O massacre de Eldorado dos Carajás, que completa 30 anos neste 17 de abril de 2026, volta ao centro do debate sobre violência no campo a partir do relato do fotógrafo João Roberto Ripper, que registrou as consequências da ação policial ocorrida em 18 de abril de 1996, no sudeste do Pará. Na ocasião, 21 agricultores morreram após uma operação da Polícia Militar do Pará contra trabalhadores rurais ligados ao MST, que marchavam para pressionar pela desapropriação da Fazenda Macaxeira. De acordo com informações da Agência Pública, as fotografias feitas por Ripper ajudaram a comprovar a gravidade do massacre e serviram como prova na apuração do caso.
O episódio ocorreu na região conhecida como “S”, uma curva da estrada entre Curionópolis e Eldorado dos Carajás, onde cerca de 1.500 famílias acampavam. Segundo o texto original, a resposta do Estado, sob o governo de Almir Gabriel, foi o envio de 155 policiais militares. A operação, ainda de acordo com a reportagem, foi marcada por irregularidades, com agentes sem identificação nas fardas e armados com fuzis e submetralhadoras diante de trabalhadores que portavam, no máximo, ferramentas de trabalho.
O que aconteceu em Eldorado dos Carajás em 1996?
A ação resultou na morte de 19 pessoas no local e de outras duas nos dias seguintes, em decorrência dos ferimentos. A perícia apontou que muitos trabalhadores foram mortos à queima-roupa ou por instrumentos cortantes. As imagens produzidas por Ripper se tornaram parte importante desse processo de reconstituição da violência, em um caso que passou a ser visto como um dos principais marcos da luta pela reforma agrária no Brasil.
Apesar da repercussão internacional, apenas os comandantes da operação, o coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Pereira Oliveira, foram condenados. As penas começaram a ser cumpridas em 2012, 16 anos após o massacre. A data de 17 de abril foi transformada no Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, e a área do crime hoje abriga o Assentamento 17 de Abril, onde vivem sobreviventes e descendentes das vítimas.
Qual foi o papel das fotografias de João Roberto Ripper?
Ripper contou que chegou ao Pará no dia seguinte ao massacre, após conseguir viajar com ajuda da sogra e levando R$ 100. Segundo seu relato, já havia sido feita uma autópsia inicial, mas uma nova perícia foi solicitada por integrantes da área de direitos humanos do governo. Nesse contexto, ele foi chamado para produzir as imagens que serviriam como prova.
“Já tinha sido feita uma autópsia, mas foi uma autópsia totalmente fajuta, de quem não queria descobrir nada. Então, o pessoal do governo, da parte dos direitos humanos, pediu (…) uma nova autópsia. Estávamos lá alguns fotógrafos e ele perguntou (…) faria as fotos que serviriam como prova. E aí eu fiz”, conta Ripper.
O fotógrafo afirmou que concentrou seu trabalho em documentar os corpos e os detalhes dos assassinatos. Na entrevista, ele relata que muitas vítimas apresentavam ferimentos nas mãos, o que, segundo sua descrição, indicava tentativas de defesa. As fotos, de acordo com a reportagem, não foram destinadas ao uso jornalístico imediato, mas encaminhadas para a apuração do processo contra o governo do Pará e contra a Polícia Militar.
Por que o caso continua relevante 30 anos depois?
A reportagem destaca que o massacre permanece como símbolo da violência no campo e da dificuldade de responsabilização ampla dos envolvidos. Também relaciona o episódio a um histórico maior de conflitos agrários no país. Segundo dados citados da Comissão Pastoral da Terra, o Brasil registrou 59 massacres no campo desde 1985, com 302 mortes. O texto também informa que, de acordo com o MST, o Pará seguia em 2026 como líder em conflitos no campo.
- 21 agricultores morreram no massacre
- 155 policiais militares participaram da operação, segundo a reportagem
- apenas dois comandantes foram condenados
- as penas começaram a ser cumpridas em 2012
- o local hoje abriga o Assentamento 17 de Abril
Ao revisitar a memória de Eldorado dos Carajás, Ripper também reflete sobre o impacto humano de fotografar a tragédia. A entrevista publicada pela Agência Pública apresenta o massacre não apenas como um episódio histórico, mas como um marco ainda presente na disputa por terra, memória e justiça. Três décadas depois, as imagens seguem associadas à denúncia da violência e à preservação da história das vítimas.