A Nippon Steel iniciou a transição de altos-fornos a carvão para fornos elétricos a arco com a inauguração de uma unidade na área de Yawata, em sua planta de Kyushu, no Japão, em cerimônia realizada na quarta-feira. O projeto é apresentado como parte do esforço de descarbonização da siderurgia, mas ainda enfrenta dois obstáculos centrais: a grande necessidade de eletricidade para operar a nova tecnologia e o preço mais alto do chamado aço verde. De acordo com informações do Valor Empresas, a companhia planeja colocar o forno em operação no segundo semestre do ano fiscal de 2029.
A empresa informou que investirá 630,2 bilhões de ienes, com cerca de 30% do valor coberto por subsídios do governo. Além do forno elétrico a arco, com capacidade para produzir 2 milhões de toneladas métricas de aço por ano, o plano inclui uma unidade de chapas de aço e geração própria de energia no local. A iniciativa ocorre em meio à pressão por redução de emissões em um setor que responde por aproximadamente 40% das emissões totais de dióxido de carbono da indústria japonesa.
Por que a troca do carvão pelo forno elétrico é considerada estratégica?
Os fornos elétricos a arco reciclam sucata de aço e emitem cerca de um quarto do dióxido de carbono gerado pelos altos-fornos, que queimam carvão para extrair ferro do minério. Por isso, a mudança é tratada como uma etapa relevante para a descarbonização da produção siderúrgica.
Na inauguração do projeto, Masahiro Nakata, gerente-geral da unidade de Kyushu, afirmou:
“Este é o início de um grande projeto em Yawata, que tem 125 anos de história”
A aposta da Nippon Steel se insere em um contexto em que montadoras e outras indústrias passam a buscar insumos com menor pegada de carbono. Segundo a reportagem, Toyota e Nissan já começaram a comprar aço de baixa emissão, acompanhado de documentos que comprovam a redução das emissões para uso no cálculo ambiental de seus próprios produtos.
Qual é o principal desafio energético do projeto em Kyushu?
Garantir eletricidade suficiente é um dos maiores entraves para a expansão dessa tecnologia. De acordo com a reportagem, um grande forno elétrico a arco com capacidade superior a 1 milhão de toneladas pode consumir o equivalente à produção total de um reator nuclear. Esse cenário se torna mais complexo porque outras atividades intensivas em energia também avançam em Kyushu.
A região abriga instalações da Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC), cuja demanda combinada de energia entre a unidade existente e uma segunda fábrica planejada foi estimada entre 30% e 40% da produção de um reator nuclear. Além disso, os data centers ligados ao avanço da inteligência artificial também ampliam a pressão sobre a rede elétrica. A Organização para a Coordenação Inter-regional de Operadores de Transmissão do Japão projeta que o consumo de energia desses centros de dados crescerá dez vezes entre os anos fiscais de 2026 e 2035.
Para reduzir o risco de escassez futura, a Nippon Steel pretende combinar o fornecimento da Kyushu Electric Power com geração própria. O plano prevê a construção de quatro usinas de 500 megawatts movidas a gás natural liquefeito no local, com início de operação previsto para 2031 e anos seguintes.
- Forno elétrico a arco com capacidade de 2 milhões de toneladas por ano
- Entrada em operação prevista para o segundo semestre do ano fiscal de 2029
- Quatro usinas de 500 megawatts movidas a GNL
- Início da geração própria previsto para 2031 e anos subsequentes
O aço verde conseguirá ganhar mercado mesmo com preço mais alto?
Outro desafio apontado é comercial. O aço produzido em forno elétrico a arco custa cerca de 40% mais do que produtos equivalentes feitos em alto-forno. A viabilidade do investimento, portanto, depende da existência de compradores dispostos a pagar mais por material de menor emissão.
No ano fiscal de 2025, o Japão passou a oferecer subsídio de até 50 mil ienes para veículos de energia limpa fabricados com aço verde. Segundo uma fonte de uma grande siderúrgica citada pela reportagem, esse incentivo pode compensar o aumento de preço do aço verde. Se o uso se ampliar no setor automotivo, grande consumidor de aço, a expectativa é que isso ajude a abrir espaço para a adoção em outros segmentos.
A estratégia da companhia também considera a redução parcial das emissões nas futuras usinas a gás. As térmicas a GNL emitem metade do dióxido de carbono de usinas a carvão, e a empresa poderá atribuir essa redução a parte dos produtos feitos em Yawata. No futuro, essa parcela poderá crescer com combustão híbrida de GNL com hidrogênio ou amônia, segundo a reportagem.
O presidente da Nippon Steel, Tadashi Imai, resumiu a dificuldade econômica da mudança:
“A descarbonização não é algo cujo investimento possa ser recuperado no curto prazo”
“Empresas privadas não podem avançar sozinhas nesse processo.”