Um novo estudo aponta que lagos localizados nas turfeiras da Bacia do Congo podem estar liberando para a atmosfera carbono armazenado há milhares de anos nesses ecossistemas. A pesquisa, publicada em 23 de fevereiro de 2026 na revista Nature Geoscience, analisou amostras de água dos lagos Mai Ndombe e Tumba, na Bacia do Congo, para investigar a origem do dióxido de carbono emitido. De acordo com informações da Mongabay Global, os autores dizem que ainda são necessários mais estudos para entender o impacto desse processo na dinâmica do carbono e nas mudanças climáticas.
Segundo os pesquisadores, os lagos da região já eram conhecidos por emitir CO2, algo que até agora era atribuído principalmente à decomposição recente de matéria vegetal. Mas a nova análise com datação por radiocarbono sugere que parte desse carbono tem origem muito mais antiga. O trabalho indica que cerca de 40% do carbono presente no CO2 analisado parece vir de carbono antigo retido nas turfeiras.
O que o estudo descobriu sobre o carbono liberado pelos lagos?
As turfeiras da Cuvette Centrale, no centro da Bacia do Congo, foram mapeadas apenas há cerca de uma década e ocupam uma área comparável à da Inglaterra, segundo o texto original. Elas armazenam cerca de 30 bilhões de toneladas métricas de carbono. Ao longo de milhares de anos, as condições alagadas da região retardaram a decomposição da matéria orgânica oriunda da floresta, favorecendo a formação de turfa e o acúmulo de grandes volumes de carbono.
Ao estudar amostras de água de dois grandes lagos de “águas pretas”, escurecidos pela alta concentração de matéria orgânica, a equipe usou modelagem estatística para estimar a origem do carbono presente no CO2 emitido. O resultado surpreendeu os autores: quase metade desse carbono pode ter entre 2.000 e 3.500 anos, de acordo com a pesquisa.
O autor principal do estudo, Travis Drake, biogeoquímico do carbono da ETH Zürich, afirmou à Mongabay que águas continentais que drenam ecossistemas altamente produtivos costumam ser fontes naturais de emissão de CO2. No entanto, a presença de uma parcela relevante de carbono antigo abre novas questões sobre como esse material retorna à atmosfera a partir desses ambientes.
Como os cientistas explicam essa possível liberação de carbono antigo?
De acordo com a hipótese apresentada pelos autores, podem existir dois processos distintos. O primeiro é o já mais aceito pela literatura: microrganismos decompõem matéria orgânica recente proveniente da vegetação e produzem carbono orgânico e CO2. O segundo caminho, ainda tratado como hipotético, começaria em camadas profundas da turfa.
Nesse cenário, microrganismos degradariam matéria vegetal muito antiga, liberando CO2 e metano. Depois, parte desse metano seria oxidada em CO2 e alcançaria os lagos, de onde escaparia para a atmosfera. O próprio Drake ressalvou que se trata de um cenário hipotético e que ainda são necessárias novas pesquisas para compreender com precisão esses mecanismos, inclusive a formação do metano.
“O que nos surpreendeu foi que quase metade vinha de carbono antigo da turfa”, disse Drake.
Para pesquisadores ouvidos pela reportagem original e que não participaram do estudo, a hipótese é plausível, mas ainda carece de aprofundamento. Joshua Dean, da Universidade de Bristol, afirmou à Mongabay que o papel do metano na liberação de CO2 antigo parece possível. Já Marijn Bauters, da Universidade de Ghent, destacou que ainda não está claro se esse processo faz parte de um ciclo natural de longa duração ou se reflete alterações mais recentes no sistema.
Por que esse resultado é relevante para o clima?
A importância da descoberta está no tamanho do estoque de carbono dessas turfeiras e na incerteza sobre sua estabilidade. O texto original informa que as turfeiras da Bacia do Congo armazenam cerca de 30 bilhões de toneladas métricas de carbono, volume descrito como equivalente, de forma aproximada, ao que a humanidade emite em três anos com a queima de combustíveis fósseis.
Os autores afirmam que compreender por quanto tempo esse carbono permanece armazenado ajuda a entender melhor o papel das turfeiras no clima. Hoje, esses ecossistemas funcionam como reservatórios de carbono. Se passarem a liberar mais carbono do que acumulam, sua contribuição para o aquecimento global pode mudar. No Brasil, a discussão tem paralelo em áreas alagadas e ricas em matéria orgânica da Amazônia, onde pesquisadores também estudam como rios, lagos e solos influenciam o ciclo do carbono em ecossistemas tropicais.
- O estudo analisou os lagos Mai Ndombe e Tumba.
- A pesquisa foi publicada em 23 de fevereiro de 2026 na Nature Geoscience.
- Cerca de 40% do carbono do CO2 analisado pode ter origem antiga.
- Os autores defendem novas investigações sobre os mecanismos envolvidos.
O texto também ressalta que as turfeiras tropicais do Sudeste Asiático foram amplamente drenadas para a agricultura, o que acelerou a liberação de carbono antigo. Na Bacia do Congo, por outro lado, essas áreas permanecem em grande parte intactas. Por isso, os pesquisadores consideram possível que o fenômeno observado seja essencialmente natural, embora ainda faltem evidências conclusivas.
Além disso, especialistas destacam que os modelos climáticos atuais não incorporam com esse nível de detalhe os processos observados no estudo. Ainda assim, os dados obtidos em uma região de difícil acesso ajudam a preencher lacunas sobre o funcionamento das turfeiras tropicais e sobre o papel de lagos e águas continentais na circulação do carbono. Para o leitor brasileiro, esse tipo de evidência amplia a compreensão sobre processos climáticos em grandes florestas tropicais, tema relevante também para a Amazônia e para o debate global sobre emissões e armazenamento natural de carbono.