalogando e mapeando o fruto consumido há séculos pela comunidade local de forma sustentável.
De acordo com informações do Mongabay Global, os pesquisadores Rodrigo Cámara-Leret e Juan Carlos Copete iniciaram a longa jornada de barco pelo rio Vaupés para documentar as ricas tradições do povo Cacua. Durante a primeira refeição na aldeia de casas com telhado de sapê, crianças ofereceram aos especialistas um fruto marrom-amarelado que eles nunca haviam visto na literatura acadêmica.
Como a nova espécie de palmeira foi identificada na Colômbia?
Guiados por um caçador experiente e três anciãos da comunidade, os especialistas caminharam alguns quilômetros pela floresta densa até encontrarem árvores imponentes de 20 metros de altura, com uma copa grande de folhas verdes eretas e longas. Em respeito rigoroso às práticas de conservação dos indígenas, que só consomem frutos totalmente maduros, a equipe técnica coletou apenas um cacho que já havia caído no chão para a avaliação laboratorial.
A análise microscópica das amostras levadas ao laboratório confirmou que a palmeira era completamente desconhecida da ciência formal. Ao contrário de outras plantas do gênero botânico Attalea, esta espécie específica possui um caule com marcas distintas na forma de anéis marrom-alaranjados, além de flores que apresentam pequenos pelos nas pétalas e apenas três estames, que são os filamentos produtores de pólen. A altura da árvore e o uso recorrente na dieta humana diária tornam o achado extremamente raro para os padrões atuais de exploração da biodiversidade amazônica.
Qual é o papel do povo Cacua na autoria da pesquisa?
Historicamente, as comunidades tradicionais auxiliam ativamente nas coletas de campo, mas raramente recebem o devido crédito acadêmico. Neste projeto, quatro membros da etnia Cacua assinaram como coautores do artigo científico publicado na revista especializada Phytotaxa. A nomenclatura Attalea taam foi escolhida pelos acadêmicos justamente para homenagear e eternizar o nome tradicional dado pelos nativos da região colombiana.
“Historicamente, os povos indígenas e locais têm sido super importantes para os estudos botânicos, ajudando os cientistas a encontrar e coletar espécimes, mas raramente recebem reconhecimento pelo seu conhecimento ou aparecem em artigos como autores”, afirmou Juan Carlos Copete, pesquisador da Universidade de Zurique. O botânico ressaltou que aquela situação configurava a oportunidade ideal para mudar definitivamente a dinâmica de exclusão nas publicações internacionais.
Quais foram os métodos usados para mapear a presença da planta?
No final do ano de 2025, os cientistas retornaram ao território demarcado com a notícia da confirmação para aprofundar a investigação sobre a distribuição e a ecologia da palmeira. O processo amplamente participativo incluiu os seguintes fatores principais:
- Expedições fotográficas lideradas de forma autônoma pelos próprios indígenas;
- Identificação de seis populações da planta anteriormente não catalogadas pela comunidade;
- Oficinas comunitárias para desenhar um mapa detalhado da aldeia e da distribuição ecológica;
- Revisão do artigo traduzido para o espanhol e para o idioma nativo da tribo.
O uso do conhecimento tradicional permitiu registrar montanhas e rios que não figuravam de nenhuma forma na cartografia oficial do país. Segundo Rodrigo Cámara-Leret, o uso exclusivo de mapas convencionais teria resultado em gráficos frios de sistemas de informação geográfica aplicados em uma paisagem vazia de nomes. O modelo inteiramente colaborativo gerou dados muito mais precisos, contextualizados e representativos.
Por que este modelo de estudo ecológico é considerado um marco?
Para a botânica Aida Shafreena Ahmad Puad, pesquisadora de plantas tropicais na i-CATS University College da Malásia, o trabalho representa uma parceria genuína, distanciando-se do modelo falido de mera consulta acadêmica. Ela declarou que o engajamento direto dos indígenas como pesquisadores e coautores fortalece a base ética e a integridade da ciência como um todo. O formato bem-sucedido deve servir como parâmetro de excelência para futuras iniciativas da área de conservação da biodiversidade.
A nova espécie botânica recém-descrita tem forte importância cultural e material na área de proteção da Amazônia. O povo Cacua utiliza rotineiramente as folhas da Attalea taam para a construção complexa de telhados rústicos e extrai do caule firme a matéria-prima essencial para erguer as estruturas suspensas onde secam a mandioca. O uso diversificado garante o aproveitamento integral do recurso natural recém-descoberto pela academia, mas cultivado por sucessivas gerações.