Os amantes de frappuccinos e bebidas geladas precisam saber: os copos de plástico da Starbucks, recentemente rotulados como amplamente recicláveis nos Estados Unidos, ainda têm como destino provável os aterros sanitários. Em fevereiro de 2026, a rede de cafeterias se uniu à gigante de resíduos WM e a grupos do setor para anunciar que mais de 60% das residências americanas agora podem descartar esses recipientes em lixeiras de coleta seletiva. Contudo, especialistas alertam que a promessa esconde uma realidade ambiental preocupante, em que coleta não é sinônimo de reciclagem efetiva. Para o leitor brasileiro, a discussão ajuda a mostrar que a presença de coleta seletiva ou de um selo na embalagem não garante, por si só, que o material será de fato reciclado.
De acordo com informações do Grist, a nova classificação garante aos copos um cobiçado selo da organização GreenBlue, que exibe o tradicional triângulo de setas. No entanto, o anúncio confunde duas métricas distintas: a taxa de acesso ao descarte e a verdadeira taxa de reciclagem.
Em termos práticos, ter acesso significa apenas que a prefeitura ou empresa de coleta permite que o item seja colocado na lixeira. Já a taxa real de reciclagem mede o volume de plástico efetivamente transformado em novos produtos. Atualmente, os dados da indústria sugerem que o índice de reciclagem para copos de plástico não ultrapassa a margem de um a dois por cento.
Por que os copos de plástico não são realmente reciclados?
O pesquisador de plásticos Alex Jordan, da Universidade de Wisconsin-Stout, afirma que a estatística do acesso é enganosa.
“Eles podem apresentar uma estatística que faça o público pensar que todas essas coisas estão sendo recicladas, mas infelizmente, mesmo que você limpe, seque e coloque na lixeira, a esmagadora probabilidade é de que termine em um aterro ou seja queimado para geração de energia”.
A raiz do problema está no material. Os copos da Starbucks são fabricados com polipropileno. Trata-se de um tipo de plástico onipresente em embalagens, porém indesejado nas instalações de tratamento. O material costuma chegar contaminado com restos de alimentos, é difícil de separar nas esteiras e seu processamento tem custo elevado. Um gerente de uma central de reciclagem na Califórnia, que preferiu não se identificar por questões comerciais, ressaltou que simplesmente não existem usinas dispostas a comprar o polipropileno recolhido, mesmo que a oferta seja amplamente divulgada.
Quem está por trás do selo de sustentabilidade?
A campanha de relações públicas que resultou no anúncio de fevereiro de 2026 integra um esforço liderado pela The Recycling Partnership (TRP). Esta organização sem fins lucrativos é financiada diretamente por indústrias produtoras de plástico e seus grupos de lobby, incluindo gigantes do setor petroquímico e de bebidas. A iniciativa ganhou força após a China proibir a importação de resíduos plásticos americanos há alguns anos, o que expôs a inviabilidade comercial do polipropileno no mercado interno.
Para obter o selo comercializado pela GreenBlue, a TRP precisava atingir a marca de 60% de taxa de acesso. Reguladores governamentais não fiscalizam a veracidade dessas etiquetas ecológicas. Em vez disso, o selo é vendido a centenas de empresas mediante o pagamento de taxas anuais que chegam a quase R$ 34 mil, dependendo do faturamento da companhia contratante.
Críticos apontam falhas graves na metodologia usada para justificar o rótulo sustentável. Jan Dell, fundadora da organização The Last Beach Cleanup, analisou o cenário e contestou os números divulgados pela indústria. Os principais problemas estruturais apontados pelos especialistas incluem:
- A TRP utilizou ferramentas de inteligência artificial para varrer sites de prefeituras e presumir a aceitação dos copos, sem solicitar dados ou comprovação física das operações.
- Apenas seis por cento da população norte-americana tem acesso real a programas municipais que de fato aceitam e processam os recipientes de polipropileno de forma adequada.
- As empresas de coleta atingem a meta de recolhimento apenas para validar o selo, enviando o material coletado diretamente para incineradores por falta de compradores.
A TRP, por meio de sua diretora de impacto, Kate Davenport, declarou em nota oficial que o acesso por si só não basta e que o foco atual da entidade é investir em comunicação e infraestrutura comunitária. Entretanto, enquanto não houver um mercado comprador sólido disposto a pagar pelos altos custos de triagem e reprocessamento, o selo nos copos continuará servindo mais como uma ferramenta de marketing corporativo do que como uma solução prática para a gestão de resíduos ambientais.
