A confirmação do projeto para a construção do primeiro hospital inteligente do SUS no complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), localizado na zona oeste da cidade de São Paulo, gerou um grave impasse com pesquisadores científicos no início de abril de 2026. A obra, que promete ser um marco de inovação na saúde pública, prevê a demolição de quatro prédios que atualmente abrigam as estruturas de pesquisa do Instituto Adolfo Lutz (IAL), laboratório central de saúde pública do estado. De acordo com informações da coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, publicadas no UOL Notícias, a associação que representa a categoria cobra um investimento adicional de R$ 170 milhões para garantir a transferência segura e eficiente dos laboratórios para um novo endereço, evitando a paralisação de estudos essenciais.
O projeto tem sido amplamente celebrado pelos governos estadual e federal como um avanço significativo para a área da saúde e do atendimento especializado. Contudo, a falta de um plano detalhado de realocação e a incerteza sobre a origem dos recursos extras geram apreensão entre os profissionais. O IAL é uma instituição de referência nacional, destacando-se em setores vitais como virologia, imunologia e controle de doenças infecciosas, incluindo trabalhos fundamentais no mapeamento de variantes durante a pandemia de Covid-19.
Quais são os principais receios da comunidade científica?
A principal preocupação gira em torno da continuidade das pesquisas em andamento e da capacidade operacional de uma das mais importantes instituições de saúde pública do país. Parte das instalações que estão na rota de demolição abrigam laboratórios de alta complexidade, que exigem elevados níveis de biossegurança. A adaptação técnica desses espaços rigorosos para um novo local é um processo delicado, demorado e altamente custoso.
Segundo a presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), Helena Dutra Lutgens, a ausência de planejamento transparente por parte do governo estadual pode comprometer seriamente o funcionamento do instituto e jogar fora anos de trabalho técnico.
“A criação do hospital inteligente é um salto de qualidade para a saúde pública, mas isso não pode ser feito sem um planejamento por parte do governo de São Paulo sobre como ficarão as pesquisas realizadas no Instituto Adolfo Lutz, sob o risco de comprometermos o funcionamento de uma das mais importantes instituições de pesquisa em saúde do país”
Como as autoridades respondem aos questionamentos estruturais?
Procurada para esclarecer a situação, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informou que mantém reuniões periódicas com a administração do Hospital das Clínicas, que será a autarquia responsável por gerir a nova unidade. O objetivo desses encontros, segundo a pasta, seria detalhar tecnicamente o projeto executivo em conjunto com todos os órgãos envolvidos, incluindo a participação da diretoria do próprio instituto afetado pelas obras.
A secretaria estadual garantiu que o processo de reestruturação é conduzido de forma a não impactar a assistência médica da população e a pesquisa científica de ponta, assegurando que nenhuma decisão ocorre de maneira unilateral. Por outro lado, o Ministério da Saúde e a administração do Hospital das Clínicas optaram por não se manifestar formalmente sobre o caso específico, limitando-se a justificar que a responsabilidade contratual sobre o terreno e as intervenções pertence exclusivamente ao Estado de São Paulo.
O que o projeto do novo hospital tecnológico prevê e quais as alternativas?
Batizado oficialmente como Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI), o novo empreendimento receberá um aporte financeiro estimado em R$ 1,9 bilhão. Esse montante foi viabilizado por meio de um financiamento aprovado pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), popularmente conhecido como o banco dos Brics. A previsão de entrega e operação integral da unidade está fixada para o ano de 2029. Entre as inovações prometidas para o novo complexo médico, destacam-se os seguintes pontos estratégicos:
- Criação de 800 novos leitos de internação e terapia intensiva;
- Forte integração digital em todos os processos de saúde;
- Uso intensivo de inteligência artificial aplicada ao diagnóstico de câncer e acidentes vasculares;
- Processamento de informações de pacientes através de sistemas de big data;
- Expansão maciça dos serviços de telemedicina no sistema público.
Em contrapartida ao local escolhido pelo governo, a comunidade científica e os pesquisadores apontam que existem outras alternativas de espaço dentro do próprio perímetro do complexo. Eles sugerem áreas capazes de abrigar a construção sem desmobilizar laboratórios, como o terreno que atualmente abriga o campo de futebol e a piscina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Os pesquisadores também alegam que investimentos massivos, que superam a marca de R$ 100 milhões nas últimas décadas, já foram aplicados nos edifícios que agora enfrentam o risco iminente de demolição ou forte adaptação, tornando o desperdício de recursos públicos um ponto central e sensível da crítica. A advogada da APqC, Helena Goldman, ressalta a proteção legal do espaço de estudo.
“O patrimônio científico de São Paulo é protegido pelo artigo 272 da Constituição Estadual. Nenhuma intervenção em áreas ou prédios de pesquisa pode ser feita sem consulta prévia à comunidade científica e aprovação da Assembleia Legislativa”
A categoria reforça a falta de lógica administrativa e orçamentária em descartar melhorias estruturais recentes e caras na área da pesquisa quando há terrenos alternativos.
