Os fungos resistentes a medicamentos estão avançando de forma silenciosa, com esporos capazes de percorrer grandes distâncias pelo ar, enquanto a ciência enfrenta dificuldades para desenvolver tratamentos eficazes. O alerta foi reforçado por um estudo citado em publicação da revista Nature Medicine, com participação de 50 cientistas liderados pelo professor de micologia clínica Paul Verweij, na Holanda. De acordo com informações da Revista Fórum, o problema combina resistência microbiana, limitação terapêutica e desigualdade no acesso a diagnóstico e controle hospitalar.
Segundo o relato, os especialistas tratam o fenômeno como um “surto silencioso” que ocorre fora do radar. Entre os exemplos citados está a Candida auris, fungo que pode causar infecções graves e frequentemente apresenta resistência a medicamentos. Em entrevista mencionada no texto original, Verweij afirmou que o enfrentamento exige medidas rigorosas de controle de infecção, boa capacidade diagnóstica e monitoramento de pacientes, algo que, segundo ele, muitas vezes não está disponível em países de baixa e média renda.
Por que os fungos resistentes preocupam tanto os cientistas?
O principal motivo é que esses organismos vêm se tornando um desafio crescente para a saúde global, inclusive além do problema já conhecido das superbactérias. De acordo com o pesquisador citado pela reportagem, muitas pessoas podem morrer sem sequer ter o diagnóstico confirmado de uma infecção fúngica resistente, o que dificulta o tratamento e o dimensionamento real do problema.
Outro fator central é a própria biologia dos fungos. Como suas células têm semelhanças com as células humanas, encontrar medicamentos que eliminem o fungo sem causar danos ao organismo humano é uma tarefa complexa. Segundo Verweij, ao longo dos últimos 75 anos, foram desenvolvidas apenas cinco classes de antifúngicos, sendo os azóis os mais importantes nesse grupo.
Como o uso de fungicidas agrícolas entra nessa equação?
O estudo repercutido pela reportagem associa parte do problema ao uso de fungicidas nas lavouras. Segundo Verweij, esses produtos são muito semelhantes a medicamentos usados em pacientes. Com isso, o fungo pode adquirir resistência no ambiente agrícola e, ao mesmo tempo, responder pior aos azóis empregados na medicina.
“O problema é que os fungicidas são muito semelhantes aos medicamentos que damos aos pacientes. Então o fungo se torna resistente ao fungicida e, ao mesmo tempo, nossos azóis médicos não funcionam tão bem”.
O pesquisador ressalta, conforme o texto, que esse seria um efeito não intencional. Ele observa que os fungos que afetam plantações não são os mesmos que causam doenças em humanos, mas a pressão seletiva provocada pelo uso de fungicidas pode favorecer mecanismos de resistência com impacto mais amplo.
- uso de fungicidas semelhantes a compostos usados na medicina;
- seleção de fungos mais resistentes no ambiente;
- dificuldade para tratar infecções em humanos com os mesmos grupos de substâncias.
De que forma esses fungos se espalham?
Segundo a explicação reproduzida pela reportagem, o contágio não depende de contato direto com áreas agrícolas. Fungos filamentosos liberam esporos no ar, e esses esporos podem viajar longas distâncias. A hipótese mencionada é que eles alcancem correntes atmosféricas em grande altitude e, assim, atravessem continentes.
“Então, os bolores – os fungos filamentosos– têm esporos que são liberados no ar. Esses esporos viajam longas distâncias.”
Isso amplia o alcance do problema e dificulta a contenção. Ainda segundo o texto, os seres humanos inalariam esses esporos o tempo todo, o que torna a vigilância e o diagnóstico ainda mais relevantes, sobretudo em ambientes hospitalares e entre pacientes mais vulneráveis.
Quais são os impactos para a saúde e o que os cientistas defendem?
O impacto da resistência já estaria sendo medido em mortalidade. Verweij cita, de acordo com a reportagem, um estudo holandês que encontrou diferença de cerca de 20% na mortalidade entre infecções tratáveis e resistentes. O dado, apresentado no texto original, reforça o peso clínico do problema, especialmente em locais com menor estrutura laboratorial.
Para enfrentar esse cenário, os especialistas defendem medidas como:
- avaliação do impacto de novos fungicidas agrícolas sobre a saúde humana;
- ampliação da vigilância sobre infecções fúngicas resistentes;
- estruturação de redes de laboratório;
- mais financiamento para ferramentas básicas de diagnóstico e monitoramento.
A reportagem também destaca que a inclusão dos fungos na lista de patógenos prioritários da Organização Mundial da Saúde, em 2022, é vista como uma oportunidade para ampliar a resposta internacional. Ainda assim, segundo Verweij, o avanço depende de recursos para ações consideradas elementares, como vigilância, desenvolvimento de ferramentas e organização de redes laboratoriais.