
O estado do Novo México, nos Estados Unidos, avança na construção de uma matriz solar de 50 megawatts destinada à produção de hidrogênio verde, focada no armazenamento de energia limpa para geração noturna. De acordo com informações da CleanTechnica, a iniciativa ganha força no antigo local de mineração da Chevron e área de recuperação ambiental na vila de Questa. A tecnologia, que também tem recebido forte investimento no Brasil — com polos bilionários projetados em estados como Ceará e Piauí para exportação —, mantém-se ativa nos EUA mesmo após reestruturações recentes nos programas federais de fomento ao setor energético.
O projeto, conhecido como Questa Hydrogen Project, surge em um cenário global complexo, no qual os mercados de combustíveis enfrentam instabilidades devido aos conflitos internacionais envolvendo os Estados Unidos e o Irã. O objetivo principal do uso da água para eletrólise é garantir uma cadeia de abastecimento mais resiliente para as indústrias locais que dependem desta fonte de energia sustentável.
Como as mudanças políticas afetam o setor de hidrogênio verde?
O planejamento inicial do Departamento de Energia dos Estados Unidos previa um programa de US$ 7 bilhões focado em polos regionais de hidrogênio limpo, financiado pela Lei Bipartidária de Infraestrutura de 2021. No entanto, o atual presidente norte-americano, Donald Trump, descontinuou o plano ao assumir o cargo no ano passado. Com o corte de fundos para projetos de eletrólise a partir de recursos renováveis, empresas precisaram buscar alternativas de mercado.
Um exemplo notório é a fabricante de eletrolisadores e células de combustível Plug Power. A empresa teve uma garantia de empréstimo de US$ 1,66 bilhão revogada pelo governo, valor que apoiaria até seis projetos domésticos de hidrogênio. Apesar do revés nacional, a companhia celebrou recentemente um novo contrato internacional para fornecer um eletrolisador de 275 megawatts para um empreendimento em Québec, no Canadá, focado na produção de amônia verde para a indústria de mineração.
Quais são os detalhes do financiamento e estrutura em Questa?
O projeto em território norte-americano conseguiu sobreviver aos cortes federais graças a um financiamento de US$ 231 milhões obtido por meio do programa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O repasse foi anunciado em 13 de janeiro de 2025, durante os últimos dias do mandato do ex-presidente Joe Biden. A administração da iniciativa está a cargo da Kit Carson Electric Cooperative (KCEC), uma cooperativa elétrica que tem se destacado na transição para fontes renováveis.
Para entender o escopo da instalação de energia solar e hidrogênio, o projeto estabelece os seguintes pontos estruturais principais:
- Construção de uma matriz solar de 50 megawatts na vila de Questa.
- Instalação de complexos de hidrogênio que atenderão a Cidade de Taos e as tribos indígenas de Picuris Pueblo e Taos Pueblo.
- Fornecimento de até 16 horas de armazenamento de energia em células de combustível estacionárias, capacidade de quatro a seis vezes maior que o atual sistema de baterias operado pela cooperativa local.
De que forma o projeto lidará com a gestão de recursos hídricos?
A obtenção de água para os sistemas de eletrólise gerou debates na comunidade. Inicialmente, o recurso viria das estações de tratamento de águas residuais da Chevron, instaladas para a recuperação ambiental do terreno. Contudo, a corporação alterou a estratégia e designou um poço de águas subterrâneas no local. Esta alteração causou preocupação entre os moradores, uma vez que a região enfrenta uma seca severa que já dura mais de duas décadas.
A cooperativa defende que a utilização da água está respaldada por análises técnicas do Escritório do Engenheiro do Estado do Novo México. Segundo a instituição, desviar até 250 acres-pés (aproximadamente 308 mil metros cúbicos) por ano não afetará negativamente o aquífero local. A KCEC emitiu um posicionamento formal sobre a manutenção destes direitos hídricos para o benefício da população:
À medida que a recuperação da mina é concluída, esses direitos podem se tornar inativos; usá-los para este projeto ajudará a garantir que eles permaneçam em uso benéfico, evitará o potencial confisco pelo Engenheiro do Estado e manterá esses recursos hídricos ligados à comunidade de Questa.
Existem outras iniciativas de energia limpa em andamento nos Estados Unidos?
Apesar do cenário político restritivo de financiamento público, o mercado de descarbonização continua em movimento. Para se qualificar para incentivos fiscais federais, o projeto de Questa precisa ter dez por cento de sua infraestrutura concluída até o dia 4 de julho. A direção afirma estar no caminho certo para entregar a fase solar no prazo exigido.
Paralelamente, a empresa de tecnologia agrícola TalusAg está implementando um sistema modular de produção de fertilizante de amônia verde no estado de Minnesota. A amônia verde, derivada do hidrogênio, é considerada um insumo crucial para o agronegócio — setor de forte interesse da economia brasileira — por substituir fertilizantes de origem fóssil. A tecnologia pode operar com o excesso de energia eólica, otimizando as receitas de proprietários de turbinas. Já no estado do Texas, a empresa First Ammonia confirmou que planeja iniciar a construção de uma fábrica de amônia verde de 200 megawatts no final do ano, mesmo após enfrentar atrasos na cadeia de suprimentos.