A Terra enfrenta um desequilíbrio energético recorde, com aquecimento acelerado dos oceanos, impactos mais intensos no clima e riscos crescentes para a saúde e o abastecimento de alimentos, segundo o relatório State of the Global Climate. De acordo com informações do Guardian Environment, o documento da Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada à ONU, aponta que a atividade humana tem levado o sistema climático a um estado cada vez mais instável ao intensificar a retenção de calor no planeta. Para o Brasil, o tema tem relevância direta porque o aquecimento dos oceanos e as mudanças no regime climático influenciam chuvas, ondas de calor, produção agropecuária e a ocorrência de doenças sensíveis ao clima, como a dengue.
O relatório confirma que o período de 2015 a 2025 reúne os 11 anos mais quentes já medidos. Mas o alerta central vai além da temperatura sentida na superfície: esse aquecimento representa apenas uma pequena parcela do calor acumulado no sistema terrestre. Mais de 90% desse excesso é absorvido pelos oceanos, que registraram em 2025 o maior conteúdo de calor já observado. Segundo o texto, a taxa de aquecimento oceânico mais que dobrou nas duas décadas mais recentes analisadas, em comparação com a média dos 45 anos anteriores.
O que significa o desequilíbrio energético da Terra?
O conceito se refere à diferença entre a radiação que entra e a que sai do sistema terrestre. Em condições de equilíbrio, esses fluxos são aproximadamente equivalentes. O relatório, porém, afirma que um excedente de calor vem se acumulando pelo menos desde 1960 e que essa aceleração se tornou mais evidente nos anos recentes.
Pela primeira vez, o documento acompanha esse indicador e informa que o desequilíbrio energético da Terra aumentou cerca de 11 zettajoules por ano entre 2005 e 2025, volume equivalente a aproximadamente 18 vezes o uso total de energia pela humanidade. Em 2025, esse nível ficou em mais do que o dobro dessa média.
A distribuição desse calor adicional ajuda a explicar por que os oceanos são parte central do problema. Segundo o relatório, 91% do excesso é absorvido pelos mares, 5% pela terra, 1% aquece a atmosfera e 3% é consumido no derretimento de gelo nas regiões polares e em áreas montanhosas elevadas. Em um país com mais de 7 mil quilômetros de litoral, como o Brasil, mudanças na temperatura do mar também afetam ecossistemas costeiros, pesca e a dinâmica de eventos extremos.
Quais são os efeitos já observados no clima e nos oceanos?
Mesmo com apenas uma fração desse calor extra atingindo diretamente a superfície, as temperaturas globais seguem em níveis alarmantes. 2025 foi o segundo ou o terceiro mais quente já registrado, a depender da base de dados utilizada. Líderes mundiais citados no texto afirmam que agora é inevitável que o planeta ultrapasse ao menos temporariamente a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C acima do nível pré-industrial, objetivo estabelecido pelo Acordo de Paris, tratado climático adotado em 2015 e do qual o Brasil é signatário.
Os efeitos apontados já incluem colheitas prejudicadas, agravamento de surtos de dengue e episódios mais severos de ondas de calor, incêndios florestais e tempestades. Nos oceanos, as consequências podem ser ainda mais profundas e duradouras. O relatório destaca a elevação acelerada do nível do mar e informa que a extensão do gelo marinho está no terceiro menor patamar já observado.
“O estado do clima global está em estado de emergência. O planeta Terra está sendo levado além de seus limites. Todos os principais indicadores climáticos estão no vermelho.”
A declaração foi atribuída pelo texto ao secretário-geral da ONU, António Guterres. Em seguida, ele acrescenta que a humanidade atravessou os 11 anos mais quentes já registrados e defende ação diante da repetição desse padrão.
Os autores do relatório também afirmam que mais calor está penetrando em áreas profundas do oceano, afetando a circulação marítima e prolongando os efeitos por milhares de anos. Nas camadas mais próximas da superfície, ondas de calor marinhas e acidificação se tornam problemas crescentes para corais e outras formas de vida marinha. Ao mesmo tempo, o derretimento do gelo contribui para elevar o nível do mar e reduz a capacidade do planeta de refletir radiação solar de volta ao espaço, o que agrava ainda mais o desequilíbrio energético.
O que pode acontecer nos próximos meses?
Segundo o texto, não há sinal imediato de alívio. O Pacífico está saindo de uma fase de La Niña, normalmente associada a temperaturas de superfície mais baixas em várias partes do mundo. As previsões indicam que, até o fim de 2026, esse cenário pode dar lugar a um El Niño, fenômeno ligado a maior aquecimento global. No Brasil, transições entre La Niña e El Niño costumam ser acompanhadas com atenção porque podem alterar o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do país.
“Se fizermos a transição para o El Niño, veremos um aumento da temperatura global novamente e potencialmente para níveis recordes.”
A fala foi atribuída ao Dr. John Kennedy, autor principal do relatório da Organização Meteorológica Mundial. O texto reforça que a combinação entre acúmulo de calor, aquecimento dos oceanos e possível transição para o El Niño amplia o risco de novos recordes de temperatura.
- 2015 a 2025 formam os 11 anos mais quentes já medidos
- 91% do calor excedente é absorvido pelos oceanos
- O desequilíbrio energético aumentou cerca de 11 zettajoules por ano entre 2005 e 2025
- 2025 teve o maior conteúdo de calor oceânico já registrado
- A possível transição de La Niña para El Niño pode elevar ainda mais as temperaturas globais
