O aumento de navios-tanque com sinais de rastreamento adulterados no Estreito de Ormuz tem levado analistas marítimos a adotar novos métodos de monitoramento em uma das rotas mais sensíveis do comércio global de petróleo. Segundo o relato da revista, o fenômeno se intensificou durante a guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel, com embarcações desaparecendo dos sistemas de localização, transmitindo dados falsos ou sofrendo interferência de sinal, o que preocupa seguradoras, traders de petróleo e instituições financeiras expostas ao tráfego na região.
De acordo com informações da Wired, a analista sênior de inteligência marítima Michelle Wiese Bockmann, da Windward AI, afirma que a prática não é nova, mas ganhou escala recente. Em determinado momento do mês passado, mais da metade das embarcações no estreito teve sinais bloqueados, segundo ela. Dados da empresa indicavam ainda mais de 800 navios no Golfo Pérsico no momento citado pela reportagem.
O Estreito de Ormuz é tratado como ponto crítico porque concentra uma parcela relevante do fluxo internacional de petróleo. Nesse contexto, a perda de visibilidade sobre a localização real dos navios amplia riscos comerciais e operacionais. Além dos impactos sobre seguros e negociações de carga, a ausência de dados confiáveis pode elevar a possibilidade de colisões, encalhes e vazamentos de óleo.
Como os navios deixam de ser rastreados no Estreito de Ormuz?
Segundo a reportagem, parte das embarcações desliga transponders, equipamentos que normalmente transmitem nome do navio, localização, rota e número IMO, identificador único de sete dígitos da Organização Marítima Internacional. Esses códigos permitem que analistas acompanhem a trajetória de um navio ao longo de sua operação.
Outra prática citada é o jamming, quando há interferência no sinal, e o spoofing, em que sinais falsos fazem a embarcação parecer estar em outro lugar ou até se apresentar como outra. O texto afirma que essas táticas vêm sendo associadas há anos a frotas envolvidas em práticas enganosas, inclusive no transporte de petróleo iraniano em violação a sanções internacionais.
Michelle Wiese Bockmann disse à Wired que acompanha de perto entre 500 e 600 petroleiros e que alguns deles estão sob observação há anos. A executiva descreveu o trabalho como um jogo constante de identificação de navios que tentam ocultar sua localização real.
Quais tecnologias os analistas usam para localizar embarcações?
A reportagem informa que empresas do setor combinam diferentes bases de dados e tecnologias para reconstruir rotas e identificar navios “escuros”, como são chamados os períodos em que embarcações deixam de transmitir sinais. Entre os recursos citados estão:
- imagens de satélite comerciais e públicas;
- sensoriamento eletro-óptico;
- radar de abertura sintética, capaz de gerar imagens mesmo com nuvens, chuva ou escuridão;
- sinais de radiofrequência;
- dados de registro naval;
- sinais de presença humana oriundos de dispositivos móveis a bordo.
Samir Madani, cofundador do TankerTrackers.com, disse à Wired que sua empresa há anos usa imagens de satélite para informar clientes pagantes sobre o deslocamento de petróleo e outras mercadorias na região. Em abril, porém, empresas de satélite dos Estados Unidos anunciaram restrições a imagens de alta resolução da área, o que exigiu adaptação.
“We are dusting off all the old sources and tweaking them to perfection,” Madani told WIRED in a message. “We are buying [information] from other Western sources as well.”
De acordo com Madani, o valor comercial desses dados cresce porque dois terços do tráfego de petroleiros que cruza o Estreito de Ormuz envolveriam embarcações com histórico de violação de sanções, segundo a reportagem.
Por que o monitoramento desses navios se tornou mais urgente?
O texto relata que o trabalho de rastreamento se intensificou após os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã no fim de fevereiro. Bockmann afirmou que precisou interromper uma visita à família na Austrália e retornar a Londres, onde passou a trabalhar longas jornadas para acompanhar a situação.
Mesmo com o uso combinado de imagens, sinais e bancos de dados, a própria analista reconhece limitações. A reportagem destaca que nem sempre é possível obter visibilidade completa sobre a movimentação marítima ligada ao Irã, já que as embarcações empregariam diversas práticas enganosas. Em uma quarta-feira mencionada no texto, a Windward AI rastreou 148 eventos de “atividade escura”, períodos em que navios desligaram seus transponders.
“When it comes to Iran, having 100 percent visibility is not possible,” she says. “Those vessels use every single deceptive shipping practice in the book.”
O quadro descrito pela reportagem mostra um ambiente de vigilância cada vez mais complexo no Estreito de Ormuz, onde analistas tentam compensar a perda de transparência com cruzamento de dados, imagens orbitais e investigação manual. Para seguradoras marítimas, comerciantes de petróleo e demais agentes do setor, entender o que ocorre na hidrovia é decisivo para medir riscos em uma região estratégica do transporte global de energia.