O Japão avalia reforçar a defesa de rotas marítimas no Pacífico para reduzir o risco de interrupções no abastecimento de combustível, alimentos e outros insumos essenciais importados de países como Austrália, Estados Unidos e Canadá. A discussão ganhou força em meio à turbulência econômica provocada pela guerra no Oriente Médio e ao impacto do fechamento do Estreito de Ormuz, que expôs a vulnerabilidade de cadeias de suprimento de um país que realiza 99,5% de seu comércio por via marítima. De acordo com informações do Valor Econômico, o governo japonês deve iniciar ainda neste mês um painel de especialistas para discutir mudanças em sua Estratégia de Segurança Nacional.
A revisão deve ser feita em conjunto com outros dois documentos centrais da política de segurança do país até o fim do ano. A expectativa é que a proteção das rotas marítimas do Pacífico passe a integrar a estratégia como um eixo de defesa econômica. Até aqui, os esforços japoneses estavam concentrados sobretudo na ligação com o Oriente Médio, origem de mais de 90% do petróleo bruto consumido pelo país.
Por que o Japão passou a olhar com mais atenção para o Pacífico?
O fechamento do Estreito de Ormuz reforçou, segundo o texto original, o risco de que conflitos externos ao Japão atinjam diretamente a vida cotidiana da população e o funcionamento da economia. A avaliação é que uma crise prolongada no transporte marítimo poderia comprometer não apenas o suprimento de energia, mas também a chegada de alimentos e matérias-primas.
Além disso, o governo japonês considera que uma contingência envolvendo Taiwan poderia elevar os riscos à navegação a oeste da chamada segunda cadeia de ilhas, faixa que se estende das ilhas japonesas de Izu e Ogasawara até Guam. O movimento ocorre também em um contexto de ampliação da atividade marítima da China desde a última revisão dos documentos de segurança japoneses, em 2022.
Que medidas estão em estudo pelo governo japonês?
Inicialmente, o governo deverá considerar o uso de aeronaves de vigilância e sistemas de radar baseados em ilhas. Segundo a reportagem, o Japão ainda não possui radares capazes de monitorar de forma constante o espaço aéreo do Pacífico. Paralelamente, Tóquio busca ampliar a cooperação com aliados e parceiros com interesses semelhantes na proteção da rota do Pacífico Sul que conecta o país à Austrália.
O texto também informa que o Japão vem fornecendo navios de patrulha e resgate a países do Sudeste Asiático e de outras regiões por meio de seu programa de Assistência Oficial de Segurança, além de instrumentos de ajuda ao desenvolvimento. A ideia é compartilhar responsabilidades de vigilância e escolta com países cujas capacidades foram fortalecidas com apoio japonês.
- Criação de um painel de especialistas ainda neste mês
- Revisão da Estratégia de Segurança Nacional até o fim do ano
- Estudo sobre uso de aeronaves de vigilância
- Avaliação de radares baseados em ilhas
- Ampliação da cooperação com aliados e parceiros
Qual é a dependência do Japão de importações estratégicas?
O país mantém reservas nacionais de petróleo para cenários de crise, mas o texto ressalta que esses estoques podem se esgotar caso a interrupção marítima se prolongue. Para outros bens essenciais, a vulnerabilidade é maior. O Japão importa quase todo o seu gás natural liquefeito e carvão, com forte peso da Austrália no fornecimento. Em 2025, cerca de 40% do GNL veio da Austrália e 15% da Malásia, enquanto mais de 70% do carvão no ano fiscal de 2024 teve origem australiana.
Na área de alimentos, a dependência também é elevada. O Japão importa 62% de seu suprimento de produtos agrícolas e pesqueiros em termos calóricos, com grande parte vindo de países da Bacia do Pacífico. Há reservas para alguns itens, como arroz, mas o abastecimento de milho, soja e trigo depende fortemente do comércio exterior.
“Como o Japão depende de importações para cerca de 90% de seus grãos para ração animal, se houver uma interrupção significativa no fornecimento, a produção de carne diminuiria drasticamente”, afirmou Akira Igata, professor do projeto na Universidade de Tóquio.
Como especialistas avaliam essa mudança de foco?
A reportagem afirma que crises ligadas às rotas marítimas ficaram à margem das discussões de segurança no Japão por serem tratadas como riscos extremos, de baixa probabilidade, mas de alto impacto. O novo debate busca reposicionar esse tema no centro do planejamento estratégico.
“As rotas marítimas são realmente como artérias”, disse Nobukatsu Kanehara, que atuou como secretário-chefe adjunto do gabinete durante o governo do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe.
“O governo deveria ter investido recursos nos pontos de estrangulamento do Japão, mas, durante anos, esteve demasiado focado na sua política exclusivamente defensiva para lidar com eles estrategicamente.”
“é essencial priorizar a construção de relações com países que estão profundamente envolvidos com rotas marítimas, por exemplo”, disse Kanehara.
Segundo o Ministério da Defesa do Japão, citado no texto, as decolagens e aterrissagens de aeronaves chinesas baseadas em porta-aviões no Pacífico aumentaram de 320 em 2022 para cerca de 1.460 em 2025. Esse avanço, somado às incertezas no Oriente Médio, ajuda a explicar por que Tóquio passou a tratar a segurança das rotas do Pacífico como tema mais urgente.