As emissões de CO2 associadas aos novos centros de dados planejados no Reino Unido podem ser centenas de vezes maiores do que estimativas oficiais, segundo análise publicada em 23 de março de 2026. O tema envolve a expansão dessas instalações para sustentar a estratégia britânica de ampliar o uso de inteligência artificial, em meio a dúvidas sobre o ritmo dessa expansão, a origem da eletricidade consumida e os impactos sobre as metas climáticas do país. De acordo com informações do Carbon Brief, a diferença entre os cenários depende, sobretudo, de quanto dessa demanda elétrica será atendida por geração a gás.
Para o Brasil, o debate tem relevância porque centros de dados também dependem de grande oferta contínua de eletricidade, e o impacto climático dessas estruturas varia conforme a matriz energética de cada país. No caso brasileiro, a participação elevada de fontes renováveis no sistema elétrico é um fator central nessa discussão, embora a expansão da infraestrutura digital também pressione redes, licenciamento e planejamento energético.
A publicação afirma que o governo britânico concluiu, em sua própria análise, que as emissões dos centros de dados seriam desprezíveis, mesmo em caso de rápida expansão. Já a avaliação do Carbon Brief sustenta que esse impacto pode ser muito maior se ao menos uma pequena parcela da eletricidade necessária vier da queima de gás. O texto também registra que centros de dados poderiam operar integralmente com eletricidade de baixo carbono, mas observa que integrantes do setor têm defendido maior uso de geração a gás para dar suporte às ambições do país na área de IA.
Por que os centros de dados entraram no centro do debate climático no Reino Unido?
Centros de dados são instalações de computação de alto consumo energético usadas para treinar e operar modelos complexos de inteligência artificial, entre outras funções. Segundo o artigo, o Reino Unido está entre os países com maior capacidade desse tipo de infraestrutura, com cerca de 1,8 gigawatt de instalações consumindo mais de 2% da eletricidade nacional.
Esse consumo pode crescer rapidamente. De acordo com a reportagem, empresas já obtiveram compromisso financeiro para investir em 71 novos centros de dados que, se forem construídos, exigiriam cerca de 20 gigawatts de eletricidade, conforme dados citados do regulador de energia Ofgem, órgão responsável pela regulação dos mercados de eletricidade e gás no Reino Unido. Como referência apresentada no texto original, a demanda média de eletricidade do Reino Unido em 2025 foi de aproximadamente 37 gigawatts.
Esse possível aumento na demanda energética tem provocado preocupação entre ativistas e alguns parlamentares britânicos sobre os efeitos da expansão dos centros de dados no cumprimento das metas climáticas. O artigo observa que o plano do governo para atingir a meta climática de 2035 afirmou, no ano passado, que o crescimento da IA não havia sido incorporado às projeções de emissões, embora o secretário de Energia, Ed Miliband, tenha declarado que os novos centros de dados estão contemplados na modelagem do crescimento geral da demanda de eletricidade.
O que está em disputa entre a análise oficial e a avaliação do Carbon Brief?
O ponto central da divergência está na suposição sobre a fonte de energia que abastecerá essas instalações. O governo do Reino Unido mira um sistema elétrico de energia limpa até 2030, com apenas uma pequena parcela de geração a gás remanescente. Nesse cenário, a expansão dos centros de dados exigiria uma aceleração ainda maior da oferta de energia limpa já em curso.
Se essa expansão da energia de baixo carbono não acompanhar o aumento do consumo, os centros de dados podem prolongar o uso de usinas a gás. Segundo o texto, isso pode ocorrer de duas formas: pela necessidade de manter mais geração a gás conectada à rede elétrica ou pela construção, por parte das próprias instalações, de geração a gás no local.
O Carbon Brief ressalta que há incerteza significativa sobre as emissões futuras dos centros de dados no Reino Unido. Entre os fatores citados estão:
- o número de centros de dados efetivamente construídos;
- o grau de limpeza da eletricidade utilizada;
- o momento em que essas unidades entrarão em operação.
A reportagem também informa que o governo publicou, no ano passado, uma análise sobre o impacto climático de sua estratégia para inteligência artificial, junto com um roteiro para centros de dados. Esse material, divulgado pelo Department for Science, Innovation and Technology, indicaria que as emissões futuras dessas instalações seriam mínimas.
Qual é o risco apontado para as metas climáticas britânicas?
Segundo a análise reproduzida pelo Carbon Brief, se os novos centros de dados obtiverem grande parte de sua eletricidade de usinas a gás, as emissões de dióxido de carbono podem atingir um patamar equivalente, no mínimo, ao total anual da Dinamarca. O texto não apresenta esse cenário como inevitável, mas como uma possibilidade vinculada à composição da matriz elétrica que atenderá a nova demanda.
Com isso, a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver planejamento energético e política climática. O avanço da infraestrutura para IA, conforme descrito no artigo, dependerá não apenas do número de projetos anunciados, mas da capacidade do sistema elétrico britânico de fornecer energia de baixo carbono em escala suficiente para evitar um aumento expressivo das emissões.
Assim, a principal conclusão do texto é que o impacto climático dos centros de dados no Reino Unido permanece em aberto. A expansão pode ocorrer com emissões reduzidas, caso seja sustentada por eletricidade limpa, mas também pode pressionar o uso de gás e ampliar de forma relevante o volume de CO2 associado ao setor.
