
Após duas décadas de atuação na área de tecnologia bancária, a paulistana Priscila Albuquerque, de 42 anos, decidiu transformar radicalmente a própria trajetória. Desde junho de 2025, a profissional de Tecnologia da Informação (TI) optou por vender seu apartamento e seus móveis para se dedicar a viajar pelo Brasil, explorar trilhas na natureza e dançar forró. A guinada ocorreu após ela ser diagnosticada com a síndrome de burnout, um esgotamento mental severo gerado por estresse crônico no ambiente corporativo e reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doença ocupacional.
De acordo com informações do UOL Notícias, o quadro de saúde mental enfrentado por Priscila reflete uma tendência de alta no país. Em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou a concessão de 3.359 benefícios a trabalhadores com o diagnóstico da síndrome, um número quase três vezes superior aos 1.153 auxílios concedidos no ano anterior, conforme dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI).
Como o diagnóstico de burnout motivou a mudança de vida?
A transição não aconteceu de forma abrupta. Após sofrer a crise de esgotamento motivada por mudanças de gestão em seu local de atuação, Priscila buscou ajuda médica, consultando-se com psicólogos e psiquiatras. Com o suporte da área de saúde mental, ela utilizou uma política da empresa que permite o afastamento por dois anos sem remuneração para focar em sua recuperação e em projetos pessoais.
“Eu já tinha esse plano de conhecer o Brasil, conhecer o mundo, viajar, mas o trabalho sempre deixa a gente um pouco preso. Tive um burnout no trabalho depois de uma mudança de gestão, algumas coisas aconteceram, e foi quando resolvi vender meu apartamento e ir atrás desse sonho”, relatou a viajante sobre a sua tomada de decisão.
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Quais foram as estratégias logísticas e de segurança adotadas?
Sem o recebimento de salário durante o período sabático, o planejamento financeiro foi fundamental. Inicialmente, a locomoção entre os estados era feita com veículos alugados. Contudo, após três meses de estrada, ela percebeu que o custo estava alto demais e passou a utilizar ônibus de viagem como uma forma sustentável de baratear os deslocamentos pelo país.
Viajar sozinha pelo território nacional também exigiu a criação de táticas de segurança pessoal. A ex-profissional de tecnologia destaca que as mulheres precisam estar constantemente em alerta. Entre as principais regras que estabeleceu para sua rotina na estrada estão:
- Evitar chegar a uma cidade desconhecida durante o período da noite;
- Analisar criteriosamente o meio de transporte, seja em rodoviárias ou aplicativos de carona;
- Manter atenção redobrada em grandes centros urbanos, onde o risco de incidentes é maior.
Por que o forró se tornou o principal refúgio durante a jornada?
A escolha pelo ritmo nordestino não foi aleatória. Filha de mãe pernambucana, estado que é um dos principais berços tradicionais do forró no país, Priscila tem contato direto com a dança desde a infância. Nesse momento de reestruturação de vida e combate ao estresse crônico, o ambiente musical tornou-se um local de conforto, acolhimento e facilidade de integração social.
“Você pode ir sozinho para o forró, que você vai fazer amizade. Como mulher, às vezes é difícil sair para a noite sozinha, e para o forró você não precisa estar acompanhada, porque você vai estar dançando, interagindo com as pessoas”, explicou.
O roteiro da viagem acompanha rigorosamente a agenda dos maiores festivais do gênero no Brasil. Desde o início da jornada, ela já passou por estados como São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Ao todo, a paulistana calcula já ter participado de 12 ou 13 eventos tradicionais, passando por destinos famosos entre os dançarinos, como a vila de Itaúnas, no Espírito Santo — conhecida como a capital nacional do forró —, além de Caraíva e Cumuruxatiba, no litoral sul da Bahia.
O que o futuro reserva após o fim do período sabático?
Atualmente, Priscila ainda avalia se retornará ao setor de tecnologia quando o prazo de dois anos chegar ao fim ou se buscará uma nova ocupação que faça mais sentido para o seu atual momento existencial. A experiência de cair na estrada, segundo ela, funciona como um antídoto direto contra o ritmo acelerado da vida corporativa moderna, permitindo um processo profundo de observação pessoal.
“Foi isso que me trouxe essa decisão, essa coragem para me organizar e não tomar uma atitude impulsiva – porque eu me organizei durante meses para ter dinheiro”, concluiu, deixando a recomendação de que o planejamento financeiro e o cuidado psicológico são os principais pilares para quem deseja dar uma pausa na carreira em busca de qualidade de vida.