Ciclistas, usuários de bicicletas elétricas, patinetes e ciclomotores enfrentam condições de alto risco em parte importante da malha viária do Rio de Janeiro, segundo levantamento publicado neste sábado, 12 de abril de 2026. A análise, baseada em dados oficiais da Prefeitura do Rio, aponta que muitas das principais vias da cidade combinam alta velocidade permitida com ausência de infraestrutura cicloviária, o que, segundo especialistas ouvidos na reportagem, amplia a exposição a acidentes e dificulta trajetos seguros.
De acordo com informações do g1, o levantamento foi feito a partir de dados do portal Data.Rio, da Prefeitura do Rio, e avaliou 105 vias distribuídas pela Zona Sul, Centro, Zona Norte e Zona Oeste. A classificação cruzou o limite de velocidade com a existência, ou não, de ciclovia, ciclofaixa ou faixa compartilhada.
O que o levantamento identificou nas vias do Rio?
Entre as 105 ruas analisadas, 43 foram classificadas como de segurança crítica, 24 como de baixa segurança, 35 como de segurança moderada e apenas três como de alta segurança. O estudo também apontou que 67 vias não possuem qualquer tipo de infraestrutura cicloviária.
- 43 vias foram classificadas como de segurança crítica
- 24 ficaram na faixa de baixa segurança
- 35 receberam classificação de segurança moderada
- 3 foram consideradas de alta segurança
- 67 ruas não têm infraestrutura cicloviária
- 11 vias têm ciclovia
- 6 têm ciclofaixa
- 21 contam com faixa compartilhada
Segundo a metodologia descrita na reportagem, vias com velocidade elevada e sem proteção para ciclistas foram enquadradas como de segurança crítica. Já ruas com limite de até 40 km/h sem estrutura cicloviária foram classificadas como de baixa segurança. As vias com velocidade igual ou superior a 40 km/h, mas com alguma infraestrutura, entraram na categoria de segurança moderada, enquanto aquelas com velocidade inferior a 40 km/h e boa estrutura foram consideradas de alta segurança.
Por que especialistas veem risco maior com o novo decreto?
A discussão ocorre em meio ao novo decreto municipal que regulamenta a circulação desses modais na cidade. Embora a medida tenha como objetivo declarado aumentar a segurança, especialistas afirmam que as novas regras podem restringir ainda mais os trajetos disponíveis, especialmente para usuários de bicicletas elétricas e veículos leves reclassificados como ciclomotores.
A professora da Coppe/UFRJ, Marina Baltar, afirmou que é necessário avaliar se as principais rotas de interesse são atendidas por infraestrutura cicloviária. Segundo ela, quando essas ligações não são contempladas, o ciclista fica mais exposto. A professora também disse que, no caso das bicicletas elétricas, as distâncias percorridas tendem a ser maiores, o que reforça a necessidade de planejamento da rede.
“A regulamentação é importante, mas precisamos preparar a cidade para ela. Considerando que toda a regulamentação foi baseada em velocidade e que velocidade é um dos principais fatores para aumentar a severidade dos sinistros, acredito que a primeira medida a ser tomada seria uma gestão de velocidade da via”, avaliou Marina Baltar.
Pela norma citada na reportagem, esses modais não podem circular em ruas com velocidade superior a 60 km/h e também enfrentam limitações em vias de até 60 km/h, especialmente quando há faixas exclusivas de ônibus. Para os especialistas ouvidos, esse desenho regulatório pode reduzir opções de deslocamento e empurrar usuários para percursos mais longos ou mais perigosos.
Quais regiões aparecem como mais problemáticas?
O levantamento aponta um padrão nas vias estruturais da cidade: aquelas com maior fluxo de veículos e função de ligação entre bairros aparecem com frequência entre as mais perigosas para ciclistas. Na Grande Tijuca, mais da metade das 15 vias avaliadas foi classificada como de segurança crítica, entre elas Rua Haddock Lobo, Rua Conde de Bonfim, Avenida Maracanã, Avenida Heitor Beltrão, Rua São Francisco Xavier, Rua 24 de Maio, Rua Teodoro da Silva e Boulevard 28 de Setembro.
A Rua Conde de Bonfim foi citada na reportagem por ter limite de 50 km/h e não possuir infraestrutura cicloviária. O texto relembra que, no fim de março, uma mulher e o filho de nove anos morreram atropelados por um ônibus na via. Para os especialistas entrevistados, a combinação entre velocidade mais alta e ausência de proteção eleva significativamente o risco de acidentes graves.
“Nossa preocupação é muito clara quanto a velocidade (…) estudos mostram que acima de 50km/h é letal para ciclistas e usuários de autopropelidos e ciclomotores”, afirma Vivi Zampieri, gestora de Mobilidade Ativa da Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio.
A análise também menciona outras vias com o mesmo perfil, como Avenida Presidente Vargas, Francisco Bicalho, Avenida Dom Hélder Câmara e Estrada Intendente Magalhães, todas marcadas por alta velocidade, grande fluxo e falta de ciclovias.
Como a falta de infraestrutura se distribui pela cidade?
Na Zona Norte, os dados mostram alguns dos indicadores mais críticos. Em bairros como Benfica, Engenho da Rainha, Méier, Lins de Vasconcelos e Bonsucesso, praticamente todas as vias analisadas não têm qualquer tipo de infraestrutura cicloviária. Das 15 ruas avaliadas nessa parte da cidade, oito foram classificadas como de segurança crítica.
A reportagem aponta uma exceção pontual em Cascadura, onde a Avenida Ernani Cardoso apresenta trecho com ciclovia. Ainda assim, o cenário geral descrito pelos especialistas é de concentração da rede cicloviária em áreas da Zona Sul, especialmente em regiões ligadas ao turismo, enquanto cresce o uso da bicicleta para trabalho, estudo e deslocamentos cotidianos em outras áreas da cidade.
“A rede cicloviária do Rio ainda está muito concentrada na Zona Sul e principalmente nas áreas de turismo, porém hoje o uso da bicicleta para ir ao trabalho, escola e nos afazeres próximos de casa está mais frequente, então é necessário planejar pensando nessa nova dinâmica da mobilidade”, comentou professora Baltar.
Com base nesse diagnóstico, a reportagem destaca que especialistas defendem a revisão da gestão de velocidade nas vias e a expansão da infraestrutura cicloviária como medidas centrais para reduzir a exposição de ciclistas e demais usuários de modais leves no Rio.