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Modelo estatístico identifica risco de violência doméstica em postos do SUS

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Pesquisadoras brasileiras desenvolveram e validaram um modelo estatístico pioneiro para auxiliar profissionais da Atenção Primária à Saúde na identificação e classificação de riscos de violência contra a mulher. O estudo, que teve base na cidade de João Pessoa, na Paraíba, utilizou evidências empíricas coletadas no Sistema Único de Saúde (SUS) para criar uma ferramenta de decisão que visa proteger e direcionar as vítimas de forma adequada.

De acordo com informações da Agência Bori, a pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Os dados que embasaram o artigo científico foram levantados entre janeiro e março de 2023.

Como foi feito o mapeamento da violência contra a mulher?

A coleta de dados ocorreu em 52 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da capital paraibana. Para garantir a precisão do levantamento, enfermeiras e odontólogas receberam treinamento específico para aplicar questionários nas pacientes durante os atendimentos de rotina. O objetivo da abordagem era recolher não apenas informações sobre o histórico de violência doméstica, mas também dados socioeconômicos e demográficos das participantes.

Durante as entrevistas, que englobaram uma amostra de 563 usuárias do sistema público de saúde, os pesquisadores utilizaram uma escala comportamental e visual conhecida como Violentômetro. Esta métrica tem a finalidade de facilitar o reconhecimento precoce de variadas formas de abuso que frequentemente passam despercebidas no cotidiano das relações afetivas e familiares.

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Quais foram os principais fatores de risco identificados pelo modelo?

Os resultados da pesquisa revelaram um cenário preocupante para a saúde pública: 42,6% das mulheres entrevistadas relataram já ter sofrido algum tipo de violência doméstica. O modelo estatístico cruzou esses relatos de agressão com o perfil socioeconômico das vítimas, apontando os grupos que apresentam maior vulnerabilidade aos maus-tratos.

A partir das análises estatísticas rigorosas, as cientistas identificaram disparidades significativas de acordo com o estado civil e a maternidade das pacientes avaliadas:

  • Mulheres separadas ou divorciadas possuem três vezes mais chances de enfrentar situações de violência familiar quando comparadas àquelas casadas ou em união estável.
  • Pacientes que têm filhos estão quase quatro vezes mais suscetíveis aos abusos do que as mulheres que não são mães.
  • Mulheres solteiras correm um risco quase duas vezes maior de sofrer agressões em comparação com as que mantêm um casamento formal.

Quais atitudes indicam perigo eminente segundo a ferramenta?

Além dos perfis demográficos, o estudo isolou as atitudes abusivas que possuem maior influência e correlação direta com a confirmação da violência doméstica. O reconhecimento técnico desses sinais é considerado pelas pesquisadoras como o primeiro passo para o acolhimento seguro nas unidades de saúde primária.

Os pesquisadores constataram que as seguintes ações indicam forte associação com os maus-tratos e exigem atenção dos profissionais da saúde:

  • Ridicularizar, ofender ou desqualificar a vítima verbalmente;
  • Intimidar, chantagear ou fazer ameaças de forma direta;
  • Humilhar em público ou contar piadas de cunho ofensivo;
  • Demonstrar ciúmes excessivos e sentimento de posse;
  • Destruir bens materiais ou pessoais da mulher;
  • Atos de contato físico hostil, como dar tapinhas, empurrar, machucar ou dar tapas agressivos;
  • Ameaçar o bem-estar físico utilizando objetos ou armas.

Como a ferramenta pode mudar o atendimento nos postos de saúde?

A criação deste modelo estatístico, que é originado de uma tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Modelos de Decisão e Saúde da UFPB, busca suprir a dificuldade prática dos profissionais de saúde em notar os abusos velados. Muitas vezes, os casos mais graves são subnotificados ou sequer reconhecidos durante as consultas, prejudicando o encaminhamento para redes de apoio.

A coautora do estudo, Kerle Dayana, destaca a relevância dos números encontrados nas entrevistas e a importância de instrumentalizar imediatamente as equipes médicas e de enfermagem que atuam na ponta do sistema:

Para nossa equipe de pesquisa, esses resultados reforçam duas questões fundamentais. Primeiro, a magnitude do problema, que é muito maior do que geralmente aparece nas estatísticas oficiais. Segundo, a necessidade urgente de qualificar os serviços de saúde para reconhecer e enfrentar a violência contra a mulher de forma mais efetiva.

Quais são os próximos passos da pesquisa sobre violência doméstica?

Embora os dados disponíveis no artigo reflitam atualmente a realidade local de João Pessoa, a validação da ferramenta metodológica abre caminho para sua expansão nacional. O grupo acadêmico planeja realizar novos estudos em diferentes regiões do país e com outras populações, testando a capacidade de generalização do modelo de decisão em múltiplos contextos sociais e econômicos.

Como um dos desdobramentos diretos deste trabalho científico, há a proposta de estruturação de um Observatório de Violência contra a mulher. O projeto será conduzido de forma conjunta pela UFPB e pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). O espaço permanente servirá para a produção, organização e análise contínua de dados, oferecendo embasamento técnico para a elaboração de políticas públicas e fomentando o suporte imediato às vítimas no âmbito primário.

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