
A taxa de pessoas solteiras tem crescido de forma acelerada nos Estados Unidos, revelando uma mudança cultural significativa que também encontra reflexos diretos no Brasil, onde as novas gerações estão abandonando ou adiando a ideia do matrimônio formal. Motivados por decepções amorosas, pressões financeiras e novos arranjos de convivência, os jovens adultos reavaliam constantemente a real necessidade de oficializar suas uniões no papel.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, publicadas originalmente pelo jornal The New York Times, dados oficiais do Pew Research Center apontam que os Estados Unidos registraram cerca de 111 milhões de adultos solteiros a partir dos 18 anos em 2023. Esse contingente populacional representa um salto expressivo em comparação aos 70 milhões contabilizados no ano de 1990.
Por que as estatísticas mostram uma queda histórica nos casamentos?
O pesquisador Richard Fry, especialista em tendências demográficas, destaca que as evidências atuais demonstram que o casamento não está apenas sendo adiado para o futuro, mas sumariamente descartado por grande parte da população. Em 2019, o país atingiu a menor taxa de matrimônios em 140 anos. A leve recuperação percebida recentemente é atribuída à redução do número de divórcios e ao aumento da expectativa de vida, fator que diminui a quantidade de viúvos nas estatísticas.
O Censo norte-americano divulgado em dezembro de 2025 reforça essa mudança estrutural na sociedade. Atualmente, apenas 47% dos domicílios nos Estados Unidos são compostos por casais formalmente casados, uma queda drástica frente aos 66% registrados há cinco décadas. Além disso, o centro de pesquisas da Universidade Estadual de Bowling Green constatou que, em 2021, o índice de novos casamentos chegou ao seu patamar mais baixo desde o ano de 1971. No Brasil, um movimento demográfico similar é atestado pelas Estatísticas do Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam uma tendência histórica de queda nos casamentos e o aumento da idade média em que os brasileiros decidem oficializar a união.
Como as diferentes gerações encaram a vida de solteiro hoje?
Para um número cada vez maior de pessoas, a coabitação tornou-se uma escolha suficiente e definitiva. A autora Shani Silver relata que mulheres da geração millennial cresceram sob a promessa de que o casamento seria uma certeza absoluta, mas acabaram frustradas com a realidade. Ela destaca que as mulheres continuam assumindo a maior parcela das responsabilidades domésticas e do trabalho emocional dentro dos relacionamentos modernos.
O cientista comportamental e professor da Universidade do Colorado, Peter McGraw, aponta que o estigma social ainda pune de forma desigual, afetando mais as mulheres solteiras do que os homens na mesma condição. O pesquisador também critica a evolução irrealista das expectativas matrimoniais na atualidade:
“Em 1960, quando você se casava, não esperava que aquela pessoa fosse tudo para você”
McGraw acrescenta que hoje a sociedade exige que o parceiro também atue como melhor amigo, confidente pessoal e apoio profissional, criando um cenário de cobranças excessivas.
Quais fatores afastam os mais jovens do compromisso legal?
A geração Z enfrenta uma profunda incerteza e polaridade em relação ao futuro amoroso. A pesquisadora canadense Alia Rose Ginevra, da Universidade de Toronto, explica que há jovens avessos ao risco que evitam o compromisso a todo custo. Em contrapartida, existe outro grupo que busca estabilidade após se esgotar com a superficialidade promovida pelos aplicativos de relacionamento digital.
Especialistas da área comportamental apontam que a decisão contemporânea de evitar o altar é influenciada por uma série de fatores interligados, que incluem:
- A dificuldade enfrentada pelas novas gerações em alcançar a independência financeira plena.
- A percepção prática de que a união estável ou a simples coabitação oferecem a mesma segurança do casamento formal, sem envolver burocracia legal — um cenário comum no Brasil, onde a união estável garante direitos civis, patrimoniais e previdenciários muito semelhantes aos do casamento tradicional.
- O trauma psicológico gerado por separações anteriores e a observação de processos de divórcio desgastantes na família.
- A preferência por concentrar tempo e recursos no desenvolvimento pessoal em vez de ceder às antigas expectativas sociais tradicionais.
Apesar deste cenário contínuo de retração, a pesquisadora Wendy Manning defende que a instituição familiar não perdeu seu valor absoluto. Para ela, o alto grau de exigência e cautela demonstra que os cidadãos ainda respeitam o casamento, mas optam por aguardar até estarem verdadeiramente preparados emocional e financeiramente para firmar um compromisso definitivo.