Executivo da Nestlé financiou torturador durante a ditadura militar no Brasil - Brasileira.News
Início Política & Poder Executivo da Nestlé financiou torturador durante a ditadura militar no Brasil

Executivo da Nestlé financiou torturador durante a ditadura militar no Brasil

0
5

Documentos históricos apontam que Oswaldo Ballarin, ex-presidente executivo da Nestlé no Brasil, é acusado de financiar e contratar os serviços de um notório torturador durante a ditadura militar brasileira. O caso, que detalha o repasse de verbas de multinacionais para os porões do regime, evidencia o envolvimento do setor corporativo na estruturação de aparatos de repressão nas décadas de 1960 e 1970.

De acordo com informações da Agência Brasil, a denúncia foi aprofundada pelo podcast Perdas e Danos, da Radioagência Nacional. Os registros detalham que a gigante da indústria alimentícia deixou rastros documentais de seu apoio a organizações conservadoras e ao aparelho de Estado responsável por perseguições políticas no país.

Como as multinacionais financiaram a repressão no Brasil?

Antes mesmo do golpe de 1964, o então presidente da filial brasileira, Gualter Mano, realizou contribuições financeiras para o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), um grupo de empresários e militares que preparou o terreno para a ruptura institucional. Os comprovantes desses repasses estão guardados no Arquivo Nacional.

A participação da corporação suíça também está registrada no segundo volume do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. O documento cita um banquete organizado pelo ex-ministro Delfim Netto, no qual executivos e banqueiros foram convidados a doar 110 mil dólares para reforçar o caixa da Operação Bandeirantes (OBAN), estrutura clandestina que serviu de laboratório para a criação dos centros de tortura DOI-Codi. O relatório detalha a colaboração do setor privado:

— Publicidade —
Google AdSense • Slot in-article

“Também colaboraram multinacionais como a Nestlé, General Eletric, Mercedes Benz, Siemens e Light”

Qual era o papel de Oswaldo Ballarin no esquema?

O executivo assumiu a presidência da marca de alimentos entre os anos de 1971 e 1978. Simultaneamente, ocupou o cargo máximo na Brown Boveri (atual ABB), empresa suíça do setor de automação que operou em grandes obras governamentais, como a Usina de Itaipu. Com trânsito livre entre os governos militares, ele foi homenageado pelas Forças Armadas no final do ano de 1970 por seu apoio à repressão.

Atuando pelo consórcio do setor elétrico, ele é apontado como o responsável por contratar a Consultores Industriais Associados (CIA). Apesar de utilizar a mesma sigla do serviço de inteligência norte-americano e se apresentar como uma agência de relações públicas, a entidade de fachada atuava de outra forma:

  • Vigilância e perseguição de trabalhadores e opositores.
  • Arrecadação de fundos corporativos para o Estado.
  • Equipamento técnico e financeiro do sistema de tortura oficial.

Quem comandava a agência de fachada contratada pelo executivo?

A direção da empresa contratada estava nas mãos de Robert Lentz Plassing. Conhecido nos porões do DOI-Codi do Rio de Janeiro pelo codinome Samuca, ele figura no relatório da comissão oficial do Estado brasileiro como uma das 377 pessoas diretamente responsáveis por torturas e assassinatos durante o período ditatorial.

Em novembro de 1979, organizações de direitos humanos enviaram um dossiê ao Conselho Federal Suíço contendo 16 documentos que comprovavam as relações empresariais com esquadrões da morte. A pesquisadora Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, encontrou os registros que provam os repasses ao abrir os arquivos da Brown Boveri na Europa. Sobre a tentativa de acessar os dados da indústria de alimentos, a pesquisadora relatou:

“Ela [a Nestlé] me recusou o acesso três vezes aos arquivos”

Quais foram os impactos econômicos e sociais dessa aliança?

Enquanto financiavam a repressão, as corporações registravam lucros expressivos. Entre os anos de 1971 e 1975, a rentabilidade da empresa alimentícia no país praticamente dobrou. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) nacional crescia cerca de nove por cento ao ano durante o chamado milagre econômico, o faturamento da subsidiária atingia a marca de 12%.

Além das acusações de ligações com os agentes do Estado, o período foi marcado por agressivas campanhas comerciais. O dirigente chegou a representar a multinacional em uma audiência pública no Senado dos Estados Unidos em 1978, para responder a questionamentos sobre as táticas de venda de leite em pó. No Brasil, ele possuía autorização para palestrar em faculdades de medicina, priorizando o ensino de fórmulas infantis em detrimento da orientação sobre o aleitamento materno, conduta que gerou denúncias em relatórios internacionais de saúde pública.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

WhatsApp us

Sair da versão mobile