Centenas de delegados chegam nesta semana à Organização das Nações Unidas, em Nova York, para o maior encontro global de povos indígenas, o Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas. A edição deste ano ocorre em meio a um cenário descrito como mais hostil por participantes e especialistas, com debates sobre guerra, mudanças climáticas, expansão da inteligência artificial, projetos de energia verde e barreiras de visto para representantes do Sul Global. De acordo com informações do Grist, o tema oficial do fórum é garantir a saúde dos povos indígenas, inclusive em contextos de conflito.
Segundo a reportagem, especialistas afirmam que os povos indígenas já enfrentam desigualdades em saúde associadas ao colonialismo e à crise climática, e que esses danos se agravam com conflitos armados, militarização, degradação ambiental e deslocamento de comunidades de seus territórios. Nesse contexto, a noção de saúde apresentada pelos participantes não se limita ao atendimento clínico, mas envolve ambiente, terra, cultura, alimentação e soberania.
Por que a saúde indígena está no centro do debate?
O texto destaca um relatório de Geoffrey Roth, descendente de Standing Rock Sioux, ex-vice-presidente do fórum e presidente do conselho da Indigenous Determinants of Health Alliance. No documento, ele argumenta que a saúde indígena deve ser entendida de forma ampla, a partir de fatores como posse da terra, autoridade de governança, acesso a alimentos tradicionais e participação em decisões que afetam as comunidades.
“You can’t separate human health from the health of the environment, or our culture, or our language,” Roth said. “Indigenous people view health from a holistic perspective.”
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A reportagem informa que Roth critica abordagens fragmentadas adotadas com frequência por governos e pelo próprio sistema da ONU. Para ele, políticas de biodiversidade que ignoram direitos indígenas deixam de restaurar a posse territorial tradicional, enquanto iniciativas de saúde mental que desconsideram o apagamento linguístico promovido pelo Estado deixam de reconhecer o papel da revitalização das línguas no bem-estar das comunidades.
Quais obstáculos delegados relataram para participar do fórum?
Antes mesmo das discussões diplomáticas, parte dos representantes enfrenta restrições práticas para chegar ao evento. Mariana Kiimi Ortiz Flores, identificada pela reportagem como Na Ñuu Savi, do México, e assistente de advocacy da Cultural Survival, relatou que sua organização já viu pedidos de visto serem negados a representantes indígenas da África e, neste ano, também a uma funcionária indígena da América do Sul.
“It’s getting harder and harder to access the United States, not only because of the visa [issues],” said Flores. “People from the Global South, especially Indigenous peoples that have a certain look like brown skin and certain characteristics, we feel threatened because of the general climate of insecurity and hate speech against Latin people and Indigenous peoples.”
Flores também relatou que, no ano passado, lideranças indígenas da Bolívia foram ao fórum para protestar contra a mineração em suas terras tradicionais, mas deixaram o encontro após sofrer assédio, conforme a reportagem. Somados a problemas de saúde, esses episódios contribuíram para a decisão de não retornar.
Como clima, energia verde e mineração entram nas discussões?
Outro eixo da cobertura envolve a extração de minerais críticos para a transição energética. Defensores dos direitos indígenas, segundo o texto, veem nesse avanço um fator de novas violações territoriais. Ao mesmo tempo, reforçam uma reivindicação antiga: que o financiamento climático chegue diretamente às comunidades indígenas, sem intermediação de Estados ou atores estrangeiros.
A matéria também cita o caso da tribo Coquille, no Oregon, que adotou no ano passado, por meio de norma própria, os determinantes indígenas de saúde. Roth afirmou que o trabalho com os anciãos da comunidade, incluindo atividades mensais de pesca, é tratado como parte da saúde coletiva, por manter tradições, fortalecer o bem-estar mental e garantir alimento.
- Conflitos armados e militarização ampliam riscos à saúde e ao território.
- Projetos de energia verde e mineração podem entrar em choque com direitos territoriais.
- Comunidades defendem acesso direto a recursos de financiamento climático.
De que forma a inteligência artificial preocupa lideranças indígenas?
Em outro relatório citado pela reportagem, a ex-presidente do fórum Hindou Oumarou Ibrahim, indígena mbororo do Chade, afirma que a inteligência artificial atua como uma faca de dois gumes. De um lado, governos poderiam apoiar povos indígenas no desenvolvimento de ferramentas para revitalização de línguas ameaçadas e monitoramento territorial. De outro, ela alerta para uma era de extrativismo digital, em que sistemas de IA generativa e empresas de tecnologia coletam conteúdo cultural, conhecimento medicinal, narrativas tradicionais e até dados genéticos.
A professora Lydia Jennings, da Dartmouth College, afirmou à reportagem que passou a defender a soberania de dados indígenas depois de descobrir que uma mineradora havia retirado informações sobre práticas culturais indígenas de um estudo de impacto ambiental e usado esse material em seu site para promover um projeto de mineração. Para ela, embora a IA possa oferecer oportunidades, também há preocupação com o uso de dados sem consentimento e com os riscos que grandes centros de dados representam para terras e recursos hídricos em territórios tribais.
“Who has the power and how do we redistribute that power?” she asked.
Ao reunir essas discussões, o fórum da ONU expõe como saúde, território, clima, guerra e tecnologia aparecem de forma interligada para os povos indígenas. A reportagem mostra que, para muitos participantes, a disputa central não é apenas por presença em espaços multilaterais, mas por reconhecimento efetivo de direitos, controle sobre terras, cultura e dados, e participação real nas decisões que afetam suas comunidades.