O aumento do endividamento das famílias brasileiras, mesmo após extensos programas governamentais de renegociação, evidencia os desafios e os limites do modelo econômico da atual gestão federal. De acordo com informações do UOL Notícias, em análise assinada pelo economista e pesquisador do FGV IBRE e do BTG Pactual, Samuel Pessôa, o comprometimento da renda nacional com parcelas e juros subiu de 28% no final de 2022 para 29% em 2026.
Este cenário de alta ocorre paradoxalmente em um momento de melhora nos indicadores econômicos do país. Durante o início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva implementou o programa Desenrola Brasil, lançado em 2023 pelo governo federal para facilitar a renegociação de dívidas de pessoas físicas e ampliar o acesso ao crédito.
Como o programa de renegociação afetou o crédito bancário?
As medidas implementadas pelo Ministério da Fazenda surtiram um efeito expressivo nos balanços financeiros. O programa renegociou um montante de R$ 52 bilhões em débitos atrasados. Além disso, o governo federal estabeleceu uma limitação para o acesso ao cartão de crédito, com novas regras para o rotativo.
Nesta nova regra do sistema bancário brasileiro, os juros acumulados no empréstimo rotativo do cartão de crédito não podem ultrapassar 100% do valor da dívida original. Esta imposição criou uma barreira efetiva para evitar que débitos de pequeno valor se transformassem em passivos impagáveis ao longo dos meses.
Por que as famílias continuam contraindo novos empréstimos?
A situação econômica geral das famílias brasileiras apresentou melhorias significativas nos últimos três anos. Os dados demonstram uma conjuntura que, teoricamente, deveria aliviar o peso das contas no orçamento doméstico. Entre os fatores positivos apontados pelos levantamentos econômicos recentes, destacam-se:
- O crescimento de 13,3% na renda real do trabalho principal, medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
- A inflação do grupo de alimentos, que ficou três pontos percentuais abaixo do índice geral de inflação no mesmo período.
- As taxas de desemprego, que atingiram mínimas históricas no mercado de trabalho nacional.
Contudo, a elevação do comprometimento da renda sugere o que especialistas em economia definem como risco moral. A percepção analítica é de que o programa de perdão e renegociação estimulou parte da população a aumentar as apostas e contrair novas dívidas. Os consumidores podem ter assumido novos financiamentos na expectativa de uma segunda edição do programa de alívio no futuro, um comportamento semelhante ao que ocorre nas renegociações de dívidas tributárias de empresas.
Qual é a visão do Governo Federal sobre os gastos pessoais?
A necessidade de alinhar políticas públicas com mudanças reais no comportamento de consumo da população foi reconhecida pelo próprio chefe do Executivo. Durante um evento oficial realizado em Goiás, em março de 2026, o presidente abordou a diferença entre o endividamento produtivo e o consumo supérfluo que prejudica o orçamento familiar.
“A economia está bem, mas nós temos a sociedade brasileira um pouco endividada. Eu vou tentar explicar para vocês o seguinte. Quando a gente tem uma dívida porque a gente comprou um patrimônio novo, por exemplo, uma dívida que você está comprando uma casa, é uma dívida boa. Porque você está devendo, mas você comprou um patrimônio. Se você quiser vender, você vai ganhar dinheiro nisso. […] Então tem algumas dívidas que são necessárias, e eu acho que essa dívida é importante as pessoas terem, para que as pessoas possam crescer”
Quais são os limites do atual modelo de gestão econômica?
O alerta presidencial continuou com foco nos pequenos gastos cotidianos realizados por meio de dispositivos móveis. O mandatário destacou que compras fracionadas de pequeno valor, como pedidos de comida ou aplicativos, acumulam-se silenciosamente até comprometerem todo o salário mensal. O alerta enfatizou que, no fim do mês, quando o dinheiro não é suficiente, a tendência da população é culpar a administração pública pelo aperto financeiro.
“A gente tem que ir fazendo a dívida, sempre olhando aquilo que a gente vai pagar com aquilo que a gente ganha. Se a gente fizer uma dívida maior do que o salário da gente, e a prestação for maior do que o que sobra de dinheiro no final do mês, a gente está lascado. A gente pede comida pelo celular, a gente paga a conta pelo celular, a gente faz compra pelo celular. Quando a gente vai comprando, é R$ 50 ali, é R$ 30, é R$ 40, parece que não é nada. Mas, quando chega ao final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. Aí a gente começa a ficar zangado. Pô, trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada, cara. Não sobrou nada. Aí quem que você xinga? O governo”
Por fim, a análise conclui que as instituições do país precisam ser desenhadas para estimular ativamente um comportamento financeiro e produtivo sustentável. O persistente nível de endividamento, atrelado a um crescimento muito baixo da produtividade do trabalho, sinaliza que a estratégia de tributar e redistribuir recursos sem avaliar cuidadosamente os incentivos comportamentais da sociedade está atingindo o seu esgotamento estrutural.
