A empresa Drax, dona da usina de energia de North Yorkshire, no Reino Unido, recebeu £999 milhões em subsídios em 2025 para gerar eletricidade com a queima de pellets de madeira, segundo cálculos do think tank Ember. O valor, apontado como recorde, foi associado à produção de cerca de 4,5% da eletricidade da Grã-Bretanha no ano passado. De acordo com informações do Guardian Environment, a estimativa indica ainda um custo anual de £13 por residência.
O levantamento afirma que a usina conseguiu receber £2,7 milhões por dia por meio das contas de energia. Segundo os analistas, isso ocorreu em parte por um aumento de cerca de 2% na geração em relação ao ano anterior, mas principalmente pela elevação dos pagamentos de um antigo esquema de apoio a energias renováveis. Desde 2012, a Drax teria acumulado cerca de £8,7 bilhões em subsídios para energia renovável.
Por que os subsídios à Drax estão sob questionamento?
O centro da controvérsia é a origem da biomassa usada pela companhia. Campanhas e cientistas contestam há anos a alegação de que os pellets de madeira queimados pela usina são obtidos de forma sustentável e sustentam que esse modelo pode até aumentar as emissões de carbono. As críticas também geraram preocupação em Westminster sobre as declarações da empresa a respeito do uso de madeira residual de baixo valor proveniente de florestas manejadas de forma sustentável no Canadá.
Em novembro passado, o Guardian informou que especialistas em silvicultura acreditavam que a empresa estava queimando árvores de 250 anos de idade retiradas de algumas das florestas mais antigas do Canadá até o verão anterior. As preocupações sobre o possível uso de madeira vinda de áreas ecologicamente valiosas haviam sido levantadas pela primeira vez em 2022. A Drax negou publicamente as acusações na época.
Documentos judiciais divulgados a jornalistas neste ano, porém, mostraram que integrantes seniores da empresa haviam levantado preocupações internamente sobre as declarações feitas naquele período. Os documentos vieram à tona em um processo movido pelo ex-chefe de lobby da Drax, que alegou ter sido demitido após dizer, em 2022, que a companhia estava enganando o público, o governo e o regulador sobre a sustentabilidade dos pellets importados.
O que dizem os documentos e a resposta da empresa?
A Drax informou que chegou a um acordo com o ex-funcionário no ano passado, após alcançar uma posição mutuamente aceitável, sem admissão de responsabilidade. Após as revelações classificadas como explosivas no texto original, um grupo suprapartidário de 14 parlamentares e membros da Câmara dos Lordes pediu ao secretário de Energia, Ed Miliband, a suspensão dos subsídios à usina enquanto o órgão de fiscalização financeira apura as declarações históricas da companhia.
A empresa afirmou que as acusações já haviam sido investigadas pela Ofgem, reguladora do setor, que não encontrou evidências de manipulação deliberada de dados de sustentabilidade. Ainda assim, a investigação de 16 meses identificou ausência de governança e de controles adequados sobre os dados. A Drax concordou em pagar £25 milhões em compensação por essa violação.
O que muda no novo regime de subsídios?
O governo britânico já reduziu pela metade os subsídios disponíveis à Drax para a eletricidade gerada, em um novo contrato que entrará em vigor no próximo ano e seguirá até 2031. O Executivo também afirmou que a usina deverá fornecer energia apenas quando isso for realmente necessário.
Pelas novas regras, a usina terá de usar biomassa lenhosa proveniente de fontes 100% sustentáveis, acima do patamar atual de 70%. O governo ameaçou aplicar penalidades substanciais em caso de descumprimento.
- Subsídio estimado em 2025: £999 milhões
- Total acumulado desde 2012: cerca de £8,7 bilhões
- Participação na eletricidade da Grã-Bretanha em 2025: cerca de 4,5%
- Nova exigência de sustentabilidade: 100% da biomassa
- Vigência do novo contrato: do próximo ano até 2031
Frankie Mayo, autor do relatório, afirmou:
“While it’s a relief these overly generous payments will halve from 2027, British taxpayers should never have been in this position in the first place.”
“Nearly £1bn for woody biomass burning is an astonishing high-water mark for public subsidies – and a problematic one as prices soar.”
A Drax também revisa o futuro de seu negócio canadense de produção de pellets de biomassa e disse neste ano que deixará de queimar árvores da Colúmbia Britânica antes da entrada em vigor do novo regime de subsídios. Em resposta, um porta-voz da empresa declarou que a usina de North Yorkshire gerou um recorde de 15 terawatts-hora de eletricidade em 2025. A companhia também sustenta que sua operação poderá economizar £3,1 bilhões entre 2027 e 2031 em comparação com uma usina a gás, além de afirmar que substituir sua capacidade de 2,6 GW por novas usinas nucleares ou térmicas exigiria investimentos de bilhões de libras.