A União Europeia enfrenta o risco iminente de uma escassez sistêmica de querosene de aviação a partir do mês de maio, caso o tráfego marítimo no estreito de Hormuz não seja totalmente restabelecido dentro de três semanas. A crise de abastecimento, impulsionada pela guerra envolvendo o Irã e os Estados Unidos, ameaça paralisar as operações comerciais nos aeroportos europeus exatamente às vésperas da alta temporada de verão no Hemisfério Norte.
De acordo com informações do UOL Notícias, o alerta emergencial foi emitido pela ACI Europe, entidade que representa o setor aeroportuário no continente. O aviso oficial foi encaminhado por meio de uma carta ao comissário de transportes do bloco europeu, Apostolos Tzitzikostas, documento ao qual o jornal Financial Times teve acesso exclusivo.
Quais são os fatores que agravam a crise de abastecimento na Europa?
A situação do setor aéreo deteriorou-se rapidamente devido a uma combinação de gargalos logísticos e tensões geopolíticas. O estreito de Hormuz é uma rota marítima vital para a economia global, sendo responsável pelo trânsito de cerca de 40% de todo o suprimento mundial de combustível de aviação e 20% da produção global de gás e petróleo.
Além do bloqueio geográfico na região, a entidade europeia destaca que as reservas atuais do insumo estão operando em níveis críticos. A ACI Europe ressalta que o aumento do consumo derivado das atividades militares pressiona ainda mais a disponibilidade do produto no mercado. Em sua manifestação formal aos líderes europeus, a organização declarou:
“Se a passagem pelo estreito de Hormuz não for retomada de forma significativa e estável nas próximas três semanas, a escassez sistêmica de combustível de aviação se tornará realidade para a UE”
.
Como a restrição no estreito de Hormuz afeta o mercado global?
Embora a Europa ainda não sofra com a falta generalizada de combustível nas bombas dos aeroportos, os reflexos financeiros da crise já são severos. Os preços de referência do querosene no noroeste europeu atingiram a marca de US$ 1.573 por tonelada recentemente, um salto expressivo em comparação aos cerca de US$ 750 registrados antes da eclosão da guerra iraniana.
Os desdobramentos diplomáticos mais recentes não foram suficientes para acalmar as operações de mercado. Apesar do anúncio de um cessar-fogo de duas semanas feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, as cotações internacionais do petróleo mantiveram-se em patamares elevados. Em paralelo, quatro aeroportos da Itália já iniciaram restrições de distribuição no último fim de semana devido a falhas de um fornecedor local importante.
Quais medidas as companhias aéreas estão adotando para conter a crise?
A incerteza em relação às entregas contratadas para o mês de maio obrigou empresas do setor a revisar suas grades de voos de forma drástica. As companhias aéreas confirmam que possuem estoques para operar durante algumas semanas, mas já iniciaram planos de contingência diante da imprevisibilidade da cadeia de suprimentos.
Para mitigar os prejuízos e lidar com a disparada desenfreada dos custos operacionais, as transportadoras aéreas globais estão executando as seguintes ações de contenção:
- Corte sistemático de serviços em rotas comerciais que deixaram de ser lucrativas;
- Redução da capacidade de voos, como anunciado pela Delta Air Lines, que cortou 3,5% da oferta, incluindo viagens noturnas e de meio de semana;
- Cancelamento de trechos operados pela Air New Zealand em virtude da alta dos gastos com abastecimento;
- Aumento no valor das passagens aéreas e diminuição de rotas menos populares planejados pela empresa polonesa Lot;
- Racionamento de combustível em aeroportos de países asiáticos, como é o caso do Vietnã.
A Delta Air Lines projeta custos adicionais da ordem de US$ 2 bilhões apenas entre os meses de abril e junho. Diante desse cenário adverso, a ACI Europe solicita à União Europeia a criação de um mecanismo de monitoramento em tempo real para avaliar a produção e a disponibilidade do insumo. A entidade adverte por fim que uma ruptura consolidada no abastecimento causará danos severos à conectividade aérea e gerará impactos econômicos profundos para as economias que dependem do ecossistema turístico europeu.