A ONU ampliou a proteção internacional a 40 espécies migratórias ao fim da COP15, conferência sobre espécies migratórias realizada em Campo Grande (MS) e encerrada no domingo, 29 de março de 2026. Entre os animais incluídos nas listas da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres, a CMS, estão 16 espécies que ocorrem no Brasil, como o caboclinho-do-pantanal, o surubim-pintado e a ariranha. De acordo com informações da Folha Ambiente, a decisão foi tomada após uma semana de discussões e busca fortalecer ações coordenadas de preservação para espécies que cruzam fronteiras.
Entre os animais citados estão a coruja-das-neves, conhecida nos filmes de Harry Potter, a hiena-listrada e o tubarão-martelo-panã. No caso das espécies presentes no Brasil, o destaque recaiu sobre animais do Pantanal, bioma que sediou a conferência em Mato Grosso do Sul. O caboclinho-do-pantanal e o surubim-pintado passaram a integrar o Anexo 2 da CMS, voltado a espécies que exigem cooperação internacional para conservação.
Quais espécies brasileiras tiveram destaque na decisão?
A ariranha foi incluída tanto no Anexo 2 quanto no Anexo 1 da convenção, destinado a animais ameaçados de extinção. Segundo a reportagem, a espécie se distribui do Centro-Oeste brasileiro até o Equador, mas enfrenta forte redução em parte de sua área de ocorrência.
“Apesar da ariranha já ter ocorrido na mata atlântica, hoje ela está extinta neste bioma. No cerrado, há pouquíssimas áreas com populações naturais da ariranha. Ou seja, é uma espécie muito ameaçada”, afirma o engenheiro florestal Fabiano de Melo, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza e professor da Universidade Federal de Viçosa.
— Publicidade —Google AdSense • Slot in-article
Fabiano de Melo afirmou ainda que a inclusão desses animais na CMS é relevante para orientar estratégias de preservação. Segundo ele, a decisão amplia a responsabilidade do poder público brasileiro na formulação de políticas voltadas à proteção dessas espécies.
“O governo brasileiro passa a ter responsabilidade de criar políticas públicas para aumentar o grau de proteção dessas espécies”, explica.
Que medidas e ameaças foram debatidas na COP15?
A conferência também avançou em estratégias multilaterais para preservar outras espécies migratórias, entre elas a toninha, que se desloca pelos mares do Brasil, da Argentina e do Uruguai. Durante o evento, o governo federal anunciou a ampliação de áreas protegidas no Pantanal e o endurecimento das regras para exportação de tubarão-azul.
O encontro ressaltou ainda a necessidade de enfrentar pressões já apontadas em relatório divulgado no início de março. De acordo com esse levantamento, 49% das 1.189 espécies migratórias listadas até então pela CMS estão em queda populacional. Os principais fatores de risco mencionados foram:
- superexploração, como a sobrepesca;
- perda de habitat causada pela atividade humana;
- mineração em águas profundas;
- mudanças climáticas;
- poluição por plástico;
- ruído subaquático;
- matança ilegal de animais silvestres;
- captura incidental na pesca;
- poluição marinha.
Qual será o papel do Brasil após o encerramento da conferência?
Até a próxima COP das espécies migratórias, prevista para 2029, na Alemanha, a chefia da convenção ficará com o governo brasileiro. O secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, que presidiu a COP15, disse que o país pretende atuar para fortalecer a convenção e ampliar sua articulação internacional.
“Nos próximos três anos, o Brasil trabalhará para fortalecer esta convenção, ampliando seu corpo de membros, aumentando sua visibilidade e construindo pontes mais sólidas com outros acordos ambientais multilaterais”, disse.
Segundo a reportagem, o Brasil convidou autoridades de 23 países que ainda não são signatários da convenção, entre eles México, Colômbia, Bahamas, El Salvador, China e Indonésia. Até o momento, porém, nenhuma nova adesão havia sido anunciada.
No encerramento, Capobianco também destacou a Declaração do Pantanal, voltada à conservação de áreas úmidas, e a aprovação de um plano para bagres migratórios da Amazônia, incluindo a dourada e a piramutaba. A iniciativa foi articulada com Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.
“Avançamos com uma iniciativa conjunta entre países amazônicos para alinhar políticas, fortalecer a governança e proteger a conectividade em uma das regiões mais estratégicas do planeta”, afirmou ele.
A diretora de Conservação do WWF-Brasil, Mariana Napolitano, afirmou que o país tem papel central na criação e na preservação de corredores ecológicos, áreas que favorecem a circulação da fauna entre ecossistemas.
“Esperamos que os compromissos firmados nesta COP sejam acompanhados de ações concretas que promovam a conectividade entre ecossistemas e fortaleçam a proteção das espécies migratórias em escala global”, acrescenta.
