O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) está prestes a desencadear um efeito imensamente desinflacionário na economia global nos próximos anos, segundo a análise de uma das maiores gestoras de ativos do mundo. De acordo com informações do Valor Empresas, o executivo Mike Hunstad, que lidera a unidade de gestão de ativos da Northern Trust — instituição que administra cerca de US$ 1,4 trilhão —, defende que a tecnologia transformará a estrutura de custos de diversos setores produtivos. Diante deste cenário, Hunstad fez um apelo direto para que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, se abstenha de tomar decisões precipitadas de política monetária até que os impactos reais dessa inovação sejam devidamente compreendidos.
A tese central apresentada pela Northern Trust sugere que a capacidade da IA de automatizar processos complexos e aumentar a produtividade em escala global funcionará como uma força poderosa contra a alta de preços. Para Mike Hunstad, o mercado e as autoridades monetárias podem estar subestimando a velocidade com que os ganhos de eficiência serão repassados aos consumidores finais na forma de preços menores. Este movimento, classificado como um choque positivo de oferta, tende a reduzir as pressões inflacionárias estruturais, o que exigiria uma recalibragem completa das ferramentas tradicionais de controle econômico utilizadas pelas grandes potências.
Como a inteligência artificial pode influenciar a inflação global?
A influência da tecnologia sobre os índices de preços ocorre, primordialmente, através da otimização de recursos. Quando empresas adotam ferramentas de IA, elas conseguem reduzir o desperdício, acelerar o desenvolvimento de produtos e diminuir a dependência de processos manuais onerosos. No setor de serviços, que historicamente apresenta maior resistência à queda de preços, a automação inteligente promete romper essa barreira, permitindo uma entrega de valor muito mais barata. Mike Hunstad enfatiza que estamos diante de um fenômeno que não é apenas cíclico, mas uma mudança de paradigma que pode manter a inflação em patamares baixos por um longo período.
Historicamente, grandes saltos tecnológicos, como a internet e a mecanização industrial, trouxeram efeitos semelhantes, mas a escala e a velocidade da inteligência artificial são sem precedentes. A Northern Trust observa que o capital investido em infraestrutura de dados e chips de processamento começará a retornar para a economia real na forma de deflação competitiva. Nesse contexto, as empresas que dominarem a tecnologia conseguirão operar com margens mais saudáveis mesmo vendendo seus produtos por valores inferiores, forçando a concorrência a seguir o mesmo caminho para manter a relevância no mercado.
Qual é a recomendação da Northern Trust para o Federal Reserve?
A recomendação de Mike Hunstad para que o Federal Reserve aguarde antes de novos movimentos nas taxas de juros baseia-se no risco de um erro de diagnóstico. Se o Fed continuar elevando ou mantendo os juros altos para combater uma inflação que já está sendo naturalmente reduzida pela produtividade da IA, ele corre o risco de sufocar a economia desnecessariamente. A autoridade monetária norte-americana tem enfrentado o desafio de equilibrar o mercado de trabalho aquecido com a meta de inflação, e a introdução desta variável tecnológica torna o cálculo ainda mais sensível.
O executivo sugere que as métricas tradicionais, como a curva de Phillips — que relaciona desemprego e inflação —, podem estar se tornando obsoletas frente ao impacto da inteligência artificial. Por isso, a Northern Trust argumenta que uma pausa estratégica nas decisões de política monetária permitiria observar se a queda dos preços é fruto de uma desaceleração econômica ou, de fato, o resultado do ganho de eficiência gerado pela tecnologia. O ponto central destacado pelo gestor em sua análise aponta os seguintes fatores cruciais:
- Aceleração drástica da produtividade em setores intensivos em dados;
- Redução estrutural nos custos operacionais das grandes corporações;
- Pressão competitiva que força o repasse de economias para o consumidor;
- Necessidade de revisão dos modelos macroeconômicos por parte dos bancos centrais.
A relevância da análise ganha peso devido ao tamanho da Northern Trust no cenário financeiro global. Com US$ 1,4 trilhão sob gestão, a visão de Mike Hunstad reflete a preocupação de grandes investidores institucionais que buscam estabilidade e previsibilidade. A mensagem final é clara: antes de tentar controlar a inflação com as ferramentas do século passado, é preciso entender como a tecnologia do século XXI já está fazendo esse trabalho de forma silenciosa e eficiente.