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Furacão Helene destruiu camada fértil de fazendas e agricultores ainda tentam recuperar o solo

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O furacão Helene devastou áreas agrícolas no sul dos Apalaches em 27 de setembro de 2024, atingindo produtores rurais como Will Runion, dono de uma fazenda de gado e feno no nordeste do Tennessee, onde a cheia do rio Nolichucky arrancou solo fértil, abriu crateras e cobriu partes da propriedade com areia e silte. Mais de um ano depois, agricultores da região ainda enfrentam a recuperação de um recurso essencial e difícil de repor: a camada superficial do solo, base da produção agrícola. De acordo com informações da Grist, os danos afetaram plantações, máquinas, cercas, animais e, sobretudo, a estrutura do solo em áreas rurais de estados como Carolina do Norte, Tennessee, Geórgia, Kentucky, Virgínia e Carolina do Sul.

Na manhã da passagem do Helene, Runion trabalhava em dois projetos na propriedade de 736 acres: o corte do último feno da temporada e a construção de um camping à beira do rio para diversificar a renda. Com a elevação das águas, ele decidiu mover parte do gado e equipamentos para áreas mais altas. Ainda assim, a inundação avançou rapidamente. Por volta das 11h, a água ultrapassou as margens, e ele, a noiva, parentes e vizinhos tentaram salvar equipamentos antes de quase ficarem ilhados.

Como a enchente afetou a fazenda de Will Runion?

Ao longo da tarde, o rio Nolichucky chegou a cerca de 1.200 pés de largura, quase dez vezes seu tamanho habitual, segundo o relato publicado pela Grist. A correnteza derrubou árvores e arrastou celeiros, telhados, fardos de feno e destroços domésticos de propriedades vizinhas. A água também levou equipamentos usados na produção de feno e deslocou uma pequena casa branca que seria transformada em escritório do novo camping.

Quando o nível do rio começou a baixar, por volta das 20h, Runion encontrou um terço dos campos coberto por destroços, peixes mortos e tomates carregados de lavouras a montante. A enchente abriu dois buracos do tamanho de campos de futebol em pastagens destinadas ao feno, com profundidade de 12 pés. Em outros trechos, o terreno ficou soterrado sob até oito pés de areia ou silte.

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Segundo a reportagem, a destruição não se limitou à superfície visível. O impacto mais duradouro foi a perda da camada fértil do solo, componente decisivo para a produção agrícola. Runion resumiu o desafio ao perceber a dimensão do estrago:

“When you see 4 feet of sandy soils on top of your topsoil, you know that’s going to be a challenge,” he said. “That was overwhelming.”

Por que a perda do solo preocupa tanto os agricultores?

O solo fértil leva milhares de anos para se formar. Ele resulta do desgaste gradual das rochas, do acúmulo de matéria orgânica e da ação de microrganismos, insetos e outros organismos que ajudam na ciclagem de nutrientes e na estruturação da terra. Para a agricultura, a camada superficial, ou topsoil, concentra nutrientes e características físicas essenciais para o crescimento das lavouras, embora costume representar menos de um pé de profundidade em todo o perfil do solo.

Quando uma enchente remove essa camada, os nutrientes também são levados. Quando ela é encoberta por areia, o agricultor perde acesso ao solo produtivo. Segundo a cientista de nutrientes e solos Stephanie Kulesza, da North Carolina State University, o material deixado pela enchente ainda não pode ser considerado solo agrícola plenamente funcional. Na avaliação reproduzida pela reportagem, o processo praticamente recomeça do zero.

“They are in their infancy now. The clock has been reset.”

O especialista em solos ambientais Forbes Walker, da University of Tennessee Extension, recebeu imagens de drone enviadas por Runion logo após o desastre. A pergunta feita pelo produtor, segundo o texto, sintetizava a incerteza técnica diante da situação:

“How do you fix this?” he asked.

Walker relatou que sua reação inicial foi de dúvida sobre como responder a uma emergência daquela escala. Kulesza também afirmou que pesquisadores e extensionistas não estavam preparados para orientar produtores diante de perdas tão severas de solo.

Qual foi a dimensão regional dos danos provocados pelo Helene?

O furacão despejou até 30 polegadas de chuva sobre o sul dos Apalaches, provocando enchentes históricas e deslizamentos. Em uma região majoritariamente rural, onde a agricultura tem peso econômico e cultural, a ocupação de áreas baixas e férteis próximas a rios ampliou a exposição ao risco. Segundo a Grist, muitos agricultores usam essas terras porque elas são planas e produtivas, embora sujeitas a inundações.

Na Carolina do Norte, os prejuízos ao setor agrícola foram estimados em US$ 4,9 bilhões. No Tennessee, as perdas chegaram a US$ 1,3 bilhão. Milhares de agricultores perderam colheitas, ferramentas, máquinas, celeiros, construções, animais e cercas.

  • enchentes históricas em vários estados do sul dos Apalaches
  • perda de lavouras, máquinas, animais e estruturas rurais
  • erosão da camada fértil ou soterramento do solo por areia e sedimentos
  • dificuldade técnica para restaurar a produtividade das áreas afetadas

A reportagem também cita um estudo segundo o qual as chuvas associadas ao Helene foram 10% mais intensas por causa das mudanças climáticas induzidas pela ação humana. Outra pesquisa, da U.S. National Science Foundation, sugere que tempestades classificadas como eventos de 100 anos podem se tornar três vezes mais prováveis e 20% mais severas nos próximos 50 anos.

O que Runion fez para tentar recuperar a propriedade?

Depois da tempestade, entre outubro e abril, Runion retirou destroços, empurrou areia com máquinas para tentar se aproximar novamente da camada fértil, aterrrou buracos e nivelou partes irregulares da fazenda. Equipes da FEMA removeram e trituraram árvores derrubadas. Ele solicitou ajuda pública e recebeu quase US$ 1 milhão em recursos estaduais e federais.

Mesmo assim, o produtor afirmou que o valor poderia ter sido consumido integralmente na substituição de equipamentos e no pagamento de mão de obra de limpeza, fertilizantes e combustível. Em junho, ele conseguiu cortar o feno das áreas que não haviam sido inundadas e produziu o suficiente para alimentar o rebanho de 125 cabeças de gado, mas não para venda. Em anos normais, a comercialização de feno respondia por cerca de um terço da renda da fazenda.

Com o solo das áreas atingidas ainda arenoso e empobrecido, Runion concluiu que a recuperação será lenta. Por isso, voltou a investir no projeto do camping, na tentativa de diversificar a renda familiar enquanto a terra agrícola segue em processo de reconstrução.

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