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Big techs dos EUA influenciam sigilo sobre emissões de data centers na Europa

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Empresas de tecnologia lideradas pela Microsoft influenciaram diretamente a legislação da União Europeia para manter sob sigilo dados ambientais de data centers, segundo investigação divulgada nesta sexta-feira, 17 de abril de 2026. O caso envolve a inclusão, no texto final de uma regulamentação europeia, de uma cláusula que classifica como confidenciais informações detalhadas sobre consumo de energia, uso de água e eficiência dessas instalações. De acordo com informações do Convergência Digital, com base em apuração do consórcio Investigate Europe, a medida levanta questionamentos sobre transparência e compatibilidade com normas europeias e acordos internacionais.

A articulação teve apoio da DigitalEurope, grupo de lobby que reúne empresas como Amazon, Google e Meta. Segundo a apuração, a cláusula de confidencialidade foi incorporada quase integralmente a partir de propostas apresentadas pela indústria de tecnologia durante consultas públicas realizadas em 2024. O argumento defendido pelo setor foi o de que dados individuais sobre desempenho ambiental dos centros de dados deveriam ser tratados como “comercialmente sensíveis”.

Como a cláusula de sigilo entrou na regra europeia?

A regra foi incluída pela Comissão Europeia no texto final da regulamentação publicada em março de 2024, no contexto da revisão da diretiva de eficiência energética. O dispositivo determina que tanto a Comissão quanto os Estados-membros mantenham confidenciais “todas as informações e indicadores de desempenho de data centers individuais”. Na prática, isso também impede o acesso a esses dados por meio de leis de transparência.

De acordo com a investigação citada pelo Convergência Digital, a redação final representou uma mudança em relação à proposta inicial. Em dezembro de 2023, a Comissão Europeia havia sugerido que os dados fossem divulgados ao menos de forma agregada. Depois disso, contribuições idênticas apresentadas por Microsoft e DigitalEurope pediram a inclusão de um novo dispositivo para classificar como sigilosas todas as informações individuais. A sugestão, ainda segundo a apuração, acabou incorporada quase palavra por palavra ao texto final.

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Quais são os efeitos práticos da medida?

Na prática, a nova regra limita o acesso público a dados nacionais consolidados, enquanto informações específicas sobre o impacto ambiental de cada instalação ficam fora do alcance de pesquisadores, jornalistas e comunidades afetadas. A investigação informa ainda que documentos obtidos mostram que autoridades europeias chegaram a orientar governos a negar pedidos de acesso a essas informações.

O tema ganha relevância em meio à expansão da infraestrutura digital no continente. Segundo o texto original, a União Europeia pretende triplicar sua capacidade de data centers nos próximos cinco anos, com investimentos estimados em €176 bilhões, impulsionados pela demanda por inteligência artificial. Nesse cenário, o debate sobre o impacto ambiental dessas estruturas tem se intensificado.

Por que a decisão gera questionamentos jurídicos?

A medida despertou críticas porque envolve dados relacionados a consumo energético, uso intensivo de água e eficiência operacional, pontos frequentemente associados ao debate ambiental. Especialistas ouvidos pela investigação afirmam que a cláusula pode violar regras de transparência da própria União Europeia e compromissos assumidos no âmbito da Convenção de Aarhus, acordo que garante acesso público a informações ambientais.

Segundo a apuração mencionada na reportagem, dez juristas consultados apontaram possíveis incompatibilidades legais. Os questionamentos se concentram na possibilidade de que a classificação generalizada dessas informações como sigilosas reduza a fiscalização pública sobre empreendimentos com impacto ambiental relevante.

  • A cláusula foi incorporada à regulamentação europeia publicada em março de 2024.
  • Microsoft e DigitalEurope apresentaram contribuições com pedido de sigilo sobre dados individuais.
  • As informações protegidas incluem consumo de energia, uso de água e eficiência dos data centers.
  • A investigação aponta dúvidas sobre a compatibilidade da medida com normas da UE e a Convenção de Aarhus.

O caso expõe a disputa entre interesses comerciais e exigências de transparência em um setor que cresce rapidamente na Europa. Ao mesmo tempo em que os data centers ganham papel central no avanço da economia digital e da inteligência artificial, aumenta a pressão para que seus impactos ambientais sejam mais claramente conhecidos pelo público.

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